Domingo amanheceu radiante, um belo dia de sol. A casa de seus pais era ampla e arejada. A sala de estar era conjugada com a de jantar e, ambas, davam acesso ao jardim interno, onde antes havia uma piscina. Como era de pouco uso, a área foi aterrada, foi construída uma churrasqueira com cobertura, espaço para geladeira, pia, etc. Foram espalhadas cadeiras e mesas com guardas-sol. Havia uma passagem lateral, com uma porta, que dava acesso da garagem ao jardim interno. Poderia se fazer uso dessa passagem, quando não o fizesse pela entrada principal da casa. Era um aconchegante espaço para reunião de familiares e amigos.
Todos os convidados estavam presentes: Dr. Felício e a esposa Vera, Sandrinha e o noivo Lúcio, eu e minha família e, é claro, os convidados de honra, Dr. Arnaldo e sua esposa Rita. Sua irmã Denise estava com o namorado Alex. E seu irmão, Luís Augusto, que é ator, trouxe um amigo e uma amiga. Depois das apresentações, formaram-se grupos: sua mãe Isabel, uma senhora simpática e brincalhona, logo juntou-se a Dona Carol, minha mãe, e as esposas dos advogados, Rita e Vera. Tornou-se um grupo muito animado. Meu pai começou a conversar com o Dr. Felício sobre engenharia e arquitetura. O filho do Dr. Felício estava na Espanha fazendo um curso de especialização. Bia se enturmou com seu irmão e os amigos do teatro. Sandrinha e o noivo engataram um papo animado com sua irmã e o namorado. Nós, ficamos conversando com seu pai e o Dr. Arnaldo.
Seu pai, Otávio, trabalhou numa grande empresa e, depois de formado, passou a tomar conta do departamento jurídico dessa empresa até aposentar-se. O Dr. Arnaldo convidou-o a juntar-se a ele e ao Dr. Felício no escritório, mas ele não aceitou. Falou que sentia que nenhum dos filhos tenham seguido seus passos e ingressado na faculdade de Direito.
- Cada um está feliz fazendo o que gosta. Gustavo é um homem de negócios, esperto, tem visão de futuro, saiu-se muito bem nesse ramo de comércio exterior. Augusto é das artes, puxou a mãe, é ator, me disse que conseguiu um papel numa novela, vai fazer televisão. Denise não quer ver ninguém doente, por isso se preocupa, demais até, com o quê comemos, é nutricionista.
Seu pai interessou-se quando soube que eu era advogada, que comecei no escritório como secretária, fui estagiária e passei a ser assistente dos dois advogados. Vi que aquela conversa não iria me agradar. Adorei quando Bia me chamou, me desculpei e saí. Não era nada importante. Estava com sede e fui buscar um refrigerante. Augusto aproximou-se, puxando conversa:
- Sua irmã é muito simpática. Ela nos convidou para vê-la cantar.
- Sou suspeita pra falar alguma coisa, não só porque sou irmã, mas eu gosto. Pergunta pro Guto o que ele achou, ele já viu ela cantar.
- Fico feliz, Camila, que meu irmão e você estejam se dando bem.
- Eu também fico muito feliz, mas, me desculpa, por que essa colocação?
- Depois do que ele passou com a tal da Cíntia, eu pensei que ele não se interessaria por mais ninguém.
Começou a aparecer uma estória. Quem era essa Cíntia? O quê aconteceu? O quê ela fez? Ele começou, agora eu queria saber; e tudo. E eu acho é que ele queria mesmo era contar; porquê, eu não sei.
- Cíntia? O quê aconteceu?
- Ele ainda não contou pra você? Ih, acho que falei demais.
Segurei ele pelo braço, sem deixar as pessoas perceberem, e intimei:
- Você começou, agora conta.
- Tá bom, mas você tem de me prometer que não vai dizer pra ele que fui eu que contei pra você. Vamos sentar ali.
Dirigimo-nos para uma mesinha de canto e nos acomodamos:
- Pode deixar, sou uma pessoa discreta. Se ele não contou alguma coisa até agora, é porque ele acha que não chegou a hora. Se ele achar que deve, vai contar, seja lá o que for. Se não contar, é porque não mereço a confiança dele. E ele não está me levando à sério. E o melhor, então, é cair fora.
- Calma, Camila! Tenho certeza que, mais cedo ou mais tarde, ele vai contar. Não é fácil pra ele, você vai entender. Você é a primeira namorada que ele traz em casa depois do que aconteceu. E ainda com sua família. Você acha que se ele não estivesse levando à sério, o relacionamento de vocês, ele juntaria nossas famílias, mesmo informalmente? Ele frequenta sua casa e interage bem com sua família. Você trabalha com o melhor amigo do nosso pai, que sempre tratou o Gustavo como um filho. Meu irmão é muito discreto, não é de falar de namorada, ficante, seja lá o que for, ele nunca foi de falar. De você, ele já falou algumas vezes.
- Tudo bem, Augusto, espero que ele tenha falado bem de mim. Mas conta, o quê aconteceu com essa Cíntia?
- Eu não sei como, nem onde eles se conheceram, mas eles namoraram cerca de oito meses. Ele gostava muito dela, até queria casar. Resolveram ir morar junto. Meu irmão montou um apartamento, comprou móveis, etc. Moraram juntos por seis meses. Minha mãe não gostava dela, parece que sabia que ela não era lá essas coisas. Vivia falando, pra ele, que ela não era mulher pra ele. Certa vez, ele teve de viajar a trabalho e iria demorar alguns dias. Porém, o negócio deu certo logo e ele voltou rápido. Quando ele chegou perto do prédio, viu que ela estava dentro do carro do chefe dela, vinte anos mais velho, quase em "vias de fato", se é que me entende. Ele descobriu que o caso dos dois era antigo, que já durava há anos. Acabou ali. Ele mesmo juntou as coisas dela e a pôs para fora do apartamento. Juntou as coisas dele e veio pra cá.
Fiquei estarrecida. Comecei a entender algumas coisas.
- Depois, ele voltou pra lá?
- Não. Ele se desfez daquele apartamento. O que ele mora é outro. Você já foi até lá?
- Não. Ele me convidou uma vez, mas não aceitei.
- Você ganhou mil pontos com ele. Ele não leva ninguém pra casa dele. Lá é o santuário dele. Quando ele saía com alguma possível namorada, ele levava pra outros lugares.
- Motéis, você diz.
- Nunca pra casa dele. Depois disso, ele se tornou um homem muito frio, mais reservado, sério, só pensava em trabalho. Nos finais de semana, ficava fazendo planilhas de custo, sei lá, lendo jornal ou revistas de negócios. Saía muito pouco. Você mudou isso. Eu vejo um brilho diferente nos olhos dele quando ele fala de você. Aliás, o mesmo brilho que vejo nos seus, agora, procurando por ele.
Sorri:
- Seu irmão é especial para mim.
Você vinha caminhando em nossa direção.
- Valeu pela confiança, Augusto!
Você aproximou-se:
- Será que estou sendo traído pelo próprio irmão? Vou ficar com ciúmes.
- Ela estava me contando que você já viu a Bia cantar. Ela nos convidou para ir vê-la.
- Maninho, a irmãzinha canta e encanta, vocês vão gostar muito.
A Bia também aproximou-se, você abraçou-a, sorri e falei:
- O objeto da conversa chegou. É melhor mudar de assunto.
O dia transcorreu agradável. Porém, tudo que seu irmão me contou, não saía da minha cabeça. Fiquei pensando nessa fulana, Cíntia. Um homem maravilhoso como você, apaixonado por ela, querendo casar, e a retardada tendo um caso com um ar casado, vinte anos mais velho? O que essa mulher tinha na cabeça? Titica de galinha? Azar dela.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
No dia seguinte, você passou cedo em casa, tomou café conosco e conversamos sobre os acontecimentos do dia anterior, da violência, criminalidade, etc. Você contou pro meu pai o que falei para o advogado "porta de cadeia":
- Sua filha, assim tão calma, tão meiga, saiu do salto, mas com classe, lógico, com o advogadinho que foi pra cima do policial que negociava a rendição do sequestrador e a libertação das vítimas. Ele estava se achando, pensou que podia chegar lá, fazer e acontecer. Levou um chega pra lá do policial, que não era lá de muita conversa. E uma lição de moral que teve de enterrar a cabeça num buraco. Todo mundo ficou olhando pra cara dele. Até o policial gostou que a Mila falou umas boas. O Felício ficou de queixo caído, não esperava essa reação dela.
- Filha, o homem poderia agredir você - ponderou minha mãe.
- Não, Dona Carol. Além de ter policial por todo canto, eu não deixaria nada acontecer a Mila. O cara era metido, mas não era louco.
- Minha filha tem muito senso de justiça, Gustavo. Desde criança. Na escola, quando duas crianças começavam a brigar por causa de brinquedo, ou lápis de côr, ela ia lá, separava a briga, dava uma bronquinha, e um brinquedo, ou um lápis de côr pra cada um, e tudo voltava ao normal.
- É a menina do papai - brincou Bia.
O motivo principal de você ter passado em casa, foi para convidar, a todos, para um almoço informal, no domingo, na casa dos seus pais. Seu pai resolveu homenagear o amigo e a esposa, para passarem algumas horas descontraídas com os amigos. Você explicou que não se tratava de uma festa, mas uma reunião, um motivo pra todos se conhecerem. Por isso, ele e o pai faziam questão da presença de todos.
Interessante. Iria conhecer sua família. Você já conhecia a minha. E ainda bem que não estaria sozinha, estaria acompanhada. Bianca foi a primeira a manifestar-se:
- Claro que iremos, Guto. Pode contar conosco!
Minha irmã já tratava você com intimidade. Eu só observava. Meus pais, mais reservados, agradeceram o convite e disseram que, provavelmente, iriam. Você pegou na minha mão:
- Vamos? Estamos em cima da hora. Vou parar para convidar a Sandrinha e o noivo, você acha que eles irão?
- Claro que irão.
Você me pediu para falar com o Carlos, o jornalista, mas ele iria fazer uma série de reportagens na Amazônia. Viajaria no dia seguinte e não sabia quando voltaria.
Minha mãe aproveitou a deixa do seu convite e sugeriu que você poderia jantar conosco, no sábado à noite. E a Bia sugeriu que, depois, fôssemos para a casa noturna onde estava cantando. Final de semana já estava programado. A semana seguiu sem grandes novidades.
- Sua filha, assim tão calma, tão meiga, saiu do salto, mas com classe, lógico, com o advogadinho que foi pra cima do policial que negociava a rendição do sequestrador e a libertação das vítimas. Ele estava se achando, pensou que podia chegar lá, fazer e acontecer. Levou um chega pra lá do policial, que não era lá de muita conversa. E uma lição de moral que teve de enterrar a cabeça num buraco. Todo mundo ficou olhando pra cara dele. Até o policial gostou que a Mila falou umas boas. O Felício ficou de queixo caído, não esperava essa reação dela.
- Filha, o homem poderia agredir você - ponderou minha mãe.
- Não, Dona Carol. Além de ter policial por todo canto, eu não deixaria nada acontecer a Mila. O cara era metido, mas não era louco.
- Minha filha tem muito senso de justiça, Gustavo. Desde criança. Na escola, quando duas crianças começavam a brigar por causa de brinquedo, ou lápis de côr, ela ia lá, separava a briga, dava uma bronquinha, e um brinquedo, ou um lápis de côr pra cada um, e tudo voltava ao normal.
- É a menina do papai - brincou Bia.
O motivo principal de você ter passado em casa, foi para convidar, a todos, para um almoço informal, no domingo, na casa dos seus pais. Seu pai resolveu homenagear o amigo e a esposa, para passarem algumas horas descontraídas com os amigos. Você explicou que não se tratava de uma festa, mas uma reunião, um motivo pra todos se conhecerem. Por isso, ele e o pai faziam questão da presença de todos.
Interessante. Iria conhecer sua família. Você já conhecia a minha. E ainda bem que não estaria sozinha, estaria acompanhada. Bianca foi a primeira a manifestar-se:
- Claro que iremos, Guto. Pode contar conosco!
Minha irmã já tratava você com intimidade. Eu só observava. Meus pais, mais reservados, agradeceram o convite e disseram que, provavelmente, iriam. Você pegou na minha mão:
- Vamos? Estamos em cima da hora. Vou parar para convidar a Sandrinha e o noivo, você acha que eles irão?
- Claro que irão.
Você me pediu para falar com o Carlos, o jornalista, mas ele iria fazer uma série de reportagens na Amazônia. Viajaria no dia seguinte e não sabia quando voltaria.
Minha mãe aproveitou a deixa do seu convite e sugeriu que você poderia jantar conosco, no sábado à noite. E a Bia sugeriu que, depois, fôssemos para a casa noturna onde estava cantando. Final de semana já estava programado. A semana seguiu sem grandes novidades.
segunda-feira, 29 de março de 2010
Fomos almoçar como combinamos, porém um telefonema da Sandrinha nos surpreendeu no meio da refeição:
- Mila, é melhor você voltar logo para o escritório.
- O que aconteceu, Sandrinha? Você está me assustando! Fala logo!
- Tem um policial aqui, ele quer falar com você. Acho que ele vai querer falar com o Gustavo, também.
- Aconteceu alguma coisa na minha casa? Com minha mãe, com a Bia, com meu pai? Fala, Sandrinha.
- Não, Mila. Fica tranquila, não aconteceu nada com sua família. Vem logo para o escritório, o policial não quer que eu fale por telefone.
- Tá, já estamos indo.
- Ela não adiantou nada o que é que está acontecendo?
- Não, mas tem um policial no escritório que quer falar com a gente. Me apavorei, agora, pensei que fosse algo com alguém da minha casa, mas a Sandrinha disse que não é isso. O que será que está pegando por lá?
- Vai saber! Pode ser alguma coisa com o Arnaldo ou o Felício, mas a gente só vai ficar sabendo se formos logo pra lá. Minha querida, hoje o dia promete!
No escritório, o policial nos contou que Dona Rita, esposa do Dr. Arnaldo, tinha ido ao banco para fazer um saque para pagar as funcionárias e fornecedores. Segundo o policial, "o meliante ganhou a fita no interior do banco e ficou na cola dela", seguiu-a de moto até a loja, no shopping, e a fez, junto com duas funcionárias, como reféns. Num descuido do assaltante, uma das funcionárias conseguiu fugir e avisar os seguranças e a polícia. O indivíduo dizia que queria mais dinheiro. O policial queria saber de nós, se o Dr. Arnaldo tinha algum desafeto, se estava trabalhando em algo que pudesse despertar alguma vingança de alguma parte insatisfeita, essas coisas. Tinha de investigar as possibilidades.
- Podemos ajudar de alguma forma? Meu pai também é advogado e amigo pessoal do Dr. Arnaldo. Se tiver algo que possamos fazer...
- O indivíduo está fazendo uma série de exigências para soltar as duas mulheres. Ele quer a mãe no local, já foram buscá-la. Pediu o advogado, também já foi providenciado. O mais complicado é que ele quer um jornalista famoso para dar uma entrevista exclusiva. Têm vários jornalistas no local, mas ele não quer nenhum dos que estão lá. Pode? Quer os cinco minutos de fama que tem direito. Ele quer que filme sua rendição para que sua integridade física seja preservada.
- Carlos Santana. Já verificaram? Ele aceitaria? - perguntei.
- Eu acho que sim. Carlos é muito famoso e está numa grande emissora.
- Você o conhece, Mila?
- Espere, faz um tempinho que não falo com ele, se o telefone dele não mudou, tá aqui...O Carlos começou a fazer Direito comigo, detestou e mudou para Jornalismo. Deu certo. Alô, Carlos? É a Camila, da faculdade, tudo bem? Não liguei pra conversar, não. Preciso de um favorzinho, se possível. Interessa pra você uma entrevista exclusiva com um indivíduo que mantém duas mulheres como reféns, sob a mira de um revólver? Uma delas é a esposa do meu chefe. Se você aceitar, sabe que existem riscos, apesar da polícia estar por perto...Vocês, jornalistas, são todos doidos... Valeu, Carlos!
Falei para o policial:
- Se puder entrar em contato com quem está negociando com o cara e informá-lo que o jornalista já está indo para lá, isso talvez o tranquilize.
- Tudo bem, vou informar através do rádio da viatura. Qualquer novidade, entraremos em contato com vocês.
- Desculpe, mas também vou. Meu pai não me perdoaria se eu deixasse o Dr. Arnaldo lá, sozinho, sem um amigo pra dar uma força e para representá-lo numa hora dessa.
- Eu também vou. Afinal, fui eu que fiz o contato com o jornalista.
A contra-gosto, o policial teve de aceitar que fôssemos para o local do sequestro. Faltava espaço para tantas viaturas e carros de imprensa. Nos aproximamos do policial que negociava com o sequestrador. Para um negociador, parecia já estar estressado:
- Esses dois, quem são? - perguntou ao policial que nos acompanhava, mas nem se importou com a resposta. Adiantei-me:
- Meu nome é Camila, sou advogada, trabalho com o Dr Arnaldo, marido de uma das vítimas. Eu falei com o jornalista Carlos Santana, que já está vindo para cá com sua equipe.
- Tá, podem ficar por aqui, mas não atrapalhem - falou com rispidez.
O Dr. Felício aproximou-se:
- Gustavo, Camila, espero que tudo acabe logo. O Arnaldo passou mal, está sendo medicado na ambulância, não quiz ir para o hospital, quer ver a Rita liberada logo.
Próximo de onde estávamos, uma senhora simples chorava muito. Era amparada por um policial. Percebi que era a mãe do sequestrador. Estava envergonhada pelo filho e por todo aquele alvoroço que ele estava provocando. Carlos chegou e foi negociado o contato dele com o rapaz. Enquanto isso, chegou um indivíduo empertigado, de nariz empinado, com ares de "sou o tal", dando ordens para o policial ríspido:
- Eu exijo falar com o meu cliente antes que se tome qualquer decisão.
- Aqui, o senhor não exige nada. Fica na sua.
Não resisti, tive de dar meu palpite:
- Se o senhor está tão preocupado com o seu cliente, onde estava quando ele fez as vítimas de reféns? E por que foi o último a chegar aqui no local? Antes do senhor falar com o seu cliente, as vítimas tem o direito de serem libertadas. E o senhor não tem o direito de exigir nada, ainda mais do policial que está aqui desde o início da ocorrência, para resgatar, ilesas, essas mulheres, que são vítimas do SEU cliente. Reitero o que o policial já lhe falou, fica na sua!
O Dr. Felício me olhava, surpreso. Você me abraçou e me puxou para o outro lado. Até o policial que negociava a rendição do indivíduo, deu uma rápida olhada e fez um sinal de aprovação. Para o advogado empertigado, só restou baixar a cabeça e ficar quieto.
A rendição do indivíduo aconteceu logo. Ele liberou as mulheres, que foram levadas para serem medicadas, pois estavam muito nervosas. O Dr. Arnaldo já estava melhor e viu o desfecho da ocorrência, com alívio. Dr. Felício iria acompanhá-lo. Carlos fez um sinal que ligaria depois. Voltamos para o escritório. Sandrinha estava aflita por notícias. Já não tinha clima para trabalho, só ficamos cumprindo o horário.
- Mila, é melhor você voltar logo para o escritório.
- O que aconteceu, Sandrinha? Você está me assustando! Fala logo!
- Tem um policial aqui, ele quer falar com você. Acho que ele vai querer falar com o Gustavo, também.
- Aconteceu alguma coisa na minha casa? Com minha mãe, com a Bia, com meu pai? Fala, Sandrinha.
- Não, Mila. Fica tranquila, não aconteceu nada com sua família. Vem logo para o escritório, o policial não quer que eu fale por telefone.
- Tá, já estamos indo.
- Ela não adiantou nada o que é que está acontecendo?
- Não, mas tem um policial no escritório que quer falar com a gente. Me apavorei, agora, pensei que fosse algo com alguém da minha casa, mas a Sandrinha disse que não é isso. O que será que está pegando por lá?
- Vai saber! Pode ser alguma coisa com o Arnaldo ou o Felício, mas a gente só vai ficar sabendo se formos logo pra lá. Minha querida, hoje o dia promete!
No escritório, o policial nos contou que Dona Rita, esposa do Dr. Arnaldo, tinha ido ao banco para fazer um saque para pagar as funcionárias e fornecedores. Segundo o policial, "o meliante ganhou a fita no interior do banco e ficou na cola dela", seguiu-a de moto até a loja, no shopping, e a fez, junto com duas funcionárias, como reféns. Num descuido do assaltante, uma das funcionárias conseguiu fugir e avisar os seguranças e a polícia. O indivíduo dizia que queria mais dinheiro. O policial queria saber de nós, se o Dr. Arnaldo tinha algum desafeto, se estava trabalhando em algo que pudesse despertar alguma vingança de alguma parte insatisfeita, essas coisas. Tinha de investigar as possibilidades.
- Podemos ajudar de alguma forma? Meu pai também é advogado e amigo pessoal do Dr. Arnaldo. Se tiver algo que possamos fazer...
- O indivíduo está fazendo uma série de exigências para soltar as duas mulheres. Ele quer a mãe no local, já foram buscá-la. Pediu o advogado, também já foi providenciado. O mais complicado é que ele quer um jornalista famoso para dar uma entrevista exclusiva. Têm vários jornalistas no local, mas ele não quer nenhum dos que estão lá. Pode? Quer os cinco minutos de fama que tem direito. Ele quer que filme sua rendição para que sua integridade física seja preservada.
- Carlos Santana. Já verificaram? Ele aceitaria? - perguntei.
- Eu acho que sim. Carlos é muito famoso e está numa grande emissora.
- Você o conhece, Mila?
- Espere, faz um tempinho que não falo com ele, se o telefone dele não mudou, tá aqui...O Carlos começou a fazer Direito comigo, detestou e mudou para Jornalismo. Deu certo. Alô, Carlos? É a Camila, da faculdade, tudo bem? Não liguei pra conversar, não. Preciso de um favorzinho, se possível. Interessa pra você uma entrevista exclusiva com um indivíduo que mantém duas mulheres como reféns, sob a mira de um revólver? Uma delas é a esposa do meu chefe. Se você aceitar, sabe que existem riscos, apesar da polícia estar por perto...Vocês, jornalistas, são todos doidos... Valeu, Carlos!
Falei para o policial:
- Se puder entrar em contato com quem está negociando com o cara e informá-lo que o jornalista já está indo para lá, isso talvez o tranquilize.
- Tudo bem, vou informar através do rádio da viatura. Qualquer novidade, entraremos em contato com vocês.
- Desculpe, mas também vou. Meu pai não me perdoaria se eu deixasse o Dr. Arnaldo lá, sozinho, sem um amigo pra dar uma força e para representá-lo numa hora dessa.
- Eu também vou. Afinal, fui eu que fiz o contato com o jornalista.
A contra-gosto, o policial teve de aceitar que fôssemos para o local do sequestro. Faltava espaço para tantas viaturas e carros de imprensa. Nos aproximamos do policial que negociava com o sequestrador. Para um negociador, parecia já estar estressado:
- Esses dois, quem são? - perguntou ao policial que nos acompanhava, mas nem se importou com a resposta. Adiantei-me:
- Meu nome é Camila, sou advogada, trabalho com o Dr Arnaldo, marido de uma das vítimas. Eu falei com o jornalista Carlos Santana, que já está vindo para cá com sua equipe.
- Tá, podem ficar por aqui, mas não atrapalhem - falou com rispidez.
O Dr. Felício aproximou-se:
- Gustavo, Camila, espero que tudo acabe logo. O Arnaldo passou mal, está sendo medicado na ambulância, não quiz ir para o hospital, quer ver a Rita liberada logo.
Próximo de onde estávamos, uma senhora simples chorava muito. Era amparada por um policial. Percebi que era a mãe do sequestrador. Estava envergonhada pelo filho e por todo aquele alvoroço que ele estava provocando. Carlos chegou e foi negociado o contato dele com o rapaz. Enquanto isso, chegou um indivíduo empertigado, de nariz empinado, com ares de "sou o tal", dando ordens para o policial ríspido:
- Eu exijo falar com o meu cliente antes que se tome qualquer decisão.
- Aqui, o senhor não exige nada. Fica na sua.
Não resisti, tive de dar meu palpite:
- Se o senhor está tão preocupado com o seu cliente, onde estava quando ele fez as vítimas de reféns? E por que foi o último a chegar aqui no local? Antes do senhor falar com o seu cliente, as vítimas tem o direito de serem libertadas. E o senhor não tem o direito de exigir nada, ainda mais do policial que está aqui desde o início da ocorrência, para resgatar, ilesas, essas mulheres, que são vítimas do SEU cliente. Reitero o que o policial já lhe falou, fica na sua!
O Dr. Felício me olhava, surpreso. Você me abraçou e me puxou para o outro lado. Até o policial que negociava a rendição do indivíduo, deu uma rápida olhada e fez um sinal de aprovação. Para o advogado empertigado, só restou baixar a cabeça e ficar quieto.
A rendição do indivíduo aconteceu logo. Ele liberou as mulheres, que foram levadas para serem medicadas, pois estavam muito nervosas. O Dr. Arnaldo já estava melhor e viu o desfecho da ocorrência, com alívio. Dr. Felício iria acompanhá-lo. Carlos fez um sinal que ligaria depois. Voltamos para o escritório. Sandrinha estava aflita por notícias. Já não tinha clima para trabalho, só ficamos cumprindo o horário.
terça-feira, 23 de março de 2010
No dia seguinte, almoçamos juntos, mas tínhamos compromissos profissionais à tarde, não poderíamos demorar. Você quiz passar no escritório para me levar para casa, à tarde. Dispensei sua companhia. Não que eu quisesse fazer isso. Eu passaria a tarde no Fórum e, se saisse mais cedo, queria ir logo para casa. Eu não estava gostando nada dessas novas designações. Você ficou de me ligar à noite. Conversamos um pouco e prometi que esperaria por você na sexta-feira.
Fomos a um barzinho de lanches e sucos naturais.
- Acho que trabalhamos demais esta semana, Mila. Nós merecemos um sábado só para nós. Sem trabalho e sem imprevistos. Só nosso. O que acha de passarmos o dia fora da cidade, amanhã?
- Meu querido, você se esqueceu que, amanhã, a Bia estréia o show dela? Eu avisei para você, durante a semana. Se você não estiver a fim de ir, tudo bem, eu entendo. Mas a família tem de dar uma força.
- Me desculpa, eu esqueci. É claro que eu vou dar uma força para a irmãzinha, também. Estou curioso para vê-la cantar.
Minha irmã, e seu grupo, tinham sido contratados, por uma temporada, para animar as noites de uma casa noturna. Era seu primeiro trabalho profissional e ela estava muito animada e empenhada para que tudo desse certo.
Parecíamos dois amigos conversando. Nem tínhamos começado a ficar juntos e parecia que tudo tinha esfriado entre nós. Comecei a pensar em tudo, em nós. Eu não sabia como classificar o nosso relacionamento. Era apenas uma amizade carinhosa? Estávamos ficando? Namorando? Começando um caso? Você nunca falou nada, eu nunca questionei. Conversávamos como grandes amigos, nos despedíamos com doces beijinhos, e só.
Seu convite para passarmos o dia juntos poderia ser uma oportunidade para nos entendermos, ou não, e entender o que estava acontecendo conosco. Seu trabalho estava exigindo mais de você e o meu, estava me chateando. Estava descontente com a minha situação. Pensava em pedir as contas, mas o que eu iria fazer? Tinha de amadurecer alguma idéia, antes de tomar alguma decisão. Não comentei nada em casa, nem com você. Eu estava distante, eu sei. O quê me fazia bem era estar com você, por isso fiquei muito feliz de você ter ido na estréia da Bia. Foi um sucesso! Minha irmã saiu-se muito bem.
No domingo à tarde, programinha básico, fomos ao cinema. Enquanto apareciam os créditos na tela, você me surpreendeu com uma pergunta:
- Quer ir pr'o meu apartamento?
- Não.
- Você anda distante. Alguma coisa errada? Eu lhe fiz alguma coisa...?
- Por favor, Guto. O problema não é com você, é comigo. Eu sei que ando estressada, são alguns probleminhas que andam me tirando o sono, mas só eu posso resolver. Quando tiver minha resposta, minha solução, você será o primeiro a ficar sabendo. Por ora, tenta me compreender e, se puder, ficar do meu lado. Eu não quero que nada nos afaste.
- Mila, por que você não confia em mim? Me conte o que a está preocupando, será que não poderei ajudá-la? Duas cabeças pensam melhor que uma.
- Não se trata de confiança, querido. E sim de decisão - Tentei desviar o foco - E decidi que quero almoçar com você amanhã.
- Só isso?
- Calma, apressado, tudo tem seu tempo!
Sabia que, se eu contasse a você que estava descontente no escritório e com as novas determinações do Dr. Arnaldo, você iria conversar com ele para que as coisas voltassem a ser como antes. Eu não queria isso, porque agora também questionava se ainda queria continuar trabalhando na área jurídica.
Fomos a um barzinho de lanches e sucos naturais.
- Acho que trabalhamos demais esta semana, Mila. Nós merecemos um sábado só para nós. Sem trabalho e sem imprevistos. Só nosso. O que acha de passarmos o dia fora da cidade, amanhã?
- Meu querido, você se esqueceu que, amanhã, a Bia estréia o show dela? Eu avisei para você, durante a semana. Se você não estiver a fim de ir, tudo bem, eu entendo. Mas a família tem de dar uma força.
- Me desculpa, eu esqueci. É claro que eu vou dar uma força para a irmãzinha, também. Estou curioso para vê-la cantar.
Minha irmã, e seu grupo, tinham sido contratados, por uma temporada, para animar as noites de uma casa noturna. Era seu primeiro trabalho profissional e ela estava muito animada e empenhada para que tudo desse certo.
Parecíamos dois amigos conversando. Nem tínhamos começado a ficar juntos e parecia que tudo tinha esfriado entre nós. Comecei a pensar em tudo, em nós. Eu não sabia como classificar o nosso relacionamento. Era apenas uma amizade carinhosa? Estávamos ficando? Namorando? Começando um caso? Você nunca falou nada, eu nunca questionei. Conversávamos como grandes amigos, nos despedíamos com doces beijinhos, e só.
Seu convite para passarmos o dia juntos poderia ser uma oportunidade para nos entendermos, ou não, e entender o que estava acontecendo conosco. Seu trabalho estava exigindo mais de você e o meu, estava me chateando. Estava descontente com a minha situação. Pensava em pedir as contas, mas o que eu iria fazer? Tinha de amadurecer alguma idéia, antes de tomar alguma decisão. Não comentei nada em casa, nem com você. Eu estava distante, eu sei. O quê me fazia bem era estar com você, por isso fiquei muito feliz de você ter ido na estréia da Bia. Foi um sucesso! Minha irmã saiu-se muito bem.
No domingo à tarde, programinha básico, fomos ao cinema. Enquanto apareciam os créditos na tela, você me surpreendeu com uma pergunta:
- Quer ir pr'o meu apartamento?
- Não.
- Você anda distante. Alguma coisa errada? Eu lhe fiz alguma coisa...?
- Por favor, Guto. O problema não é com você, é comigo. Eu sei que ando estressada, são alguns probleminhas que andam me tirando o sono, mas só eu posso resolver. Quando tiver minha resposta, minha solução, você será o primeiro a ficar sabendo. Por ora, tenta me compreender e, se puder, ficar do meu lado. Eu não quero que nada nos afaste.
- Mila, por que você não confia em mim? Me conte o que a está preocupando, será que não poderei ajudá-la? Duas cabeças pensam melhor que uma.
- Não se trata de confiança, querido. E sim de decisão - Tentei desviar o foco - E decidi que quero almoçar com você amanhã.
- Só isso?
- Calma, apressado, tudo tem seu tempo!
Sabia que, se eu contasse a você que estava descontente no escritório e com as novas determinações do Dr. Arnaldo, você iria conversar com ele para que as coisas voltassem a ser como antes. Eu não queria isso, porque agora também questionava se ainda queria continuar trabalhando na área jurídica.
quarta-feira, 17 de março de 2010
À noite, você me ligou. Contou que o dia tinha sido muito cansativo, que a reunião não rendia, não se chegava a um consenso para assinar o contrato. Enfim, as duas partes cederam um pouco e o negócio foi fechado. Não conversamos muito, você estava cansado e eu, também. Combinamos de almoçar juntos, no dia seguinte. A semana acenava com muito trabalho para nós.
O Dr. Arnaldo queria que eu atuasse mais como advogada e menos como assistente. Estava me passando casos de concordata e falência para acompanhar no Fórum, e ir me acostumando; aberturas e encerramentos de empresas na Junta Comercial, etc. Não sei se queria isso. Eu estava confortável fazendo o serviço de bastidores, não me sentia uma advogada. Eu não era apaixonada pelo Direito, como a Sandrinha. Só não larguei a faculdade no meio, porque não sabia o que escolher. Eu tinha de me formar em alguma coisa e já estava no meio do curso. Resolvi terminar, mas nunca foi meu sonho trabalhar com Direito.
Nunca pensei em engenharia, como meu pai. Antes de casar, minha mãe era bailarina, dançava no Municipal. Depois do casamento, meu pai não quiz que ela continuasse com a carreira. Ela tinha de tomar conta da casa e dos filhos que viriam, não iria ter tempo para ficar dançando, justificava ele. Eu era um desastre para dançar; minha mãe até tentou fazer com que eu aprendesse, mas foi um fiasco. Adoro as artes, mas não tenho dons para nada: tentei cantar, só desafinava, não cantava uma nota no tom. Tentei aprender tocar violão, nunca acertava os acordes. Pensei em artes plásticas. Desenho, pintura, escultura; não deu. Uma criança de dois anos fazia qualquer coisa melhor que eu.
Eu queria fazer alguma coisa diferente, ter uma profissão que não fosse chata. Pensei em muitas coisas: psicologia, veterinária, turismo, moda, hotelaria e até carreira militar nas Forças Armadas. Desisti de todas. Ainda não me encontrei, profissionalmente. Ainda estou em busca de um rumo a seguir.
Bianca, minha irmã, desde criança, já brincava de ser cantora. Desde pequena, ela vive em função da música. Canta, toca piano, faz arranjos. Ela não teve dúvida ao escolher, sempre soube o que queria.
O Dr. Arnaldo queria que eu atuasse mais como advogada e menos como assistente. Estava me passando casos de concordata e falência para acompanhar no Fórum, e ir me acostumando; aberturas e encerramentos de empresas na Junta Comercial, etc. Não sei se queria isso. Eu estava confortável fazendo o serviço de bastidores, não me sentia uma advogada. Eu não era apaixonada pelo Direito, como a Sandrinha. Só não larguei a faculdade no meio, porque não sabia o que escolher. Eu tinha de me formar em alguma coisa e já estava no meio do curso. Resolvi terminar, mas nunca foi meu sonho trabalhar com Direito.
Nunca pensei em engenharia, como meu pai. Antes de casar, minha mãe era bailarina, dançava no Municipal. Depois do casamento, meu pai não quiz que ela continuasse com a carreira. Ela tinha de tomar conta da casa e dos filhos que viriam, não iria ter tempo para ficar dançando, justificava ele. Eu era um desastre para dançar; minha mãe até tentou fazer com que eu aprendesse, mas foi um fiasco. Adoro as artes, mas não tenho dons para nada: tentei cantar, só desafinava, não cantava uma nota no tom. Tentei aprender tocar violão, nunca acertava os acordes. Pensei em artes plásticas. Desenho, pintura, escultura; não deu. Uma criança de dois anos fazia qualquer coisa melhor que eu.
Eu queria fazer alguma coisa diferente, ter uma profissão que não fosse chata. Pensei em muitas coisas: psicologia, veterinária, turismo, moda, hotelaria e até carreira militar nas Forças Armadas. Desisti de todas. Ainda não me encontrei, profissionalmente. Ainda estou em busca de um rumo a seguir.
Bianca, minha irmã, desde criança, já brincava de ser cantora. Desde pequena, ela vive em função da música. Canta, toca piano, faz arranjos. Ela não teve dúvida ao escolher, sempre soube o que queria.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Demorei para conseguir dormir. Ficava olhando para o teto do quarto e pensando nos últimos acontecimentos. Há poucos dias, nem sabia seu nome. Agora, já estávamos aos beijos. Não sabia quem você era e descubro que você é filho de um amigo de faculdade do meu chefe. O que mais estaria por vir? Que mais sei de você? Sei que, há algum tempo, resolveu deixar a casa dos pais para morar sozinho. Você disse que queria total independência, mas não entrou em detalhes sobre isso. Eu perguntei se você já havia sido casado. Disse que não e mudou logo de assunto. Deu a impressão que alguma coisa a respeito desse assunto incomodava você. Pode ser só impressão.
De repente, fiquei insegura em relação a você. Será que eu não demonstrei interesse demais, insinuando alguma coisa? Lembrei-me da Dri, falando para pegar você de canto. Não fiz isso, literalmente, mas será que não sugeri com o olhar? E você? Se interessou mesmo por mim? Ou estará aproveitando-se de uma situação? As coisas foram acontecendo entre nós, os fatos foram se sucedendo e, pronto, estávamos envolvidos. Aconteceu tão depressa, que chega a me assustar! Ou será que não? Serei eu, a estar procurando chifre em cabeça de cavalo?
O cansaço me dominou e acabei dormindo. Acordei com dor de cabeça e avisei que chegaria mais tarde no escritório.
Cheguei com cara de poucos amigos. A Sandrinha me olhou e disse que havia um recado na minha mesa. Agradeci e fui para minha sala.
Em cima da mesa, havia uma caixa retangular e um envelope com um cartão. Senti um doce aroma de chocolate. Pensei com os meus botões: " O que será, agora? Algum convite ou alguma desculpa?" Estava mal humorada. Meus pensamentos durante a noite estragaram um final de tarde delicioso. E ali, estava eu, com cara de idiota, segurando o envelope e supondo o que poderia ser.
- Não vai ler? - a Sandrinha apareceu com um café - Foi um entregador que trouxe, assim que cheguei. Tome o café. Parece que um trem passou em cima de você! Mais tarde, quando estiver melhor, se quiser conversar, sabe onde estou.
- Valeu, Sandrinha!
Um entregador que trouxe. Interessante. Já comecei a ficar intrigada. Era melhor ler e saber. De repente, nem era seu. Poderia ser de algum cliente do escritório. Ou do Dr. Arnaldo, que sempre se lembrava de mim e da Sandrinha com chocolate. Por que eu achei que poderia ser seu? Por que meus pensamentos ficavam sempre voltados para você? Já estava ficando fissurada por sua causa. Você entrou na minha vida e estava detonando, causando uma revolução, mexendo com todos os meus sentimentos, me deixando confusa. Não em relação a você, mas confusa comigo comigo mesmo. Nunca senti algo tão... tão... sei lá, forte, intenso...
Abri o envelope, finalmente. Diante de meus olhos, desenhava palavras escritas com uma letra bonita e masculina, segura e determinada: "Mila, querida, ontem à noite, surgiram algumas questões urgentes de trabalho a serem resolvidas. Estou viajando com os diretores para o interior para uma reunião. Devo retornar só no final da tarde ou no começo da noite. Ligo pra você à noite. Sinto não ter passado por aí, para lhe desejar um bom dia. Espero que entenda. De qualquer forma, que você tenha um bom dia, sem novidades ruins. Beijos. Gustavo. P.S.: Depois vou querer, pelo menos, um beijo com sabor do seu chocolate favorito".
Como você sabe se é meu chocolate favorito? Abri a caixa. Fiquei surpresa e sorri. Acho que você tem bola de cristal ou é um bruxo. Realmente, eram meus favoritos. E por que não entenderia o seu trabalho? Eu não entenderia e não aceitaria, se fosse o contrário: se você deixasse seus compromissos profissionais só para ficar comigo. Temos muito tempo. Já tinha tomado o café da Sandrinha e resolvi saborear um bombom. Dei uma mordida e fiquei 'viajando', pensando na morte da bezerra, com um esboço bobo de sorriso no rosto. A voz do Dr. Arnaldo me trouxe de volta à terra:
- Bom dia, Dra. Camila. O gelo está derretendo, não é?
- Quê? Bom dia, Dr. Arnaldo. Que gelo?
- Nada, não. Deixa pra lá. De noite, vocês conversam. Temos muito trabalho, hoje. Vou precisar que você resolva uns assuntos na Junta Comercial e, se der tempo, vou querer que você me encontre no Fórum.
Tudo bem, mãos à obra. Comecei a juntar as coisas. Como ele sabia que iríamos conversar à noite? Deduzi que você devia ter ligado para ele. E foi através do Dr. Arnaldo que você descobriu o meu chocolate favorito. Mas que gelo era esse que estava derretendo? Não tinha tempo para pensar nisso agora. Depois, tiraria isso a limpo.
De repente, fiquei insegura em relação a você. Será que eu não demonstrei interesse demais, insinuando alguma coisa? Lembrei-me da Dri, falando para pegar você de canto. Não fiz isso, literalmente, mas será que não sugeri com o olhar? E você? Se interessou mesmo por mim? Ou estará aproveitando-se de uma situação? As coisas foram acontecendo entre nós, os fatos foram se sucedendo e, pronto, estávamos envolvidos. Aconteceu tão depressa, que chega a me assustar! Ou será que não? Serei eu, a estar procurando chifre em cabeça de cavalo?
O cansaço me dominou e acabei dormindo. Acordei com dor de cabeça e avisei que chegaria mais tarde no escritório.
Cheguei com cara de poucos amigos. A Sandrinha me olhou e disse que havia um recado na minha mesa. Agradeci e fui para minha sala.
Em cima da mesa, havia uma caixa retangular e um envelope com um cartão. Senti um doce aroma de chocolate. Pensei com os meus botões: " O que será, agora? Algum convite ou alguma desculpa?" Estava mal humorada. Meus pensamentos durante a noite estragaram um final de tarde delicioso. E ali, estava eu, com cara de idiota, segurando o envelope e supondo o que poderia ser.
- Não vai ler? - a Sandrinha apareceu com um café - Foi um entregador que trouxe, assim que cheguei. Tome o café. Parece que um trem passou em cima de você! Mais tarde, quando estiver melhor, se quiser conversar, sabe onde estou.
- Valeu, Sandrinha!
Um entregador que trouxe. Interessante. Já comecei a ficar intrigada. Era melhor ler e saber. De repente, nem era seu. Poderia ser de algum cliente do escritório. Ou do Dr. Arnaldo, que sempre se lembrava de mim e da Sandrinha com chocolate. Por que eu achei que poderia ser seu? Por que meus pensamentos ficavam sempre voltados para você? Já estava ficando fissurada por sua causa. Você entrou na minha vida e estava detonando, causando uma revolução, mexendo com todos os meus sentimentos, me deixando confusa. Não em relação a você, mas confusa comigo comigo mesmo. Nunca senti algo tão... tão... sei lá, forte, intenso...
Abri o envelope, finalmente. Diante de meus olhos, desenhava palavras escritas com uma letra bonita e masculina, segura e determinada: "Mila, querida, ontem à noite, surgiram algumas questões urgentes de trabalho a serem resolvidas. Estou viajando com os diretores para o interior para uma reunião. Devo retornar só no final da tarde ou no começo da noite. Ligo pra você à noite. Sinto não ter passado por aí, para lhe desejar um bom dia. Espero que entenda. De qualquer forma, que você tenha um bom dia, sem novidades ruins. Beijos. Gustavo. P.S.: Depois vou querer, pelo menos, um beijo com sabor do seu chocolate favorito".
Como você sabe se é meu chocolate favorito? Abri a caixa. Fiquei surpresa e sorri. Acho que você tem bola de cristal ou é um bruxo. Realmente, eram meus favoritos. E por que não entenderia o seu trabalho? Eu não entenderia e não aceitaria, se fosse o contrário: se você deixasse seus compromissos profissionais só para ficar comigo. Temos muito tempo. Já tinha tomado o café da Sandrinha e resolvi saborear um bombom. Dei uma mordida e fiquei 'viajando', pensando na morte da bezerra, com um esboço bobo de sorriso no rosto. A voz do Dr. Arnaldo me trouxe de volta à terra:
- Bom dia, Dra. Camila. O gelo está derretendo, não é?
- Quê? Bom dia, Dr. Arnaldo. Que gelo?
- Nada, não. Deixa pra lá. De noite, vocês conversam. Temos muito trabalho, hoje. Vou precisar que você resolva uns assuntos na Junta Comercial e, se der tempo, vou querer que você me encontre no Fórum.
Tudo bem, mãos à obra. Comecei a juntar as coisas. Como ele sabia que iríamos conversar à noite? Deduzi que você devia ter ligado para ele. E foi através do Dr. Arnaldo que você descobriu o meu chocolate favorito. Mas que gelo era esse que estava derretendo? Não tinha tempo para pensar nisso agora. Depois, tiraria isso a limpo.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Escutei a Sandrinha dizendo:
- Hoje, ela não saiu mais cedo. Eu é que já estou indo. Tenho prova na primeira aula.
Sabia que era você que tinha chegado. Fui atá a recepção.
- Não vou me demorar muito, já estou finalizando o relatório sobre aquela empresa. Boa prova, Sandrinha. Tenho certeza que você terá uma boa nota.
- Tomara! Quando sair, desligue tudo, tranque tudo. Ah! E juízo vocês dois - recomendou, saindo e fechando a porta.
A Sandrinha era uma moça esforçada, que trabalhava desde os quinze anos para ajudar a família. Tinha o sonho de formar-se e tentar uma carreira pública na área jurídica. Havia ficado noiva, há poucos meses, de seu namorado de três anos, que estava no último ano da faculdade e estagiava num grande escritório. Eram apaixonados, um pelo outro e pelo Direito.
Olhei para você e perguntei se queria me acompanhar até minha sala, eu não iria demorar muito, mas não queria deixá-lo sozinho, ali, na recepção. Você pegou uma revista qualquer e acomodou-se numa poltrona:
- Não. Espero você aqui. Não se preocupe, pode ir acabar o que tem pra fazer. - Baixou o tom de voz, como se estivesse falando com os seus botões - Eu posso perder o juízo.
Fiz que não ouvi. E ri, sem deixar você perceber, enquanto voltava para minha sala. Minutos depois, tudo terminado, peguei minha bolsa, agenda, chaves:
- Podemos ir.
- Desligou tudo? Trancou tudo?
- Sim, Sandrinha II, só falta daqui, da recepção.
Aquele final de tarde prometia ser muito divertido, depois do estresse do dia anterior. Nós merecíamos um pouco de diversão. Dirigimo-nos para o elevador, que logo abriu suas portas para nós. O elevador estava vazio, a maioria das pessoas já tinha ido embora. O prédio estava semi-deserto e silencioso. Assim que entrei, senti um calafrio estranho. Olhei para você, pensando em comentar alguma coisa. Não deu tempo. As portas fecharam-se e, em segundos, a luz apagou-se completamente e o elevador parou. Não chegou a descer um andar. Me apavorei:
- Gustavo, me dê sua mão, por favor!
- Calma, Mila. O prédio tem gerador, a gente vai sair logo daqui. Não se aflija!
Meu problema não era estar presa no elevador, não era claustrofobia, era o escuro. A fobia do escuro, nictofobia. Queria falar isso pra você, mas minha respiração ia ficando cada vez mais acelerada. Tinha dificuldade para respirar. Minha bolsa, agenda, chaves já haviam caído no chão do elevador. Só faltava eu ir pr'o chão, também. Não faltava muito para isso acontecer, minhas pernas já estavam trêmulas. De repente, uma luz fraquinha, que soube depois, era uma luz auxiliar, que funcionava com o gerador, acendeu.
- Tá vendo? Logo, a gente sai daqui. Não precisava se apavorar. Procure ficar mais calma, você não está sozinha, estou aqui com você, Mila.
Tão bonitinho o jeito que falou comigo! Me senti a Bela em perigo e o seu Herói salvador. Estava encostada num lado do elevador, próximo aos botões de controle, você ainda segurava a minha mão. E estava tão perto, que sentia o calor do seu corpo e seu perfume. Minha respiração estava voltando ao normal. Levantei meu rosto e meus olhos encontraram os seus. Nesse momento, senti você me abraçar, lentamente, pela cintura, aproximando-se mais do meu rosto. Fechei os olhos, assim que seus lábios tocaram, suavemente, os meus. Deixei-me envolver pela ternura dos seus lábios, explorando os meus até nossas bocas se unirem num beijo pleno e completo... Até sermos interrompidos pelo interfone do elevador:
- Alguém ficou preso aí? Tem alguém aí?
Sorri, baixei a cabeça e a encostei no seu peito, que continuou abraçado a mim. Respondeu ao porteiro:
- Sim, Severino. Estamos aqui, aguardando. Quanto tempo vai demorar?
- Não mais que cinco minutos, Sr. Gustavo. A Dra. Camila está com o senhor? Estão bem?
- Sim, ela está e estamos bem, obrigado.
- Como ele sabia que estávamos aqui? - perguntei.
- Eu avisei que passaria no seu escritório. Não gosto de ter surpresas. Pedi que nos avisasse de qualquer coisa.
Fiquei em silêncio, aproveitando o aconchego do seu abraço por mais alguns instantes. Quando o elevador começou a funcionar, você pegou minhas coisas que tinham caído no chão, ou melhor, que eu não consegui segurar. Logo, ganhávamos a rua.
Apesar do imprevisto e, sobretudo por causa dele, que acabou por nos unir, foi um final de tarde delicioso. Fomos a uma sorveteria, esfriar uma parte da situação que passei, a da fobia. A outra parte, mais carinhosa, você não me deixou esquecer. Nem eu queria.
Quando parou o carro em frente do edifício onde moro, convidei-o a subir. Você disse que não poderia, que seus pais estavam aguardando você para o jantar. Da próxima vez, subiria, prometeu. Sorri. Você acariciou meu rosto e me deu um beijo de novela, com vontade de beijar, com paixão. Senti um frio na barriga, meu rosto queimava. O beijo no elevador tinha sido ótimo, terno e suave. Aquele era diferente, quente, com desejo e cheio de segundas intenções. Senti meu coração acelerar. Estava confusa. Afastei-me, delicadamente:
- Não deixe seus pais esperando! - falei, séria.
Você sorriu:
- Amanhã a gente se fala.
Você esperou que eu entrasse no edifício, antes de sair com o carro. Achei gentil sua preocupação comigo. E subi para casa.
- Hoje, ela não saiu mais cedo. Eu é que já estou indo. Tenho prova na primeira aula.
Sabia que era você que tinha chegado. Fui atá a recepção.
- Não vou me demorar muito, já estou finalizando o relatório sobre aquela empresa. Boa prova, Sandrinha. Tenho certeza que você terá uma boa nota.
- Tomara! Quando sair, desligue tudo, tranque tudo. Ah! E juízo vocês dois - recomendou, saindo e fechando a porta.
A Sandrinha era uma moça esforçada, que trabalhava desde os quinze anos para ajudar a família. Tinha o sonho de formar-se e tentar uma carreira pública na área jurídica. Havia ficado noiva, há poucos meses, de seu namorado de três anos, que estava no último ano da faculdade e estagiava num grande escritório. Eram apaixonados, um pelo outro e pelo Direito.
Olhei para você e perguntei se queria me acompanhar até minha sala, eu não iria demorar muito, mas não queria deixá-lo sozinho, ali, na recepção. Você pegou uma revista qualquer e acomodou-se numa poltrona:
- Não. Espero você aqui. Não se preocupe, pode ir acabar o que tem pra fazer. - Baixou o tom de voz, como se estivesse falando com os seus botões - Eu posso perder o juízo.
Fiz que não ouvi. E ri, sem deixar você perceber, enquanto voltava para minha sala. Minutos depois, tudo terminado, peguei minha bolsa, agenda, chaves:
- Podemos ir.
- Desligou tudo? Trancou tudo?
- Sim, Sandrinha II, só falta daqui, da recepção.
Aquele final de tarde prometia ser muito divertido, depois do estresse do dia anterior. Nós merecíamos um pouco de diversão. Dirigimo-nos para o elevador, que logo abriu suas portas para nós. O elevador estava vazio, a maioria das pessoas já tinha ido embora. O prédio estava semi-deserto e silencioso. Assim que entrei, senti um calafrio estranho. Olhei para você, pensando em comentar alguma coisa. Não deu tempo. As portas fecharam-se e, em segundos, a luz apagou-se completamente e o elevador parou. Não chegou a descer um andar. Me apavorei:
- Gustavo, me dê sua mão, por favor!
- Calma, Mila. O prédio tem gerador, a gente vai sair logo daqui. Não se aflija!
Meu problema não era estar presa no elevador, não era claustrofobia, era o escuro. A fobia do escuro, nictofobia. Queria falar isso pra você, mas minha respiração ia ficando cada vez mais acelerada. Tinha dificuldade para respirar. Minha bolsa, agenda, chaves já haviam caído no chão do elevador. Só faltava eu ir pr'o chão, também. Não faltava muito para isso acontecer, minhas pernas já estavam trêmulas. De repente, uma luz fraquinha, que soube depois, era uma luz auxiliar, que funcionava com o gerador, acendeu.
- Tá vendo? Logo, a gente sai daqui. Não precisava se apavorar. Procure ficar mais calma, você não está sozinha, estou aqui com você, Mila.
Tão bonitinho o jeito que falou comigo! Me senti a Bela em perigo e o seu Herói salvador. Estava encostada num lado do elevador, próximo aos botões de controle, você ainda segurava a minha mão. E estava tão perto, que sentia o calor do seu corpo e seu perfume. Minha respiração estava voltando ao normal. Levantei meu rosto e meus olhos encontraram os seus. Nesse momento, senti você me abraçar, lentamente, pela cintura, aproximando-se mais do meu rosto. Fechei os olhos, assim que seus lábios tocaram, suavemente, os meus. Deixei-me envolver pela ternura dos seus lábios, explorando os meus até nossas bocas se unirem num beijo pleno e completo... Até sermos interrompidos pelo interfone do elevador:
- Alguém ficou preso aí? Tem alguém aí?
Sorri, baixei a cabeça e a encostei no seu peito, que continuou abraçado a mim. Respondeu ao porteiro:
- Sim, Severino. Estamos aqui, aguardando. Quanto tempo vai demorar?
- Não mais que cinco minutos, Sr. Gustavo. A Dra. Camila está com o senhor? Estão bem?
- Sim, ela está e estamos bem, obrigado.
- Como ele sabia que estávamos aqui? - perguntei.
- Eu avisei que passaria no seu escritório. Não gosto de ter surpresas. Pedi que nos avisasse de qualquer coisa.
Fiquei em silêncio, aproveitando o aconchego do seu abraço por mais alguns instantes. Quando o elevador começou a funcionar, você pegou minhas coisas que tinham caído no chão, ou melhor, que eu não consegui segurar. Logo, ganhávamos a rua.
Apesar do imprevisto e, sobretudo por causa dele, que acabou por nos unir, foi um final de tarde delicioso. Fomos a uma sorveteria, esfriar uma parte da situação que passei, a da fobia. A outra parte, mais carinhosa, você não me deixou esquecer. Nem eu queria.
Quando parou o carro em frente do edifício onde moro, convidei-o a subir. Você disse que não poderia, que seus pais estavam aguardando você para o jantar. Da próxima vez, subiria, prometeu. Sorri. Você acariciou meu rosto e me deu um beijo de novela, com vontade de beijar, com paixão. Senti um frio na barriga, meu rosto queimava. O beijo no elevador tinha sido ótimo, terno e suave. Aquele era diferente, quente, com desejo e cheio de segundas intenções. Senti meu coração acelerar. Estava confusa. Afastei-me, delicadamente:
- Não deixe seus pais esperando! - falei, séria.
Você sorriu:
- Amanhã a gente se fala.
Você esperou que eu entrasse no edifício, antes de sair com o carro. Achei gentil sua preocupação comigo. E subi para casa.
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