segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Cheguei junto com a Sandrinha. Entramos no prédio e ela já foi me contando a novidade:
- Seu amigo veio buscar você, ontem. Ficou com cara de bobo quando falei que você saiu para fazer um serviço e não voltou.
Achei engraçado o jeito dela falar e sorri. Gostei de saber que você foi me procurar no final do expediente. Ela continuou:
- Mila, você não é assim. O rapaz já veio procurar por você duas vezes e você não estava. Por que você está fazendo isso com ele? Ele parece ser um cara legal.
Eu? Imagine! Parece que você ganhou uma aliada, uma defensora. Expliquei que, nas duas vezes, eu não sabia que você iria até lá. E havia sido com você que eu havia almoçado, que você poderia ter me avisado que passaria lá no escritório depois. Ela fez uma carinha maliciosa de 'já entendi'.
Estávamos esperando o elevador, quando o Dr. Arnaldo chegou acompanhado do Dr. Felício. Eu e a Sandrinha nos olhamos. Sabíamos que, quando os dois chegavam cedo e juntos, ou iam fazer algum serviço importante ou o pepino era muito grande para resolver.
Subimos todos juntos e os dois foram direto para a sala do Dr. Felício. Ficamos curiosas, mas tínhamos serviço a fazer. Mais tarde, a gente ficaria sabendo o que era.
Cerca de uma hora depois, notamos uma movimentação estranha no prédio. Não deu nem pra pensar no que era. Entrou um policial no escritório, perguntou quantas pessoas estavam lá e todos deviam sair o mais depressa possível, mas sem correr e sem pânico. Não era possível nem pegar nossos pertences. O policial nos indicou a escada, quando fizemos menção de irmos na direção do elevador. As pessoas que desciam dos andares superiores, mostravam um semblante de preocupação, outras de medo. Alguns 'boys' achavam tudo engraçado.
Não nos disseram o quê estava acontecendo. Por duas ocasiões, ocorreram fatos que precisaram isolar dois escritórios de advogados, pois os clientes estavam causando problemas. O primeiro, num caso de separação, apesar de ter concordado, o marido não aceitava ficar longe dos filhos. Ameaçou matar a ex-esposa e, depois, dar cabo na própria vida. Os negociadores levaram mais de duas horas para convencer o cidadão a soltar a mulher e a se entregar.
O outro caso não foi passional, foi criminal. O irmão de um integrante de uma facção criminosa ficou descontente com a atuação do advogado, no caso do irmão, que já tinha outras condenações, começou a quebrar o escritório e ameaçou cortar o pescoço do causídico. No final das contas, como não era réu primário, foi fazer companhia para o irmão.
Descemos os cinco andares até a rua, que estava bloqueada. O quarteirão estava interditado. Policiais com aqueles cachorros lindos, que eu adoro, passavam por entre as pessoas que desciam dos andares. Essa situação é diferente - pensei. No instante seguinte, tive a certeza. Policiais com capacetes e roupas especiais, pesadas, escudos de proteção e outros apetrechos, adentravam, cuidadosamente, no prédio. Olhei para as viaturas estacionadas na rua e, numa delas, na maior, estava escrito "esquadrão anti-bombas". Gelei.
Os policiais conduziam as pessoas para mais longe possível do prédio. Tive uma sensação muito ruim. Lembrei-me de onze de setembro, em 2001, dos atentados ao WTC (World Trade Center). O primo Artur, que eu e minha irmã chamávamos de tio, apesar de ser primo da minha mãe, morreu naquele trágico episódio. Ele havia ido para os Estados Unidos trabalhar como garçom. Esse fato me marcou demais, nós gostávamos muito dele.
Parei próximo de um carro que estava estacionado. Minhas pernas tremiam, apoiei-me no veículo. Não vi você aproximar-se.
- Camila, você está bem?
Não, não estava. A Sandrinha comentou que eu estava pálida. Eu não conseguia falar nada. Parecia que eu não estava ali. Ouvi o Dr. Felício falar para me levar para o hospital. O Dr. Arnaldo disse que sabia porque eu tinha ficado tão abalada e pediu que você me levasse para casa e lhe deu meu endereço. Não me lembro de detalhes. Só me recordo de ter chorado muito e, depois, de minha mãe ter me dado um tranquilizante.

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