quarta-feira, 2 de junho de 2010

A Sandrinha estava sozinha, Dr. Arnaldo e Dr. Felício já haviam ido embora. Não tinha nada para fazer. Resolvi fazer uma visita surpresa pra você. Dirigi-me para o hall, apertei o botão para chamar o elevador. A porta abriu-se. No interior, um senhor de terno, meia idade, e uma mulher, balzaquiana, estatura média, cabelos loiros com mechas, vestido preto, justo, saltos altos, chamaram minha atenção. A princípio, pensei que estivessem juntos, mas ele desceu, apenas, um andar acima.
A mulher parecia ansiosa. Ela desceu no mesmo andar que eu. Alguma coisa me dizia para deixá-la ir na frente. Queria ver onde ela iria. Disfarcei e fiz que arrumava alguma coisa no sapato. Não fiquei surpresa quando ela entrou no complexo onde ficava seu escritório. Diminui o passo e entrei atrás dela, o suficiente para saber quem ela procurava:
- Boa tarde, o senhor Gustavo está?
Ana Maria, a recepcionista, me viu. Ela sabia do nosso relacionamento. Ela era amiga da Sandrinha e sempre almoçavam juntas, pondo as fofocas em dia.
- Dra. Camila...
Fiz um sinal para ela e disse:
- Pode atendê-la, não estou com pressa, Ana.
A Ana era esperta, entendeu que eu queria saber quem era aquela mulher que procurava pelo meu namorado.
- Pois não, a quem devo anunciar? O senhor Gustavo aguarda a senhora?
- Não, mas diga-lhe que Cíntia quer falar com ele.
Quando ela disse o nome dela, fiquei indignada. Depois de tudo o que ela aprontou, ainda tinha coragem de procurá-lo? Qual a intenção dela, de estar ali, vestida daquele jeito? Será que ela sempre vestia-se assim? Ou seria para impressionar o Gustavo e ver se ele ainda sentia uma pontinha de interesse por ela? Seria a primeira vez que o procurava? Ou havia outras vezes? Aguçou minha curiosidade e minha raiva.
Aninha sentiu que alguma coisa não estava se encaixando. Fingiu tentar o interfone. E, com a desculpa de que você não estava na sala, adentrou pelo corredor para informá-lo que sua 'ex' estava lá procurando por você, e eu, também. Logo, em seguida, você apareceu. Olhou a mulher com frieza. Eu havia sentado numa poltrona ao lado da mesa da recepcionista.
- Desculpe-me, Gustavo, aparecer assim, sem avisar. Mas, se eu avisasse, sei que você não me receberia.
- Se você sabia, por que insistiu em vir assim mesmo?
- Nossa! Não precisa me tratar assim! Só estou aqui porque, talvez, você possa me ajudar. Pelos velhos tempos.
- Não existe velhos tempos e não acredito que eu possa ajudar em alguma coisa. O que você ainda quer de mim?
- Estou desempregada. Não vim aqui para pedir emprego, mas preciso de referências.
Eu estava na minha, só observando o desenrolar da conversa. Percebi que você já estava ficando irritado, mas contendo-se a todo custo. Aquela conversa podia tirar você do sério a qualquer momento. Quando ela lhe pediu referências, não resisti, minha língua foi mais rápida:
- E aquele senhor, vinte anos mais velho que você, que era seu chefe e amante, não poderia dar-lhe essas referências que precisa?
Todos voltaram-se para mim. Você ficou surpreso em saber que eu já sabia de tudo. Cíntia, intrigada e irritada com a minha intromissão, indagou:
- E essa aí, quem é?
- Essa aí, não. Não me iguale a você.
- É, menina, você precisa aprender muita coisa para ser igual a mim.
- Ser traíra, infiel, dissimulada, interesseira, mau caráter... Moça, na escola que você estudou, quero passar bem longe. Nisso, nunca serei igual a você.
- Gustavo, você não fala nada? - Cíntia buscou por seu apoio.
- Tudo o que eu tinha para falar pra você, eu já falei. Pedi pra me esquecer e não me procurar nunca mais.
Eu queria falar muito, mas apenas acrescentei:
- Você tinha tudo pra ser uma mulher muito feliz, ao lado de um homem maravilhoso, que te amava, mas jogou sua felicidade no lixo a troco de nada. Agora é tarde para chorar o leite derramado.
- Quem é você, garota?
- Ela é tudo que você jamais foi, e muito mais. Nem que você se esforçasse, chegaria a ser um décimo dessa pessoa maravilhosa. - você respondeu, olhando-me com carinho, antes que eu pudesse falar alguma coisa.
Cíntia entendeu que algo muito forte, intenso e especial nos unia. Entendeu que havia cometido um erro em procurar você. Não era benvinda, nem por você e, pelo que ela entendeu, nem por sua 'garota'. Só restava, então, ir embora. Desculpei-me com a Aninha pelo bate-boca que ela havia presenciado. Você, também, desculpou-se. Fomos para sua sala. Você rompeu o silêncio que pairava entre nós:
- Quem contou pra você?
- Não importa quem contou.
- Eu não imaginava que você soubesse. Por que você nunca me falou?
- Porque esperava que você me contasse.
- Não é fácil para um homem falar que foi traído.
- Eu sei e compreendo você.
- Ficou magoada comigo por não ter te contado?
- Não,... não sei,... eu esperava que você me contasse... Não foi legal o quê aconteceu, e como aconteceu.
- Me perdoa, Mila. Eu queria contar para você, mas não sabia como começar.
- Tá.
- Quer ir pra outro lugar, pra gente conversar?
- Não, estou cansada. Quero ir para casa. Amanhã será outro dia, gostaria de estar com você, pode ser?
- Claro, eu quero estar sempre com você. Amanhã, estaremos decansados e com a cabeça 'clean'. Vou levá-la para casa.
Era muita coisa para um dia. O almoço com o Carlos. A visita na emissora e a conversa com os colegas do Carlos. Os novos rumos profissionais que daria na minha vida. O aparecimento da ex do Gustavo, pedindo favor. Minha 'discussão' com ela. O Gustavo ficar sabendo que eu já sabia de tudo, sendo que eu esperava que ele me contasse. Eu ter certeza do que ele sentia por mim. Muita informação para um só dia.

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