Sorri, ao ver você bem.
- Gosto de ver você assim.
- Acho que você fez algum feitiço pr'aquele remédio fazer efeito rápido. Pouco depois que cheguei no escritório, já não estava sentindo mais nada.
- Não falei que você iria melhorar? Não doeu nada.
- Você falou, minha bruxinha. É que eu não gosto de tomar remédio.
- Ninguém gosta, mas, às vezes, é preciso.
Fomos ao shopping novamente. Dessa vez, sem imprevistos. Compramos um lindo presente para Denise. Passamos numa confeitaria para levarmos um gostoso bolo de massa folhada com creme de baunilha e chantilly, o preferido de sua irmã. Era um jantar familiar, dei-me conta que, as únicas pessoas que não faziam parte do clã, eram eu e o Alex, o namorado da Dê. Por um instante me senti constrangida. Depois, relaxei. Todos me tratavam como se me conhecessem há anos, eu estava integrada na sua família, como você na minha.
Quando conversava com sua irmã, ou outro membro da sua família, sentia seu olhar me observando. Quando você se distraia, eu é que ficava observando você. Seu irmão Augusto, perspicaz, notou nosso jogo de olhares. Aproximou-se de mim e perguntou:
- Até quando vocês vão ficar fazendo esse jogo? Até o gelo virar água?
- Quê? Não entendi, o quê você quer dizer?
- Deixa quieto!
Fiquei sem entender. Mais uma vez, eu ouvia falar em gelo e não entendia. Ninguém me explicava. Eu não ia sair perguntando pra todo mundo. Quem não soubesse o que era, como eu, iria achar que eu estava meio maluca. Mais cedo ou mais tarde, eu descobriria.
Ao final do jantar, todos surpreenderam-se com o presente que Alex deixou para dar para a namorada, após a sobremesa: um lindo anel de ouro. Fez o pedido formal para Seu Otávio e firmou noivado com Denise.
Dona Isabel, muito emotiva, desmanchou-se em lágrimas. Seu Otávio, como todo pai zeloso com a filha, começou a dar recomendações para o jovem. Seu irmão parabenizou o casal e não perdeu a chance de alfinetar você:
- Olha aí, maninho, a caçulinha da família nos passou a perna. Eu pensei que você fosse o primeiro a desencalhar. Daqui a pouco, você vai passar da idade...
- Vai ver se estou na esquina, Augusto.
- Gustavo, Augusto, Denise, Alex, Camila, mamãe, venham todos aqui - chamou Seu Otávio - Este momento merece um brinde, meus filhos. Vamos brindar a felicidade e ao futuro de vocês. Que todos vocês sejam muitos felizes! Isso já fará a minha felicidade e a da mamãe.
Você me abraçou pela cintura com uma das mãos e brindamos com todos. Aproximei-me mais de você e me aconcheguei em seu peito. Seu pai nos olhava com um sorriso de aprovação. Ouvi o Augusto falar baixinho pra sua mãe:
- Acho que o único que vai ficar encalhado sou eu!
Foi uma noite muito agradável. Com o carinho da família e o amor do, agora, noivo, Denise parecia estar superando bem o acontecido. Ninguém tocou no assunto. Num dia festivo, não havia quem ousasse lembrar um fato ruim. Como sempre, você me deixou em casa. Você me adiantou que não poderia almoçar comigo, no dia seguinte. Respirei aliviada, porque teria um encontro, na hora do almoço, que ajudaria na minha decisão de abandonar o Direito. Porém, só queria contar a você, depois que tomasse minha decisão. Não queria sofrer nenhuma influência. Uma vez tomada, essa decisão seria irreversível.
sexta-feira, 21 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
Ledo engano. Dormi como uma pedra. Acordei diferente, me sentia outra pessoa. Arrumei-me com esmero, iria jantar com sua família, era aniversário da Denise. Já tinha comprado um presente para ela e sabia que você queria presenteá-la com algo especial, principalmente depois do que ela passara. Liguei pra você:
- Bom dia, querido. Conseguiu descansar?
- Um pouco.
- O que foi? Você não está legal.
- Acordei com um pouco de dor de cabeça, mas não se preocupe, passa logo. Daqui a pouco, passo aí.
- Então, sobe. Vou lhe dar um comprimido e você toma café com a gente.
- Não precisa. Eu detesto remédio. Vai passar logo.
- O remédio não dói, você nem vai sentir que tomou. Não discuta, estou esperando você.
- Discutir com você é perder na argumentação. Até mais.
Quando você chegou, notava no seu semblante que não estava bem. Minha mãe ficou preocupada, disse que era melhor você não ir trabalhar, até prontificou-se em levá-lo num médico.
- Eu agradeço, Dona Carol. Mas vou melhorar com esse comprimido que sua filha me enfiou garganta abaixo.
- Não reclama, crianção. Você tem de estar bem, hoje à noite. Esqueceu do aniversário da sua irmã?
- Se você chegar na casa de seus pais com essa cara, todo mundo vai pensar que você encheu o latão antes da festa - tascou a Bia.
- Dona Carol, só a senhora me trata com carinho. Olha como suas filhas me tratam?!
- Gustavo, meu filho, todas nós aqui gostamos muito de você. Não leve as brincadeiras das meninas a sério. Na realidade, elas estão preocupadas com você.
Minha irmã era muito palhaça, gostava de brincar com as pessoas.
- Claro que estou preocupada, já pensou se ele morre aqui em casa? Como iremos explicar à polícia que foi, apenas, um comprimido contra dor e não veneno que a Mila deu pra ele?
- Eu não daria veneno pro Guto, Bia sem-graça.
- Eu sei, ele sabe, todos sabemos, mas a polícia não.
- Eu não vou morrer, irmãzinha. E você sabe que não sou de encher o latão, como você disse.
- Parem com isso, vocês estão parecendo um bando de crianças em idade pré-escolar - sentenciou Dona Carol, cansada das brincadeiras.
A palavra de Dona Carol foi uma ordem. Resolvemos ir trabalhar. Disse-lhe que, se quisesse, eu acompanharia você, na hora do almoço, se estivesse bem, para comprar o presente da sua irmã. Você disse que tinha uma reunião antes do almoço e poderia não dar certo. Deixamos para o final do expediente. Passei o dia preocupada com você, mas não queria ficar ligando. No fim do dia, seu aspecto era outro. Nem parecia com o Gustavo que tinha passado em casa de manhã.
- Bom dia, querido. Conseguiu descansar?
- Um pouco.
- O que foi? Você não está legal.
- Acordei com um pouco de dor de cabeça, mas não se preocupe, passa logo. Daqui a pouco, passo aí.
- Então, sobe. Vou lhe dar um comprimido e você toma café com a gente.
- Não precisa. Eu detesto remédio. Vai passar logo.
- O remédio não dói, você nem vai sentir que tomou. Não discuta, estou esperando você.
- Discutir com você é perder na argumentação. Até mais.
Quando você chegou, notava no seu semblante que não estava bem. Minha mãe ficou preocupada, disse que era melhor você não ir trabalhar, até prontificou-se em levá-lo num médico.
- Eu agradeço, Dona Carol. Mas vou melhorar com esse comprimido que sua filha me enfiou garganta abaixo.
- Não reclama, crianção. Você tem de estar bem, hoje à noite. Esqueceu do aniversário da sua irmã?
- Se você chegar na casa de seus pais com essa cara, todo mundo vai pensar que você encheu o latão antes da festa - tascou a Bia.
- Dona Carol, só a senhora me trata com carinho. Olha como suas filhas me tratam?!
- Gustavo, meu filho, todas nós aqui gostamos muito de você. Não leve as brincadeiras das meninas a sério. Na realidade, elas estão preocupadas com você.
Minha irmã era muito palhaça, gostava de brincar com as pessoas.
- Claro que estou preocupada, já pensou se ele morre aqui em casa? Como iremos explicar à polícia que foi, apenas, um comprimido contra dor e não veneno que a Mila deu pra ele?
- Eu não daria veneno pro Guto, Bia sem-graça.
- Eu sei, ele sabe, todos sabemos, mas a polícia não.
- Eu não vou morrer, irmãzinha. E você sabe que não sou de encher o latão, como você disse.
- Parem com isso, vocês estão parecendo um bando de crianças em idade pré-escolar - sentenciou Dona Carol, cansada das brincadeiras.
A palavra de Dona Carol foi uma ordem. Resolvemos ir trabalhar. Disse-lhe que, se quisesse, eu acompanharia você, na hora do almoço, se estivesse bem, para comprar o presente da sua irmã. Você disse que tinha uma reunião antes do almoço e poderia não dar certo. Deixamos para o final do expediente. Passei o dia preocupada com você, mas não queria ficar ligando. No fim do dia, seu aspecto era outro. Nem parecia com o Gustavo que tinha passado em casa de manhã.
domingo, 9 de maio de 2010
A semana começou tranquila, sem grandes novidades, sem tumulto e nenhum acontecimento peculiar. Os comentários de todos, a respeito de todos, os que estavam na casa de seus pais, no domingo, foram muitos. Todos estavam muito à vontade, houve uma grande empatia entre as pessoas. Você me contou que seu pai gostou muito de mim e de saber que eu era advogada e trabalhava com o melhor amigo dele. Nem imaginava ele, que eu não estava me sentindo confortável com tudo o que estava acontecendo no escritório, que estava só empurrando com a barriga, ganhando tempo para tomar uma decisão que iria mudar o curso da minha vida.
Na quarta-feira, você quiz comemorar um contrato difícil que, com sua ajuda, havia sido assinado com sucesso. Iríamos jantar no restaurante que você me levou na primeira vez que saimos juntos. Senti que não era, apenas, uma comemoração por causa do contrato, havia algo mais, que você estava escondendo. O fato de escolher o local onde fomos pela primeira vez já queria dizer alguma coisa.
Como era cedo para irmos para o restaurante, saimos do edifício e fomos até um shopping, comprar um presente para sua irmã, que iria fazer aniversário no dia seguinte. Você me pediu para ajudá-lo a escolher algo especial. Não era tarde, mas já tinha escurecido. Nem chegamos a escolher o presente da Denise, seu telefone tocou. Seu rosto transformou-se, a notícia não era boa.
- Como ela está? Esse desgraçado chegou a fazer alguma coisa? Foi preso? Se ele fez alguma coisa, eu vou arrebentá-lo. Onde estão? Estou indo.
- O quê aconteceu?
- Minha irmã, tentaram estuprá-la no estacionamento, na saída da academia. O namorado dela viu e impediu, desarmou o cara e o prendeu até a chegada da polícia. O nosso jantar vai ficar pra outro dia, querida. Vou deixar você em casa e vou pra delegacia.
- Vou com você pra delegacia.
- Não vou levar você pra uma delegacia.
- Você se esqueceu que sou advogada? Eu posso ser útil. Além do mais, não quero que você faça nenhuma besteira. Vi como ficou. E foram mexer com sua irmã, sei como ela é especial para você.
- Não se trata, apenas, do carinho que tenho por ela. Estupro é abominável. Eu não suporte esses delinquentes que querem pegar mulheres a força... Se acontecesse alguma coisa assim com você, eu mataria o infeliz!
Eu nunca tinha visto você assim. Por um minuto, calei-me e senti que era importante para você. Porém, não era o momento para isso.
- Não vai acontecer nada, meu amor. Vamos, eu vou com você. Me deixa ficar do seu lado, neste momento. E num ambiente tão masculino como uma delegacia, sua irmã pode estar se sentindo constrangida. Se eu for com você, ela não se sentirá tão...
- Tá bom, você venceu.
Quando chegamos no distrito policial, o flagrante já estava sendo registrado, as partes sendo ouvidas, separadamente, pelo delegado e pelo escrivão. Denise estava com seu top de ginástica rasgado no ombro e um leve arranhão se desenhava em seu braço. O tarado tentou arrancar sua roupa, mas num movimento brusco, ela deu um puxão em seu braço e desvencilhou-se. Denise estava com a cabeça apoiada nos ombros largos de Alex, o namorado. Algumas lágrimas persistiam em escorrer de seus olhos. Quando nos viu, baixou os olhos, envergonhada, como se a culpa pelo quê aconteceu fosse dela. Você abraçou-a, carinhosamente:
- Minha menininha, você está bem? Esse infeliz machucou você?
- Não, Guto. Tá tudo bem comigo. Estou assustada com tudo o quê aconteceu. Se não fosse o Alex...não quero nem pensar...
- Gustavo, eu não avisei nada pro seus pais, ainda. Sei que Dona Isabel ficaria muito abalada e quiz preservá-la, por isso liguei pra você.
- Fez bem, Alex. A gente conta quando chegar em casa. E onde está o bandido?
- O delegado está tomando o depoimento dele. Vou avisar você que eu bati um pouquinho nele; estou até com receio que me enquadrem numa agressão.
- Não acredito que façam isso, Alex. Você estava defedendo uma pessoa, que é a sua namorada. E prendeu o indivíduo. Um bandido a menos nas ruas. Eu argumento a seu favor, se surgir essa possibilidade.
- Obrigado, Mila.
Instantes depois, o delegado saiu de sua sala. Logo atrás, dois policiais conduziam um indivíduo magro, cabelo bem curto, algemado. Os olhos estavam quase fechados, inchados, viam-se hematomas por todo o rosto, um corte no lábio inferior, andava com dificuldade. Eu fiquei impressionada com o estado do bandido, ele tinha apanhado bastante. Quando Alex falou que bateu "um pouquinho", não dava para imaginar a situação que tinha ficado o cara. Depois, soubemos que ele, também, havia levado uns sopapos e "cola-brincos" dos policiais.
Alex era um rapaz de estatura mediana, musculoso, praticava artes marciais, cabelos curtos e claros, olhos verdes. Quem o via, a primeira vista, o confundia com um "pittboy". Na realidade, era um rapaz da paz, do bem, não gostava de confusão. Era dono da academia onde Denise trabalhava como orientadora nutricional e, também, praticava seus exercícios.
Depois de lavrado o flagrante, instaurado o inquérito, tomadas todas as medidas de praxe, o que levou horas, fomos todos para casa de seus pais. Seu Otávio ouviu tudo sem pronunciar-se. Já Dona Isabel caiu em prantos diante do que poderia ter acontecido com a filha. Acalmamos a todos, pois a situação já estava resolvida e tudo sob controle. Quando estávamos saindo, Denise me chamou:
- Mila, eu queria agradecer você pela força.
- Você não tem de agradecer. Você passou por uma situção difícil, vai demorar um pouquinho para você superar, mas vai passar. Felizmente, nada de grave aconteceu. Você tem sorte de ter um namorado como Alex. Ele adora você e defenderia você até de uma quadrilha de terroristas.
- Tenho certeza que o Gustavo faria o mesmo por você. Ele teve sorte em ter conhecido você.
- Vou aceitar isso como um elogio, Dê.
- O Guto, como meu irmão mais velho, sempre foi um "paizão" pra mim, sempre me defendeu, sempre me protegeu. Ele é meu ídolo. Minha mãe conta que, quando eu era bebê, ele gostava de tomar conta de mim. Mila, cuida bem dele pra mim!
- Se depender de mim, Denise...
- O quê minhas garotas estão cochichando?
- Coisas de mulher, maninho.
- Vamos, Mila. Vou levá-la pra casa, seus pais devem estar preocupados.
- Sim, senhor. Estou as suas ordens.
- Engraçadinha!
- Eu sei, não sou ave-maria, mas sou cheia de graça.
- Tchau, Dê. Vou levar logo esta chata pra casa. Amanhã, venho ver você.
- Tchau, Dê. Daqui a pouco, seu irmão estará me puxando pelo cabelo...
- Tá me chamando de homem das cavernas?
- É você quem está dizendo.
- Vocês não tem jeito, hein? Guto e Mila, vocês estão se merecendo.
As brincadeiras eram uma forma de descontrair um pouco. Sua irmã ficou muito abalada, claro, quem não ficaria? Ainda bem que nada aconteceu. Você me levou pra casa. Ficou em silêncio durante todo o percurso. Não ousei falar nada, sabia que, o quê havia acontecido com a Denise, havia deixado você muito perturbado. Quando parou o carro em frente de casa, você respirou fundo e reencostou-se no banco. Aproximei-me de você e dei-lhe um beijo no rosto.
- Vai descansar um pouco. Já está tudo bem, procure relaxar...
Você não me deixou terminar, me tomou em seus braços e me beijou. Um beijo diferente, intenso e terno ao mesmo tempo, com carinho, apaixonado. Retribuí, entregando-me a seus lábios. Ficaria assim pelo resto da noite.
- Você não existe, Mila!
- Claro que existo. Quem você acabou de beijar? Um fantasma?
- Você entendeu o quê quiz dizer. Você é muito especial para mim. Precisamos conversar mais sobre nós, você sabe disso.
Assenti com a cabeça. Parece que estávamos na mesma sintonia. Estreitar nosso laço, firmar nossa relação, selar nosso amor. Já não era sem tempo. Pela primeira vez, senti o quão sério você considerava o nosso relacionamento. Pela primeira vez, você demonstrava o quanto gostava de mim. Senti-me especial e muito feliz em estar amando você e sendo amada. Abracei você, acariciei seus cabelos e ofereci meus lábios para um novo beijo. O mundo poderia parar naquele momento. Queria ficar com você, contudo a realidade nos chamava, dizendo que no dia seguinte tínhamos de trabalhar. Sabia que não conseguiria dormir. Um turbilhão de fatos, sentimentos e sensações não me deixaria cair no sono...
Na quarta-feira, você quiz comemorar um contrato difícil que, com sua ajuda, havia sido assinado com sucesso. Iríamos jantar no restaurante que você me levou na primeira vez que saimos juntos. Senti que não era, apenas, uma comemoração por causa do contrato, havia algo mais, que você estava escondendo. O fato de escolher o local onde fomos pela primeira vez já queria dizer alguma coisa.
Como era cedo para irmos para o restaurante, saimos do edifício e fomos até um shopping, comprar um presente para sua irmã, que iria fazer aniversário no dia seguinte. Você me pediu para ajudá-lo a escolher algo especial. Não era tarde, mas já tinha escurecido. Nem chegamos a escolher o presente da Denise, seu telefone tocou. Seu rosto transformou-se, a notícia não era boa.
- Como ela está? Esse desgraçado chegou a fazer alguma coisa? Foi preso? Se ele fez alguma coisa, eu vou arrebentá-lo. Onde estão? Estou indo.
- O quê aconteceu?
- Minha irmã, tentaram estuprá-la no estacionamento, na saída da academia. O namorado dela viu e impediu, desarmou o cara e o prendeu até a chegada da polícia. O nosso jantar vai ficar pra outro dia, querida. Vou deixar você em casa e vou pra delegacia.
- Vou com você pra delegacia.
- Não vou levar você pra uma delegacia.
- Você se esqueceu que sou advogada? Eu posso ser útil. Além do mais, não quero que você faça nenhuma besteira. Vi como ficou. E foram mexer com sua irmã, sei como ela é especial para você.
- Não se trata, apenas, do carinho que tenho por ela. Estupro é abominável. Eu não suporte esses delinquentes que querem pegar mulheres a força... Se acontecesse alguma coisa assim com você, eu mataria o infeliz!
Eu nunca tinha visto você assim. Por um minuto, calei-me e senti que era importante para você. Porém, não era o momento para isso.
- Não vai acontecer nada, meu amor. Vamos, eu vou com você. Me deixa ficar do seu lado, neste momento. E num ambiente tão masculino como uma delegacia, sua irmã pode estar se sentindo constrangida. Se eu for com você, ela não se sentirá tão...
- Tá bom, você venceu.
Quando chegamos no distrito policial, o flagrante já estava sendo registrado, as partes sendo ouvidas, separadamente, pelo delegado e pelo escrivão. Denise estava com seu top de ginástica rasgado no ombro e um leve arranhão se desenhava em seu braço. O tarado tentou arrancar sua roupa, mas num movimento brusco, ela deu um puxão em seu braço e desvencilhou-se. Denise estava com a cabeça apoiada nos ombros largos de Alex, o namorado. Algumas lágrimas persistiam em escorrer de seus olhos. Quando nos viu, baixou os olhos, envergonhada, como se a culpa pelo quê aconteceu fosse dela. Você abraçou-a, carinhosamente:
- Minha menininha, você está bem? Esse infeliz machucou você?
- Não, Guto. Tá tudo bem comigo. Estou assustada com tudo o quê aconteceu. Se não fosse o Alex...não quero nem pensar...
- Gustavo, eu não avisei nada pro seus pais, ainda. Sei que Dona Isabel ficaria muito abalada e quiz preservá-la, por isso liguei pra você.
- Fez bem, Alex. A gente conta quando chegar em casa. E onde está o bandido?
- O delegado está tomando o depoimento dele. Vou avisar você que eu bati um pouquinho nele; estou até com receio que me enquadrem numa agressão.
- Não acredito que façam isso, Alex. Você estava defedendo uma pessoa, que é a sua namorada. E prendeu o indivíduo. Um bandido a menos nas ruas. Eu argumento a seu favor, se surgir essa possibilidade.
- Obrigado, Mila.
Instantes depois, o delegado saiu de sua sala. Logo atrás, dois policiais conduziam um indivíduo magro, cabelo bem curto, algemado. Os olhos estavam quase fechados, inchados, viam-se hematomas por todo o rosto, um corte no lábio inferior, andava com dificuldade. Eu fiquei impressionada com o estado do bandido, ele tinha apanhado bastante. Quando Alex falou que bateu "um pouquinho", não dava para imaginar a situação que tinha ficado o cara. Depois, soubemos que ele, também, havia levado uns sopapos e "cola-brincos" dos policiais.
Alex era um rapaz de estatura mediana, musculoso, praticava artes marciais, cabelos curtos e claros, olhos verdes. Quem o via, a primeira vista, o confundia com um "pittboy". Na realidade, era um rapaz da paz, do bem, não gostava de confusão. Era dono da academia onde Denise trabalhava como orientadora nutricional e, também, praticava seus exercícios.
Depois de lavrado o flagrante, instaurado o inquérito, tomadas todas as medidas de praxe, o que levou horas, fomos todos para casa de seus pais. Seu Otávio ouviu tudo sem pronunciar-se. Já Dona Isabel caiu em prantos diante do que poderia ter acontecido com a filha. Acalmamos a todos, pois a situação já estava resolvida e tudo sob controle. Quando estávamos saindo, Denise me chamou:
- Mila, eu queria agradecer você pela força.
- Você não tem de agradecer. Você passou por uma situção difícil, vai demorar um pouquinho para você superar, mas vai passar. Felizmente, nada de grave aconteceu. Você tem sorte de ter um namorado como Alex. Ele adora você e defenderia você até de uma quadrilha de terroristas.
- Tenho certeza que o Gustavo faria o mesmo por você. Ele teve sorte em ter conhecido você.
- Vou aceitar isso como um elogio, Dê.
- O Guto, como meu irmão mais velho, sempre foi um "paizão" pra mim, sempre me defendeu, sempre me protegeu. Ele é meu ídolo. Minha mãe conta que, quando eu era bebê, ele gostava de tomar conta de mim. Mila, cuida bem dele pra mim!
- Se depender de mim, Denise...
- O quê minhas garotas estão cochichando?
- Coisas de mulher, maninho.
- Vamos, Mila. Vou levá-la pra casa, seus pais devem estar preocupados.
- Sim, senhor. Estou as suas ordens.
- Engraçadinha!
- Eu sei, não sou ave-maria, mas sou cheia de graça.
- Tchau, Dê. Vou levar logo esta chata pra casa. Amanhã, venho ver você.
- Tchau, Dê. Daqui a pouco, seu irmão estará me puxando pelo cabelo...
- Tá me chamando de homem das cavernas?
- É você quem está dizendo.
- Vocês não tem jeito, hein? Guto e Mila, vocês estão se merecendo.
As brincadeiras eram uma forma de descontrair um pouco. Sua irmã ficou muito abalada, claro, quem não ficaria? Ainda bem que nada aconteceu. Você me levou pra casa. Ficou em silêncio durante todo o percurso. Não ousei falar nada, sabia que, o quê havia acontecido com a Denise, havia deixado você muito perturbado. Quando parou o carro em frente de casa, você respirou fundo e reencostou-se no banco. Aproximei-me de você e dei-lhe um beijo no rosto.
- Vai descansar um pouco. Já está tudo bem, procure relaxar...
Você não me deixou terminar, me tomou em seus braços e me beijou. Um beijo diferente, intenso e terno ao mesmo tempo, com carinho, apaixonado. Retribuí, entregando-me a seus lábios. Ficaria assim pelo resto da noite.
- Você não existe, Mila!
- Claro que existo. Quem você acabou de beijar? Um fantasma?
- Você entendeu o quê quiz dizer. Você é muito especial para mim. Precisamos conversar mais sobre nós, você sabe disso.
Assenti com a cabeça. Parece que estávamos na mesma sintonia. Estreitar nosso laço, firmar nossa relação, selar nosso amor. Já não era sem tempo. Pela primeira vez, senti o quão sério você considerava o nosso relacionamento. Pela primeira vez, você demonstrava o quanto gostava de mim. Senti-me especial e muito feliz em estar amando você e sendo amada. Abracei você, acariciei seus cabelos e ofereci meus lábios para um novo beijo. O mundo poderia parar naquele momento. Queria ficar com você, contudo a realidade nos chamava, dizendo que no dia seguinte tínhamos de trabalhar. Sabia que não conseguiria dormir. Um turbilhão de fatos, sentimentos e sensações não me deixaria cair no sono...
terça-feira, 4 de maio de 2010
Entendi melhor você, depois que soube da sua decepção. Você tinha sonhos, como eu tenho, de construir uma família. Apenas, pecou em escolher a pessoa errada para compartilhar esses sonhos. Vocês não estavam na mesma sintonia. O que ela queria não ficou muito claro para mim, mas me parece que ela só queria levar vantagem, tanto em cima de você, quanto do amante mais velho. Ainda bem que você descobriu a tempo, poderia ter ocorrido um estrago maior. Passou, acabou.
Compreendo seu jeito de ser comigo. Apesar de ser carinhoso, você não fala dos seus sentimentos. Sei que, também, tenho minha parcela de culpa. Sempre fui muito fechada para falar de mim e daquilo que sinto. Empatamos nisso. Precisamos conversar sobre o que sentimos, um pelo outro. Não se trata do famoso "discutir a relação". E sim, abrir o jogo sobre o que sentimos. E eu sei muito bem o que estou sentindo por você. Cada vez mais, estou me apegando a você, gostando mais e mais a cada dia. Um sentimento forte e profundo. Estou mais que apaixonada.
Desde o primeiro dia que vi você, percebi algo diferente em você, algo que deixava você especial. Talvez, isso tenha despertado meu interesse em você. O seu lindo sorriso sempre me encantou e sempre senti sinceridade e espontaneidade quando você sorri para mim. Às vezes, tenho a impressão que você quer expressar mais do que transmite, mas alguma coisa detem você. Será medo de ser incompreendido? Será receio de se arriscar?
Você nem imagina o quão importante tornou-se para mim. Estar ao seu lado é tudo o que eu quero. Cada situação do cotidiano, imagino você comigo. Cada lugar que passo ou que vejo, nos imagino juntos. Cada cena de novela, cada comercial de televisão, cada música que toca no rádio, tudo é motivo para não esquecê-lo, tudo é motivo para imaginar-nos juntos. Você entrou na minha vida, sem pedir licença. Eu não esperava gostar tanto assim de você. Pensei que fosse, apenas, uma paquera inconsequente. Enganei-me.
Compreendo seu jeito de ser comigo. Apesar de ser carinhoso, você não fala dos seus sentimentos. Sei que, também, tenho minha parcela de culpa. Sempre fui muito fechada para falar de mim e daquilo que sinto. Empatamos nisso. Precisamos conversar sobre o que sentimos, um pelo outro. Não se trata do famoso "discutir a relação". E sim, abrir o jogo sobre o que sentimos. E eu sei muito bem o que estou sentindo por você. Cada vez mais, estou me apegando a você, gostando mais e mais a cada dia. Um sentimento forte e profundo. Estou mais que apaixonada.
Desde o primeiro dia que vi você, percebi algo diferente em você, algo que deixava você especial. Talvez, isso tenha despertado meu interesse em você. O seu lindo sorriso sempre me encantou e sempre senti sinceridade e espontaneidade quando você sorri para mim. Às vezes, tenho a impressão que você quer expressar mais do que transmite, mas alguma coisa detem você. Será medo de ser incompreendido? Será receio de se arriscar?
Você nem imagina o quão importante tornou-se para mim. Estar ao seu lado é tudo o que eu quero. Cada situação do cotidiano, imagino você comigo. Cada lugar que passo ou que vejo, nos imagino juntos. Cada cena de novela, cada comercial de televisão, cada música que toca no rádio, tudo é motivo para não esquecê-lo, tudo é motivo para imaginar-nos juntos. Você entrou na minha vida, sem pedir licença. Eu não esperava gostar tanto assim de você. Pensei que fosse, apenas, uma paquera inconsequente. Enganei-me.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Domingo amanheceu radiante, um belo dia de sol. A casa de seus pais era ampla e arejada. A sala de estar era conjugada com a de jantar e, ambas, davam acesso ao jardim interno, onde antes havia uma piscina. Como era de pouco uso, a área foi aterrada, foi construída uma churrasqueira com cobertura, espaço para geladeira, pia, etc. Foram espalhadas cadeiras e mesas com guardas-sol. Havia uma passagem lateral, com uma porta, que dava acesso da garagem ao jardim interno. Poderia se fazer uso dessa passagem, quando não o fizesse pela entrada principal da casa. Era um aconchegante espaço para reunião de familiares e amigos.
Todos os convidados estavam presentes: Dr. Felício e a esposa Vera, Sandrinha e o noivo Lúcio, eu e minha família e, é claro, os convidados de honra, Dr. Arnaldo e sua esposa Rita. Sua irmã Denise estava com o namorado Alex. E seu irmão, Luís Augusto, que é ator, trouxe um amigo e uma amiga. Depois das apresentações, formaram-se grupos: sua mãe Isabel, uma senhora simpática e brincalhona, logo juntou-se a Dona Carol, minha mãe, e as esposas dos advogados, Rita e Vera. Tornou-se um grupo muito animado. Meu pai começou a conversar com o Dr. Felício sobre engenharia e arquitetura. O filho do Dr. Felício estava na Espanha fazendo um curso de especialização. Bia se enturmou com seu irmão e os amigos do teatro. Sandrinha e o noivo engataram um papo animado com sua irmã e o namorado. Nós, ficamos conversando com seu pai e o Dr. Arnaldo.
Seu pai, Otávio, trabalhou numa grande empresa e, depois de formado, passou a tomar conta do departamento jurídico dessa empresa até aposentar-se. O Dr. Arnaldo convidou-o a juntar-se a ele e ao Dr. Felício no escritório, mas ele não aceitou. Falou que sentia que nenhum dos filhos tenham seguido seus passos e ingressado na faculdade de Direito.
- Cada um está feliz fazendo o que gosta. Gustavo é um homem de negócios, esperto, tem visão de futuro, saiu-se muito bem nesse ramo de comércio exterior. Augusto é das artes, puxou a mãe, é ator, me disse que conseguiu um papel numa novela, vai fazer televisão. Denise não quer ver ninguém doente, por isso se preocupa, demais até, com o quê comemos, é nutricionista.
Seu pai interessou-se quando soube que eu era advogada, que comecei no escritório como secretária, fui estagiária e passei a ser assistente dos dois advogados. Vi que aquela conversa não iria me agradar. Adorei quando Bia me chamou, me desculpei e saí. Não era nada importante. Estava com sede e fui buscar um refrigerante. Augusto aproximou-se, puxando conversa:
- Sua irmã é muito simpática. Ela nos convidou para vê-la cantar.
- Sou suspeita pra falar alguma coisa, não só porque sou irmã, mas eu gosto. Pergunta pro Guto o que ele achou, ele já viu ela cantar.
- Fico feliz, Camila, que meu irmão e você estejam se dando bem.
- Eu também fico muito feliz, mas, me desculpa, por que essa colocação?
- Depois do que ele passou com a tal da Cíntia, eu pensei que ele não se interessaria por mais ninguém.
Começou a aparecer uma estória. Quem era essa Cíntia? O quê aconteceu? O quê ela fez? Ele começou, agora eu queria saber; e tudo. E eu acho é que ele queria mesmo era contar; porquê, eu não sei.
- Cíntia? O quê aconteceu?
- Ele ainda não contou pra você? Ih, acho que falei demais.
Segurei ele pelo braço, sem deixar as pessoas perceberem, e intimei:
- Você começou, agora conta.
- Tá bom, mas você tem de me prometer que não vai dizer pra ele que fui eu que contei pra você. Vamos sentar ali.
Dirigimo-nos para uma mesinha de canto e nos acomodamos:
- Pode deixar, sou uma pessoa discreta. Se ele não contou alguma coisa até agora, é porque ele acha que não chegou a hora. Se ele achar que deve, vai contar, seja lá o que for. Se não contar, é porque não mereço a confiança dele. E ele não está me levando à sério. E o melhor, então, é cair fora.
- Calma, Camila! Tenho certeza que, mais cedo ou mais tarde, ele vai contar. Não é fácil pra ele, você vai entender. Você é a primeira namorada que ele traz em casa depois do que aconteceu. E ainda com sua família. Você acha que se ele não estivesse levando à sério, o relacionamento de vocês, ele juntaria nossas famílias, mesmo informalmente? Ele frequenta sua casa e interage bem com sua família. Você trabalha com o melhor amigo do nosso pai, que sempre tratou o Gustavo como um filho. Meu irmão é muito discreto, não é de falar de namorada, ficante, seja lá o que for, ele nunca foi de falar. De você, ele já falou algumas vezes.
- Tudo bem, Augusto, espero que ele tenha falado bem de mim. Mas conta, o quê aconteceu com essa Cíntia?
- Eu não sei como, nem onde eles se conheceram, mas eles namoraram cerca de oito meses. Ele gostava muito dela, até queria casar. Resolveram ir morar junto. Meu irmão montou um apartamento, comprou móveis, etc. Moraram juntos por seis meses. Minha mãe não gostava dela, parece que sabia que ela não era lá essas coisas. Vivia falando, pra ele, que ela não era mulher pra ele. Certa vez, ele teve de viajar a trabalho e iria demorar alguns dias. Porém, o negócio deu certo logo e ele voltou rápido. Quando ele chegou perto do prédio, viu que ela estava dentro do carro do chefe dela, vinte anos mais velho, quase em "vias de fato", se é que me entende. Ele descobriu que o caso dos dois era antigo, que já durava há anos. Acabou ali. Ele mesmo juntou as coisas dela e a pôs para fora do apartamento. Juntou as coisas dele e veio pra cá.
Fiquei estarrecida. Comecei a entender algumas coisas.
- Depois, ele voltou pra lá?
- Não. Ele se desfez daquele apartamento. O que ele mora é outro. Você já foi até lá?
- Não. Ele me convidou uma vez, mas não aceitei.
- Você ganhou mil pontos com ele. Ele não leva ninguém pra casa dele. Lá é o santuário dele. Quando ele saía com alguma possível namorada, ele levava pra outros lugares.
- Motéis, você diz.
- Nunca pra casa dele. Depois disso, ele se tornou um homem muito frio, mais reservado, sério, só pensava em trabalho. Nos finais de semana, ficava fazendo planilhas de custo, sei lá, lendo jornal ou revistas de negócios. Saía muito pouco. Você mudou isso. Eu vejo um brilho diferente nos olhos dele quando ele fala de você. Aliás, o mesmo brilho que vejo nos seus, agora, procurando por ele.
Sorri:
- Seu irmão é especial para mim.
Você vinha caminhando em nossa direção.
- Valeu pela confiança, Augusto!
Você aproximou-se:
- Será que estou sendo traído pelo próprio irmão? Vou ficar com ciúmes.
- Ela estava me contando que você já viu a Bia cantar. Ela nos convidou para ir vê-la.
- Maninho, a irmãzinha canta e encanta, vocês vão gostar muito.
A Bia também aproximou-se, você abraçou-a, sorri e falei:
- O objeto da conversa chegou. É melhor mudar de assunto.
O dia transcorreu agradável. Porém, tudo que seu irmão me contou, não saía da minha cabeça. Fiquei pensando nessa fulana, Cíntia. Um homem maravilhoso como você, apaixonado por ela, querendo casar, e a retardada tendo um caso com um ar casado, vinte anos mais velho? O que essa mulher tinha na cabeça? Titica de galinha? Azar dela.
Todos os convidados estavam presentes: Dr. Felício e a esposa Vera, Sandrinha e o noivo Lúcio, eu e minha família e, é claro, os convidados de honra, Dr. Arnaldo e sua esposa Rita. Sua irmã Denise estava com o namorado Alex. E seu irmão, Luís Augusto, que é ator, trouxe um amigo e uma amiga. Depois das apresentações, formaram-se grupos: sua mãe Isabel, uma senhora simpática e brincalhona, logo juntou-se a Dona Carol, minha mãe, e as esposas dos advogados, Rita e Vera. Tornou-se um grupo muito animado. Meu pai começou a conversar com o Dr. Felício sobre engenharia e arquitetura. O filho do Dr. Felício estava na Espanha fazendo um curso de especialização. Bia se enturmou com seu irmão e os amigos do teatro. Sandrinha e o noivo engataram um papo animado com sua irmã e o namorado. Nós, ficamos conversando com seu pai e o Dr. Arnaldo.
Seu pai, Otávio, trabalhou numa grande empresa e, depois de formado, passou a tomar conta do departamento jurídico dessa empresa até aposentar-se. O Dr. Arnaldo convidou-o a juntar-se a ele e ao Dr. Felício no escritório, mas ele não aceitou. Falou que sentia que nenhum dos filhos tenham seguido seus passos e ingressado na faculdade de Direito.
- Cada um está feliz fazendo o que gosta. Gustavo é um homem de negócios, esperto, tem visão de futuro, saiu-se muito bem nesse ramo de comércio exterior. Augusto é das artes, puxou a mãe, é ator, me disse que conseguiu um papel numa novela, vai fazer televisão. Denise não quer ver ninguém doente, por isso se preocupa, demais até, com o quê comemos, é nutricionista.
Seu pai interessou-se quando soube que eu era advogada, que comecei no escritório como secretária, fui estagiária e passei a ser assistente dos dois advogados. Vi que aquela conversa não iria me agradar. Adorei quando Bia me chamou, me desculpei e saí. Não era nada importante. Estava com sede e fui buscar um refrigerante. Augusto aproximou-se, puxando conversa:
- Sua irmã é muito simpática. Ela nos convidou para vê-la cantar.
- Sou suspeita pra falar alguma coisa, não só porque sou irmã, mas eu gosto. Pergunta pro Guto o que ele achou, ele já viu ela cantar.
- Fico feliz, Camila, que meu irmão e você estejam se dando bem.
- Eu também fico muito feliz, mas, me desculpa, por que essa colocação?
- Depois do que ele passou com a tal da Cíntia, eu pensei que ele não se interessaria por mais ninguém.
Começou a aparecer uma estória. Quem era essa Cíntia? O quê aconteceu? O quê ela fez? Ele começou, agora eu queria saber; e tudo. E eu acho é que ele queria mesmo era contar; porquê, eu não sei.
- Cíntia? O quê aconteceu?
- Ele ainda não contou pra você? Ih, acho que falei demais.
Segurei ele pelo braço, sem deixar as pessoas perceberem, e intimei:
- Você começou, agora conta.
- Tá bom, mas você tem de me prometer que não vai dizer pra ele que fui eu que contei pra você. Vamos sentar ali.
Dirigimo-nos para uma mesinha de canto e nos acomodamos:
- Pode deixar, sou uma pessoa discreta. Se ele não contou alguma coisa até agora, é porque ele acha que não chegou a hora. Se ele achar que deve, vai contar, seja lá o que for. Se não contar, é porque não mereço a confiança dele. E ele não está me levando à sério. E o melhor, então, é cair fora.
- Calma, Camila! Tenho certeza que, mais cedo ou mais tarde, ele vai contar. Não é fácil pra ele, você vai entender. Você é a primeira namorada que ele traz em casa depois do que aconteceu. E ainda com sua família. Você acha que se ele não estivesse levando à sério, o relacionamento de vocês, ele juntaria nossas famílias, mesmo informalmente? Ele frequenta sua casa e interage bem com sua família. Você trabalha com o melhor amigo do nosso pai, que sempre tratou o Gustavo como um filho. Meu irmão é muito discreto, não é de falar de namorada, ficante, seja lá o que for, ele nunca foi de falar. De você, ele já falou algumas vezes.
- Tudo bem, Augusto, espero que ele tenha falado bem de mim. Mas conta, o quê aconteceu com essa Cíntia?
- Eu não sei como, nem onde eles se conheceram, mas eles namoraram cerca de oito meses. Ele gostava muito dela, até queria casar. Resolveram ir morar junto. Meu irmão montou um apartamento, comprou móveis, etc. Moraram juntos por seis meses. Minha mãe não gostava dela, parece que sabia que ela não era lá essas coisas. Vivia falando, pra ele, que ela não era mulher pra ele. Certa vez, ele teve de viajar a trabalho e iria demorar alguns dias. Porém, o negócio deu certo logo e ele voltou rápido. Quando ele chegou perto do prédio, viu que ela estava dentro do carro do chefe dela, vinte anos mais velho, quase em "vias de fato", se é que me entende. Ele descobriu que o caso dos dois era antigo, que já durava há anos. Acabou ali. Ele mesmo juntou as coisas dela e a pôs para fora do apartamento. Juntou as coisas dele e veio pra cá.
Fiquei estarrecida. Comecei a entender algumas coisas.
- Depois, ele voltou pra lá?
- Não. Ele se desfez daquele apartamento. O que ele mora é outro. Você já foi até lá?
- Não. Ele me convidou uma vez, mas não aceitei.
- Você ganhou mil pontos com ele. Ele não leva ninguém pra casa dele. Lá é o santuário dele. Quando ele saía com alguma possível namorada, ele levava pra outros lugares.
- Motéis, você diz.
- Nunca pra casa dele. Depois disso, ele se tornou um homem muito frio, mais reservado, sério, só pensava em trabalho. Nos finais de semana, ficava fazendo planilhas de custo, sei lá, lendo jornal ou revistas de negócios. Saía muito pouco. Você mudou isso. Eu vejo um brilho diferente nos olhos dele quando ele fala de você. Aliás, o mesmo brilho que vejo nos seus, agora, procurando por ele.
Sorri:
- Seu irmão é especial para mim.
Você vinha caminhando em nossa direção.
- Valeu pela confiança, Augusto!
Você aproximou-se:
- Será que estou sendo traído pelo próprio irmão? Vou ficar com ciúmes.
- Ela estava me contando que você já viu a Bia cantar. Ela nos convidou para ir vê-la.
- Maninho, a irmãzinha canta e encanta, vocês vão gostar muito.
A Bia também aproximou-se, você abraçou-a, sorri e falei:
- O objeto da conversa chegou. É melhor mudar de assunto.
O dia transcorreu agradável. Porém, tudo que seu irmão me contou, não saía da minha cabeça. Fiquei pensando nessa fulana, Cíntia. Um homem maravilhoso como você, apaixonado por ela, querendo casar, e a retardada tendo um caso com um ar casado, vinte anos mais velho? O que essa mulher tinha na cabeça? Titica de galinha? Azar dela.
domingo, 4 de abril de 2010
No dia seguinte, você passou cedo em casa, tomou café conosco e conversamos sobre os acontecimentos do dia anterior, da violência, criminalidade, etc. Você contou pro meu pai o que falei para o advogado "porta de cadeia":
- Sua filha, assim tão calma, tão meiga, saiu do salto, mas com classe, lógico, com o advogadinho que foi pra cima do policial que negociava a rendição do sequestrador e a libertação das vítimas. Ele estava se achando, pensou que podia chegar lá, fazer e acontecer. Levou um chega pra lá do policial, que não era lá de muita conversa. E uma lição de moral que teve de enterrar a cabeça num buraco. Todo mundo ficou olhando pra cara dele. Até o policial gostou que a Mila falou umas boas. O Felício ficou de queixo caído, não esperava essa reação dela.
- Filha, o homem poderia agredir você - ponderou minha mãe.
- Não, Dona Carol. Além de ter policial por todo canto, eu não deixaria nada acontecer a Mila. O cara era metido, mas não era louco.
- Minha filha tem muito senso de justiça, Gustavo. Desde criança. Na escola, quando duas crianças começavam a brigar por causa de brinquedo, ou lápis de côr, ela ia lá, separava a briga, dava uma bronquinha, e um brinquedo, ou um lápis de côr pra cada um, e tudo voltava ao normal.
- É a menina do papai - brincou Bia.
O motivo principal de você ter passado em casa, foi para convidar, a todos, para um almoço informal, no domingo, na casa dos seus pais. Seu pai resolveu homenagear o amigo e a esposa, para passarem algumas horas descontraídas com os amigos. Você explicou que não se tratava de uma festa, mas uma reunião, um motivo pra todos se conhecerem. Por isso, ele e o pai faziam questão da presença de todos.
Interessante. Iria conhecer sua família. Você já conhecia a minha. E ainda bem que não estaria sozinha, estaria acompanhada. Bianca foi a primeira a manifestar-se:
- Claro que iremos, Guto. Pode contar conosco!
Minha irmã já tratava você com intimidade. Eu só observava. Meus pais, mais reservados, agradeceram o convite e disseram que, provavelmente, iriam. Você pegou na minha mão:
- Vamos? Estamos em cima da hora. Vou parar para convidar a Sandrinha e o noivo, você acha que eles irão?
- Claro que irão.
Você me pediu para falar com o Carlos, o jornalista, mas ele iria fazer uma série de reportagens na Amazônia. Viajaria no dia seguinte e não sabia quando voltaria.
Minha mãe aproveitou a deixa do seu convite e sugeriu que você poderia jantar conosco, no sábado à noite. E a Bia sugeriu que, depois, fôssemos para a casa noturna onde estava cantando. Final de semana já estava programado. A semana seguiu sem grandes novidades.
- Sua filha, assim tão calma, tão meiga, saiu do salto, mas com classe, lógico, com o advogadinho que foi pra cima do policial que negociava a rendição do sequestrador e a libertação das vítimas. Ele estava se achando, pensou que podia chegar lá, fazer e acontecer. Levou um chega pra lá do policial, que não era lá de muita conversa. E uma lição de moral que teve de enterrar a cabeça num buraco. Todo mundo ficou olhando pra cara dele. Até o policial gostou que a Mila falou umas boas. O Felício ficou de queixo caído, não esperava essa reação dela.
- Filha, o homem poderia agredir você - ponderou minha mãe.
- Não, Dona Carol. Além de ter policial por todo canto, eu não deixaria nada acontecer a Mila. O cara era metido, mas não era louco.
- Minha filha tem muito senso de justiça, Gustavo. Desde criança. Na escola, quando duas crianças começavam a brigar por causa de brinquedo, ou lápis de côr, ela ia lá, separava a briga, dava uma bronquinha, e um brinquedo, ou um lápis de côr pra cada um, e tudo voltava ao normal.
- É a menina do papai - brincou Bia.
O motivo principal de você ter passado em casa, foi para convidar, a todos, para um almoço informal, no domingo, na casa dos seus pais. Seu pai resolveu homenagear o amigo e a esposa, para passarem algumas horas descontraídas com os amigos. Você explicou que não se tratava de uma festa, mas uma reunião, um motivo pra todos se conhecerem. Por isso, ele e o pai faziam questão da presença de todos.
Interessante. Iria conhecer sua família. Você já conhecia a minha. E ainda bem que não estaria sozinha, estaria acompanhada. Bianca foi a primeira a manifestar-se:
- Claro que iremos, Guto. Pode contar conosco!
Minha irmã já tratava você com intimidade. Eu só observava. Meus pais, mais reservados, agradeceram o convite e disseram que, provavelmente, iriam. Você pegou na minha mão:
- Vamos? Estamos em cima da hora. Vou parar para convidar a Sandrinha e o noivo, você acha que eles irão?
- Claro que irão.
Você me pediu para falar com o Carlos, o jornalista, mas ele iria fazer uma série de reportagens na Amazônia. Viajaria no dia seguinte e não sabia quando voltaria.
Minha mãe aproveitou a deixa do seu convite e sugeriu que você poderia jantar conosco, no sábado à noite. E a Bia sugeriu que, depois, fôssemos para a casa noturna onde estava cantando. Final de semana já estava programado. A semana seguiu sem grandes novidades.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Fomos almoçar como combinamos, porém um telefonema da Sandrinha nos surpreendeu no meio da refeição:
- Mila, é melhor você voltar logo para o escritório.
- O que aconteceu, Sandrinha? Você está me assustando! Fala logo!
- Tem um policial aqui, ele quer falar com você. Acho que ele vai querer falar com o Gustavo, também.
- Aconteceu alguma coisa na minha casa? Com minha mãe, com a Bia, com meu pai? Fala, Sandrinha.
- Não, Mila. Fica tranquila, não aconteceu nada com sua família. Vem logo para o escritório, o policial não quer que eu fale por telefone.
- Tá, já estamos indo.
- Ela não adiantou nada o que é que está acontecendo?
- Não, mas tem um policial no escritório que quer falar com a gente. Me apavorei, agora, pensei que fosse algo com alguém da minha casa, mas a Sandrinha disse que não é isso. O que será que está pegando por lá?
- Vai saber! Pode ser alguma coisa com o Arnaldo ou o Felício, mas a gente só vai ficar sabendo se formos logo pra lá. Minha querida, hoje o dia promete!
No escritório, o policial nos contou que Dona Rita, esposa do Dr. Arnaldo, tinha ido ao banco para fazer um saque para pagar as funcionárias e fornecedores. Segundo o policial, "o meliante ganhou a fita no interior do banco e ficou na cola dela", seguiu-a de moto até a loja, no shopping, e a fez, junto com duas funcionárias, como reféns. Num descuido do assaltante, uma das funcionárias conseguiu fugir e avisar os seguranças e a polícia. O indivíduo dizia que queria mais dinheiro. O policial queria saber de nós, se o Dr. Arnaldo tinha algum desafeto, se estava trabalhando em algo que pudesse despertar alguma vingança de alguma parte insatisfeita, essas coisas. Tinha de investigar as possibilidades.
- Podemos ajudar de alguma forma? Meu pai também é advogado e amigo pessoal do Dr. Arnaldo. Se tiver algo que possamos fazer...
- O indivíduo está fazendo uma série de exigências para soltar as duas mulheres. Ele quer a mãe no local, já foram buscá-la. Pediu o advogado, também já foi providenciado. O mais complicado é que ele quer um jornalista famoso para dar uma entrevista exclusiva. Têm vários jornalistas no local, mas ele não quer nenhum dos que estão lá. Pode? Quer os cinco minutos de fama que tem direito. Ele quer que filme sua rendição para que sua integridade física seja preservada.
- Carlos Santana. Já verificaram? Ele aceitaria? - perguntei.
- Eu acho que sim. Carlos é muito famoso e está numa grande emissora.
- Você o conhece, Mila?
- Espere, faz um tempinho que não falo com ele, se o telefone dele não mudou, tá aqui...O Carlos começou a fazer Direito comigo, detestou e mudou para Jornalismo. Deu certo. Alô, Carlos? É a Camila, da faculdade, tudo bem? Não liguei pra conversar, não. Preciso de um favorzinho, se possível. Interessa pra você uma entrevista exclusiva com um indivíduo que mantém duas mulheres como reféns, sob a mira de um revólver? Uma delas é a esposa do meu chefe. Se você aceitar, sabe que existem riscos, apesar da polícia estar por perto...Vocês, jornalistas, são todos doidos... Valeu, Carlos!
Falei para o policial:
- Se puder entrar em contato com quem está negociando com o cara e informá-lo que o jornalista já está indo para lá, isso talvez o tranquilize.
- Tudo bem, vou informar através do rádio da viatura. Qualquer novidade, entraremos em contato com vocês.
- Desculpe, mas também vou. Meu pai não me perdoaria se eu deixasse o Dr. Arnaldo lá, sozinho, sem um amigo pra dar uma força e para representá-lo numa hora dessa.
- Eu também vou. Afinal, fui eu que fiz o contato com o jornalista.
A contra-gosto, o policial teve de aceitar que fôssemos para o local do sequestro. Faltava espaço para tantas viaturas e carros de imprensa. Nos aproximamos do policial que negociava com o sequestrador. Para um negociador, parecia já estar estressado:
- Esses dois, quem são? - perguntou ao policial que nos acompanhava, mas nem se importou com a resposta. Adiantei-me:
- Meu nome é Camila, sou advogada, trabalho com o Dr Arnaldo, marido de uma das vítimas. Eu falei com o jornalista Carlos Santana, que já está vindo para cá com sua equipe.
- Tá, podem ficar por aqui, mas não atrapalhem - falou com rispidez.
O Dr. Felício aproximou-se:
- Gustavo, Camila, espero que tudo acabe logo. O Arnaldo passou mal, está sendo medicado na ambulância, não quiz ir para o hospital, quer ver a Rita liberada logo.
Próximo de onde estávamos, uma senhora simples chorava muito. Era amparada por um policial. Percebi que era a mãe do sequestrador. Estava envergonhada pelo filho e por todo aquele alvoroço que ele estava provocando. Carlos chegou e foi negociado o contato dele com o rapaz. Enquanto isso, chegou um indivíduo empertigado, de nariz empinado, com ares de "sou o tal", dando ordens para o policial ríspido:
- Eu exijo falar com o meu cliente antes que se tome qualquer decisão.
- Aqui, o senhor não exige nada. Fica na sua.
Não resisti, tive de dar meu palpite:
- Se o senhor está tão preocupado com o seu cliente, onde estava quando ele fez as vítimas de reféns? E por que foi o último a chegar aqui no local? Antes do senhor falar com o seu cliente, as vítimas tem o direito de serem libertadas. E o senhor não tem o direito de exigir nada, ainda mais do policial que está aqui desde o início da ocorrência, para resgatar, ilesas, essas mulheres, que são vítimas do SEU cliente. Reitero o que o policial já lhe falou, fica na sua!
O Dr. Felício me olhava, surpreso. Você me abraçou e me puxou para o outro lado. Até o policial que negociava a rendição do indivíduo, deu uma rápida olhada e fez um sinal de aprovação. Para o advogado empertigado, só restou baixar a cabeça e ficar quieto.
A rendição do indivíduo aconteceu logo. Ele liberou as mulheres, que foram levadas para serem medicadas, pois estavam muito nervosas. O Dr. Arnaldo já estava melhor e viu o desfecho da ocorrência, com alívio. Dr. Felício iria acompanhá-lo. Carlos fez um sinal que ligaria depois. Voltamos para o escritório. Sandrinha estava aflita por notícias. Já não tinha clima para trabalho, só ficamos cumprindo o horário.
- Mila, é melhor você voltar logo para o escritório.
- O que aconteceu, Sandrinha? Você está me assustando! Fala logo!
- Tem um policial aqui, ele quer falar com você. Acho que ele vai querer falar com o Gustavo, também.
- Aconteceu alguma coisa na minha casa? Com minha mãe, com a Bia, com meu pai? Fala, Sandrinha.
- Não, Mila. Fica tranquila, não aconteceu nada com sua família. Vem logo para o escritório, o policial não quer que eu fale por telefone.
- Tá, já estamos indo.
- Ela não adiantou nada o que é que está acontecendo?
- Não, mas tem um policial no escritório que quer falar com a gente. Me apavorei, agora, pensei que fosse algo com alguém da minha casa, mas a Sandrinha disse que não é isso. O que será que está pegando por lá?
- Vai saber! Pode ser alguma coisa com o Arnaldo ou o Felício, mas a gente só vai ficar sabendo se formos logo pra lá. Minha querida, hoje o dia promete!
No escritório, o policial nos contou que Dona Rita, esposa do Dr. Arnaldo, tinha ido ao banco para fazer um saque para pagar as funcionárias e fornecedores. Segundo o policial, "o meliante ganhou a fita no interior do banco e ficou na cola dela", seguiu-a de moto até a loja, no shopping, e a fez, junto com duas funcionárias, como reféns. Num descuido do assaltante, uma das funcionárias conseguiu fugir e avisar os seguranças e a polícia. O indivíduo dizia que queria mais dinheiro. O policial queria saber de nós, se o Dr. Arnaldo tinha algum desafeto, se estava trabalhando em algo que pudesse despertar alguma vingança de alguma parte insatisfeita, essas coisas. Tinha de investigar as possibilidades.
- Podemos ajudar de alguma forma? Meu pai também é advogado e amigo pessoal do Dr. Arnaldo. Se tiver algo que possamos fazer...
- O indivíduo está fazendo uma série de exigências para soltar as duas mulheres. Ele quer a mãe no local, já foram buscá-la. Pediu o advogado, também já foi providenciado. O mais complicado é que ele quer um jornalista famoso para dar uma entrevista exclusiva. Têm vários jornalistas no local, mas ele não quer nenhum dos que estão lá. Pode? Quer os cinco minutos de fama que tem direito. Ele quer que filme sua rendição para que sua integridade física seja preservada.
- Carlos Santana. Já verificaram? Ele aceitaria? - perguntei.
- Eu acho que sim. Carlos é muito famoso e está numa grande emissora.
- Você o conhece, Mila?
- Espere, faz um tempinho que não falo com ele, se o telefone dele não mudou, tá aqui...O Carlos começou a fazer Direito comigo, detestou e mudou para Jornalismo. Deu certo. Alô, Carlos? É a Camila, da faculdade, tudo bem? Não liguei pra conversar, não. Preciso de um favorzinho, se possível. Interessa pra você uma entrevista exclusiva com um indivíduo que mantém duas mulheres como reféns, sob a mira de um revólver? Uma delas é a esposa do meu chefe. Se você aceitar, sabe que existem riscos, apesar da polícia estar por perto...Vocês, jornalistas, são todos doidos... Valeu, Carlos!
Falei para o policial:
- Se puder entrar em contato com quem está negociando com o cara e informá-lo que o jornalista já está indo para lá, isso talvez o tranquilize.
- Tudo bem, vou informar através do rádio da viatura. Qualquer novidade, entraremos em contato com vocês.
- Desculpe, mas também vou. Meu pai não me perdoaria se eu deixasse o Dr. Arnaldo lá, sozinho, sem um amigo pra dar uma força e para representá-lo numa hora dessa.
- Eu também vou. Afinal, fui eu que fiz o contato com o jornalista.
A contra-gosto, o policial teve de aceitar que fôssemos para o local do sequestro. Faltava espaço para tantas viaturas e carros de imprensa. Nos aproximamos do policial que negociava com o sequestrador. Para um negociador, parecia já estar estressado:
- Esses dois, quem são? - perguntou ao policial que nos acompanhava, mas nem se importou com a resposta. Adiantei-me:
- Meu nome é Camila, sou advogada, trabalho com o Dr Arnaldo, marido de uma das vítimas. Eu falei com o jornalista Carlos Santana, que já está vindo para cá com sua equipe.
- Tá, podem ficar por aqui, mas não atrapalhem - falou com rispidez.
O Dr. Felício aproximou-se:
- Gustavo, Camila, espero que tudo acabe logo. O Arnaldo passou mal, está sendo medicado na ambulância, não quiz ir para o hospital, quer ver a Rita liberada logo.
Próximo de onde estávamos, uma senhora simples chorava muito. Era amparada por um policial. Percebi que era a mãe do sequestrador. Estava envergonhada pelo filho e por todo aquele alvoroço que ele estava provocando. Carlos chegou e foi negociado o contato dele com o rapaz. Enquanto isso, chegou um indivíduo empertigado, de nariz empinado, com ares de "sou o tal", dando ordens para o policial ríspido:
- Eu exijo falar com o meu cliente antes que se tome qualquer decisão.
- Aqui, o senhor não exige nada. Fica na sua.
Não resisti, tive de dar meu palpite:
- Se o senhor está tão preocupado com o seu cliente, onde estava quando ele fez as vítimas de reféns? E por que foi o último a chegar aqui no local? Antes do senhor falar com o seu cliente, as vítimas tem o direito de serem libertadas. E o senhor não tem o direito de exigir nada, ainda mais do policial que está aqui desde o início da ocorrência, para resgatar, ilesas, essas mulheres, que são vítimas do SEU cliente. Reitero o que o policial já lhe falou, fica na sua!
O Dr. Felício me olhava, surpreso. Você me abraçou e me puxou para o outro lado. Até o policial que negociava a rendição do indivíduo, deu uma rápida olhada e fez um sinal de aprovação. Para o advogado empertigado, só restou baixar a cabeça e ficar quieto.
A rendição do indivíduo aconteceu logo. Ele liberou as mulheres, que foram levadas para serem medicadas, pois estavam muito nervosas. O Dr. Arnaldo já estava melhor e viu o desfecho da ocorrência, com alívio. Dr. Felício iria acompanhá-lo. Carlos fez um sinal que ligaria depois. Voltamos para o escritório. Sandrinha estava aflita por notícias. Já não tinha clima para trabalho, só ficamos cumprindo o horário.
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