Fomos almoçar como combinamos, porém um telefonema da Sandrinha nos surpreendeu no meio da refeição:
- Mila, é melhor você voltar logo para o escritório.
- O que aconteceu, Sandrinha? Você está me assustando! Fala logo!
- Tem um policial aqui, ele quer falar com você. Acho que ele vai querer falar com o Gustavo, também.
- Aconteceu alguma coisa na minha casa? Com minha mãe, com a Bia, com meu pai? Fala, Sandrinha.
- Não, Mila. Fica tranquila, não aconteceu nada com sua família. Vem logo para o escritório, o policial não quer que eu fale por telefone.
- Tá, já estamos indo.
- Ela não adiantou nada o que é que está acontecendo?
- Não, mas tem um policial no escritório que quer falar com a gente. Me apavorei, agora, pensei que fosse algo com alguém da minha casa, mas a Sandrinha disse que não é isso. O que será que está pegando por lá?
- Vai saber! Pode ser alguma coisa com o Arnaldo ou o Felício, mas a gente só vai ficar sabendo se formos logo pra lá. Minha querida, hoje o dia promete!
No escritório, o policial nos contou que Dona Rita, esposa do Dr. Arnaldo, tinha ido ao banco para fazer um saque para pagar as funcionárias e fornecedores. Segundo o policial, "o meliante ganhou a fita no interior do banco e ficou na cola dela", seguiu-a de moto até a loja, no shopping, e a fez, junto com duas funcionárias, como reféns. Num descuido do assaltante, uma das funcionárias conseguiu fugir e avisar os seguranças e a polícia. O indivíduo dizia que queria mais dinheiro. O policial queria saber de nós, se o Dr. Arnaldo tinha algum desafeto, se estava trabalhando em algo que pudesse despertar alguma vingança de alguma parte insatisfeita, essas coisas. Tinha de investigar as possibilidades.
- Podemos ajudar de alguma forma? Meu pai também é advogado e amigo pessoal do Dr. Arnaldo. Se tiver algo que possamos fazer...
- O indivíduo está fazendo uma série de exigências para soltar as duas mulheres. Ele quer a mãe no local, já foram buscá-la. Pediu o advogado, também já foi providenciado. O mais complicado é que ele quer um jornalista famoso para dar uma entrevista exclusiva. Têm vários jornalistas no local, mas ele não quer nenhum dos que estão lá. Pode? Quer os cinco minutos de fama que tem direito. Ele quer que filme sua rendição para que sua integridade física seja preservada.
- Carlos Santana. Já verificaram? Ele aceitaria? - perguntei.
- Eu acho que sim. Carlos é muito famoso e está numa grande emissora.
- Você o conhece, Mila?
- Espere, faz um tempinho que não falo com ele, se o telefone dele não mudou, tá aqui...O Carlos começou a fazer Direito comigo, detestou e mudou para Jornalismo. Deu certo. Alô, Carlos? É a Camila, da faculdade, tudo bem? Não liguei pra conversar, não. Preciso de um favorzinho, se possível. Interessa pra você uma entrevista exclusiva com um indivíduo que mantém duas mulheres como reféns, sob a mira de um revólver? Uma delas é a esposa do meu chefe. Se você aceitar, sabe que existem riscos, apesar da polícia estar por perto...Vocês, jornalistas, são todos doidos... Valeu, Carlos!
Falei para o policial:
- Se puder entrar em contato com quem está negociando com o cara e informá-lo que o jornalista já está indo para lá, isso talvez o tranquilize.
- Tudo bem, vou informar através do rádio da viatura. Qualquer novidade, entraremos em contato com vocês.
- Desculpe, mas também vou. Meu pai não me perdoaria se eu deixasse o Dr. Arnaldo lá, sozinho, sem um amigo pra dar uma força e para representá-lo numa hora dessa.
- Eu também vou. Afinal, fui eu que fiz o contato com o jornalista.
A contra-gosto, o policial teve de aceitar que fôssemos para o local do sequestro. Faltava espaço para tantas viaturas e carros de imprensa. Nos aproximamos do policial que negociava com o sequestrador. Para um negociador, parecia já estar estressado:
- Esses dois, quem são? - perguntou ao policial que nos acompanhava, mas nem se importou com a resposta. Adiantei-me:
- Meu nome é Camila, sou advogada, trabalho com o Dr Arnaldo, marido de uma das vítimas. Eu falei com o jornalista Carlos Santana, que já está vindo para cá com sua equipe.
- Tá, podem ficar por aqui, mas não atrapalhem - falou com rispidez.
O Dr. Felício aproximou-se:
- Gustavo, Camila, espero que tudo acabe logo. O Arnaldo passou mal, está sendo medicado na ambulância, não quiz ir para o hospital, quer ver a Rita liberada logo.
Próximo de onde estávamos, uma senhora simples chorava muito. Era amparada por um policial. Percebi que era a mãe do sequestrador. Estava envergonhada pelo filho e por todo aquele alvoroço que ele estava provocando. Carlos chegou e foi negociado o contato dele com o rapaz. Enquanto isso, chegou um indivíduo empertigado, de nariz empinado, com ares de "sou o tal", dando ordens para o policial ríspido:
- Eu exijo falar com o meu cliente antes que se tome qualquer decisão.
- Aqui, o senhor não exige nada. Fica na sua.
Não resisti, tive de dar meu palpite:
- Se o senhor está tão preocupado com o seu cliente, onde estava quando ele fez as vítimas de reféns? E por que foi o último a chegar aqui no local? Antes do senhor falar com o seu cliente, as vítimas tem o direito de serem libertadas. E o senhor não tem o direito de exigir nada, ainda mais do policial que está aqui desde o início da ocorrência, para resgatar, ilesas, essas mulheres, que são vítimas do SEU cliente. Reitero o que o policial já lhe falou, fica na sua!
O Dr. Felício me olhava, surpreso. Você me abraçou e me puxou para o outro lado. Até o policial que negociava a rendição do indivíduo, deu uma rápida olhada e fez um sinal de aprovação. Para o advogado empertigado, só restou baixar a cabeça e ficar quieto.
A rendição do indivíduo aconteceu logo. Ele liberou as mulheres, que foram levadas para serem medicadas, pois estavam muito nervosas. O Dr. Arnaldo já estava melhor e viu o desfecho da ocorrência, com alívio. Dr. Felício iria acompanhá-lo. Carlos fez um sinal que ligaria depois. Voltamos para o escritório. Sandrinha estava aflita por notícias. Já não tinha clima para trabalho, só ficamos cumprindo o horário.
segunda-feira, 29 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
No dia seguinte, almoçamos juntos, mas tínhamos compromissos profissionais à tarde, não poderíamos demorar. Você quiz passar no escritório para me levar para casa, à tarde. Dispensei sua companhia. Não que eu quisesse fazer isso. Eu passaria a tarde no Fórum e, se saisse mais cedo, queria ir logo para casa. Eu não estava gostando nada dessas novas designações. Você ficou de me ligar à noite. Conversamos um pouco e prometi que esperaria por você na sexta-feira.
Fomos a um barzinho de lanches e sucos naturais.
- Acho que trabalhamos demais esta semana, Mila. Nós merecemos um sábado só para nós. Sem trabalho e sem imprevistos. Só nosso. O que acha de passarmos o dia fora da cidade, amanhã?
- Meu querido, você se esqueceu que, amanhã, a Bia estréia o show dela? Eu avisei para você, durante a semana. Se você não estiver a fim de ir, tudo bem, eu entendo. Mas a família tem de dar uma força.
- Me desculpa, eu esqueci. É claro que eu vou dar uma força para a irmãzinha, também. Estou curioso para vê-la cantar.
Minha irmã, e seu grupo, tinham sido contratados, por uma temporada, para animar as noites de uma casa noturna. Era seu primeiro trabalho profissional e ela estava muito animada e empenhada para que tudo desse certo.
Parecíamos dois amigos conversando. Nem tínhamos começado a ficar juntos e parecia que tudo tinha esfriado entre nós. Comecei a pensar em tudo, em nós. Eu não sabia como classificar o nosso relacionamento. Era apenas uma amizade carinhosa? Estávamos ficando? Namorando? Começando um caso? Você nunca falou nada, eu nunca questionei. Conversávamos como grandes amigos, nos despedíamos com doces beijinhos, e só.
Seu convite para passarmos o dia juntos poderia ser uma oportunidade para nos entendermos, ou não, e entender o que estava acontecendo conosco. Seu trabalho estava exigindo mais de você e o meu, estava me chateando. Estava descontente com a minha situação. Pensava em pedir as contas, mas o que eu iria fazer? Tinha de amadurecer alguma idéia, antes de tomar alguma decisão. Não comentei nada em casa, nem com você. Eu estava distante, eu sei. O quê me fazia bem era estar com você, por isso fiquei muito feliz de você ter ido na estréia da Bia. Foi um sucesso! Minha irmã saiu-se muito bem.
No domingo à tarde, programinha básico, fomos ao cinema. Enquanto apareciam os créditos na tela, você me surpreendeu com uma pergunta:
- Quer ir pr'o meu apartamento?
- Não.
- Você anda distante. Alguma coisa errada? Eu lhe fiz alguma coisa...?
- Por favor, Guto. O problema não é com você, é comigo. Eu sei que ando estressada, são alguns probleminhas que andam me tirando o sono, mas só eu posso resolver. Quando tiver minha resposta, minha solução, você será o primeiro a ficar sabendo. Por ora, tenta me compreender e, se puder, ficar do meu lado. Eu não quero que nada nos afaste.
- Mila, por que você não confia em mim? Me conte o que a está preocupando, será que não poderei ajudá-la? Duas cabeças pensam melhor que uma.
- Não se trata de confiança, querido. E sim de decisão - Tentei desviar o foco - E decidi que quero almoçar com você amanhã.
- Só isso?
- Calma, apressado, tudo tem seu tempo!
Sabia que, se eu contasse a você que estava descontente no escritório e com as novas determinações do Dr. Arnaldo, você iria conversar com ele para que as coisas voltassem a ser como antes. Eu não queria isso, porque agora também questionava se ainda queria continuar trabalhando na área jurídica.
Fomos a um barzinho de lanches e sucos naturais.
- Acho que trabalhamos demais esta semana, Mila. Nós merecemos um sábado só para nós. Sem trabalho e sem imprevistos. Só nosso. O que acha de passarmos o dia fora da cidade, amanhã?
- Meu querido, você se esqueceu que, amanhã, a Bia estréia o show dela? Eu avisei para você, durante a semana. Se você não estiver a fim de ir, tudo bem, eu entendo. Mas a família tem de dar uma força.
- Me desculpa, eu esqueci. É claro que eu vou dar uma força para a irmãzinha, também. Estou curioso para vê-la cantar.
Minha irmã, e seu grupo, tinham sido contratados, por uma temporada, para animar as noites de uma casa noturna. Era seu primeiro trabalho profissional e ela estava muito animada e empenhada para que tudo desse certo.
Parecíamos dois amigos conversando. Nem tínhamos começado a ficar juntos e parecia que tudo tinha esfriado entre nós. Comecei a pensar em tudo, em nós. Eu não sabia como classificar o nosso relacionamento. Era apenas uma amizade carinhosa? Estávamos ficando? Namorando? Começando um caso? Você nunca falou nada, eu nunca questionei. Conversávamos como grandes amigos, nos despedíamos com doces beijinhos, e só.
Seu convite para passarmos o dia juntos poderia ser uma oportunidade para nos entendermos, ou não, e entender o que estava acontecendo conosco. Seu trabalho estava exigindo mais de você e o meu, estava me chateando. Estava descontente com a minha situação. Pensava em pedir as contas, mas o que eu iria fazer? Tinha de amadurecer alguma idéia, antes de tomar alguma decisão. Não comentei nada em casa, nem com você. Eu estava distante, eu sei. O quê me fazia bem era estar com você, por isso fiquei muito feliz de você ter ido na estréia da Bia. Foi um sucesso! Minha irmã saiu-se muito bem.
No domingo à tarde, programinha básico, fomos ao cinema. Enquanto apareciam os créditos na tela, você me surpreendeu com uma pergunta:
- Quer ir pr'o meu apartamento?
- Não.
- Você anda distante. Alguma coisa errada? Eu lhe fiz alguma coisa...?
- Por favor, Guto. O problema não é com você, é comigo. Eu sei que ando estressada, são alguns probleminhas que andam me tirando o sono, mas só eu posso resolver. Quando tiver minha resposta, minha solução, você será o primeiro a ficar sabendo. Por ora, tenta me compreender e, se puder, ficar do meu lado. Eu não quero que nada nos afaste.
- Mila, por que você não confia em mim? Me conte o que a está preocupando, será que não poderei ajudá-la? Duas cabeças pensam melhor que uma.
- Não se trata de confiança, querido. E sim de decisão - Tentei desviar o foco - E decidi que quero almoçar com você amanhã.
- Só isso?
- Calma, apressado, tudo tem seu tempo!
Sabia que, se eu contasse a você que estava descontente no escritório e com as novas determinações do Dr. Arnaldo, você iria conversar com ele para que as coisas voltassem a ser como antes. Eu não queria isso, porque agora também questionava se ainda queria continuar trabalhando na área jurídica.
quarta-feira, 17 de março de 2010
À noite, você me ligou. Contou que o dia tinha sido muito cansativo, que a reunião não rendia, não se chegava a um consenso para assinar o contrato. Enfim, as duas partes cederam um pouco e o negócio foi fechado. Não conversamos muito, você estava cansado e eu, também. Combinamos de almoçar juntos, no dia seguinte. A semana acenava com muito trabalho para nós.
O Dr. Arnaldo queria que eu atuasse mais como advogada e menos como assistente. Estava me passando casos de concordata e falência para acompanhar no Fórum, e ir me acostumando; aberturas e encerramentos de empresas na Junta Comercial, etc. Não sei se queria isso. Eu estava confortável fazendo o serviço de bastidores, não me sentia uma advogada. Eu não era apaixonada pelo Direito, como a Sandrinha. Só não larguei a faculdade no meio, porque não sabia o que escolher. Eu tinha de me formar em alguma coisa e já estava no meio do curso. Resolvi terminar, mas nunca foi meu sonho trabalhar com Direito.
Nunca pensei em engenharia, como meu pai. Antes de casar, minha mãe era bailarina, dançava no Municipal. Depois do casamento, meu pai não quiz que ela continuasse com a carreira. Ela tinha de tomar conta da casa e dos filhos que viriam, não iria ter tempo para ficar dançando, justificava ele. Eu era um desastre para dançar; minha mãe até tentou fazer com que eu aprendesse, mas foi um fiasco. Adoro as artes, mas não tenho dons para nada: tentei cantar, só desafinava, não cantava uma nota no tom. Tentei aprender tocar violão, nunca acertava os acordes. Pensei em artes plásticas. Desenho, pintura, escultura; não deu. Uma criança de dois anos fazia qualquer coisa melhor que eu.
Eu queria fazer alguma coisa diferente, ter uma profissão que não fosse chata. Pensei em muitas coisas: psicologia, veterinária, turismo, moda, hotelaria e até carreira militar nas Forças Armadas. Desisti de todas. Ainda não me encontrei, profissionalmente. Ainda estou em busca de um rumo a seguir.
Bianca, minha irmã, desde criança, já brincava de ser cantora. Desde pequena, ela vive em função da música. Canta, toca piano, faz arranjos. Ela não teve dúvida ao escolher, sempre soube o que queria.
O Dr. Arnaldo queria que eu atuasse mais como advogada e menos como assistente. Estava me passando casos de concordata e falência para acompanhar no Fórum, e ir me acostumando; aberturas e encerramentos de empresas na Junta Comercial, etc. Não sei se queria isso. Eu estava confortável fazendo o serviço de bastidores, não me sentia uma advogada. Eu não era apaixonada pelo Direito, como a Sandrinha. Só não larguei a faculdade no meio, porque não sabia o que escolher. Eu tinha de me formar em alguma coisa e já estava no meio do curso. Resolvi terminar, mas nunca foi meu sonho trabalhar com Direito.
Nunca pensei em engenharia, como meu pai. Antes de casar, minha mãe era bailarina, dançava no Municipal. Depois do casamento, meu pai não quiz que ela continuasse com a carreira. Ela tinha de tomar conta da casa e dos filhos que viriam, não iria ter tempo para ficar dançando, justificava ele. Eu era um desastre para dançar; minha mãe até tentou fazer com que eu aprendesse, mas foi um fiasco. Adoro as artes, mas não tenho dons para nada: tentei cantar, só desafinava, não cantava uma nota no tom. Tentei aprender tocar violão, nunca acertava os acordes. Pensei em artes plásticas. Desenho, pintura, escultura; não deu. Uma criança de dois anos fazia qualquer coisa melhor que eu.
Eu queria fazer alguma coisa diferente, ter uma profissão que não fosse chata. Pensei em muitas coisas: psicologia, veterinária, turismo, moda, hotelaria e até carreira militar nas Forças Armadas. Desisti de todas. Ainda não me encontrei, profissionalmente. Ainda estou em busca de um rumo a seguir.
Bianca, minha irmã, desde criança, já brincava de ser cantora. Desde pequena, ela vive em função da música. Canta, toca piano, faz arranjos. Ela não teve dúvida ao escolher, sempre soube o que queria.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Demorei para conseguir dormir. Ficava olhando para o teto do quarto e pensando nos últimos acontecimentos. Há poucos dias, nem sabia seu nome. Agora, já estávamos aos beijos. Não sabia quem você era e descubro que você é filho de um amigo de faculdade do meu chefe. O que mais estaria por vir? Que mais sei de você? Sei que, há algum tempo, resolveu deixar a casa dos pais para morar sozinho. Você disse que queria total independência, mas não entrou em detalhes sobre isso. Eu perguntei se você já havia sido casado. Disse que não e mudou logo de assunto. Deu a impressão que alguma coisa a respeito desse assunto incomodava você. Pode ser só impressão.
De repente, fiquei insegura em relação a você. Será que eu não demonstrei interesse demais, insinuando alguma coisa? Lembrei-me da Dri, falando para pegar você de canto. Não fiz isso, literalmente, mas será que não sugeri com o olhar? E você? Se interessou mesmo por mim? Ou estará aproveitando-se de uma situação? As coisas foram acontecendo entre nós, os fatos foram se sucedendo e, pronto, estávamos envolvidos. Aconteceu tão depressa, que chega a me assustar! Ou será que não? Serei eu, a estar procurando chifre em cabeça de cavalo?
O cansaço me dominou e acabei dormindo. Acordei com dor de cabeça e avisei que chegaria mais tarde no escritório.
Cheguei com cara de poucos amigos. A Sandrinha me olhou e disse que havia um recado na minha mesa. Agradeci e fui para minha sala.
Em cima da mesa, havia uma caixa retangular e um envelope com um cartão. Senti um doce aroma de chocolate. Pensei com os meus botões: " O que será, agora? Algum convite ou alguma desculpa?" Estava mal humorada. Meus pensamentos durante a noite estragaram um final de tarde delicioso. E ali, estava eu, com cara de idiota, segurando o envelope e supondo o que poderia ser.
- Não vai ler? - a Sandrinha apareceu com um café - Foi um entregador que trouxe, assim que cheguei. Tome o café. Parece que um trem passou em cima de você! Mais tarde, quando estiver melhor, se quiser conversar, sabe onde estou.
- Valeu, Sandrinha!
Um entregador que trouxe. Interessante. Já comecei a ficar intrigada. Era melhor ler e saber. De repente, nem era seu. Poderia ser de algum cliente do escritório. Ou do Dr. Arnaldo, que sempre se lembrava de mim e da Sandrinha com chocolate. Por que eu achei que poderia ser seu? Por que meus pensamentos ficavam sempre voltados para você? Já estava ficando fissurada por sua causa. Você entrou na minha vida e estava detonando, causando uma revolução, mexendo com todos os meus sentimentos, me deixando confusa. Não em relação a você, mas confusa comigo comigo mesmo. Nunca senti algo tão... tão... sei lá, forte, intenso...
Abri o envelope, finalmente. Diante de meus olhos, desenhava palavras escritas com uma letra bonita e masculina, segura e determinada: "Mila, querida, ontem à noite, surgiram algumas questões urgentes de trabalho a serem resolvidas. Estou viajando com os diretores para o interior para uma reunião. Devo retornar só no final da tarde ou no começo da noite. Ligo pra você à noite. Sinto não ter passado por aí, para lhe desejar um bom dia. Espero que entenda. De qualquer forma, que você tenha um bom dia, sem novidades ruins. Beijos. Gustavo. P.S.: Depois vou querer, pelo menos, um beijo com sabor do seu chocolate favorito".
Como você sabe se é meu chocolate favorito? Abri a caixa. Fiquei surpresa e sorri. Acho que você tem bola de cristal ou é um bruxo. Realmente, eram meus favoritos. E por que não entenderia o seu trabalho? Eu não entenderia e não aceitaria, se fosse o contrário: se você deixasse seus compromissos profissionais só para ficar comigo. Temos muito tempo. Já tinha tomado o café da Sandrinha e resolvi saborear um bombom. Dei uma mordida e fiquei 'viajando', pensando na morte da bezerra, com um esboço bobo de sorriso no rosto. A voz do Dr. Arnaldo me trouxe de volta à terra:
- Bom dia, Dra. Camila. O gelo está derretendo, não é?
- Quê? Bom dia, Dr. Arnaldo. Que gelo?
- Nada, não. Deixa pra lá. De noite, vocês conversam. Temos muito trabalho, hoje. Vou precisar que você resolva uns assuntos na Junta Comercial e, se der tempo, vou querer que você me encontre no Fórum.
Tudo bem, mãos à obra. Comecei a juntar as coisas. Como ele sabia que iríamos conversar à noite? Deduzi que você devia ter ligado para ele. E foi através do Dr. Arnaldo que você descobriu o meu chocolate favorito. Mas que gelo era esse que estava derretendo? Não tinha tempo para pensar nisso agora. Depois, tiraria isso a limpo.
De repente, fiquei insegura em relação a você. Será que eu não demonstrei interesse demais, insinuando alguma coisa? Lembrei-me da Dri, falando para pegar você de canto. Não fiz isso, literalmente, mas será que não sugeri com o olhar? E você? Se interessou mesmo por mim? Ou estará aproveitando-se de uma situação? As coisas foram acontecendo entre nós, os fatos foram se sucedendo e, pronto, estávamos envolvidos. Aconteceu tão depressa, que chega a me assustar! Ou será que não? Serei eu, a estar procurando chifre em cabeça de cavalo?
O cansaço me dominou e acabei dormindo. Acordei com dor de cabeça e avisei que chegaria mais tarde no escritório.
Cheguei com cara de poucos amigos. A Sandrinha me olhou e disse que havia um recado na minha mesa. Agradeci e fui para minha sala.
Em cima da mesa, havia uma caixa retangular e um envelope com um cartão. Senti um doce aroma de chocolate. Pensei com os meus botões: " O que será, agora? Algum convite ou alguma desculpa?" Estava mal humorada. Meus pensamentos durante a noite estragaram um final de tarde delicioso. E ali, estava eu, com cara de idiota, segurando o envelope e supondo o que poderia ser.
- Não vai ler? - a Sandrinha apareceu com um café - Foi um entregador que trouxe, assim que cheguei. Tome o café. Parece que um trem passou em cima de você! Mais tarde, quando estiver melhor, se quiser conversar, sabe onde estou.
- Valeu, Sandrinha!
Um entregador que trouxe. Interessante. Já comecei a ficar intrigada. Era melhor ler e saber. De repente, nem era seu. Poderia ser de algum cliente do escritório. Ou do Dr. Arnaldo, que sempre se lembrava de mim e da Sandrinha com chocolate. Por que eu achei que poderia ser seu? Por que meus pensamentos ficavam sempre voltados para você? Já estava ficando fissurada por sua causa. Você entrou na minha vida e estava detonando, causando uma revolução, mexendo com todos os meus sentimentos, me deixando confusa. Não em relação a você, mas confusa comigo comigo mesmo. Nunca senti algo tão... tão... sei lá, forte, intenso...
Abri o envelope, finalmente. Diante de meus olhos, desenhava palavras escritas com uma letra bonita e masculina, segura e determinada: "Mila, querida, ontem à noite, surgiram algumas questões urgentes de trabalho a serem resolvidas. Estou viajando com os diretores para o interior para uma reunião. Devo retornar só no final da tarde ou no começo da noite. Ligo pra você à noite. Sinto não ter passado por aí, para lhe desejar um bom dia. Espero que entenda. De qualquer forma, que você tenha um bom dia, sem novidades ruins. Beijos. Gustavo. P.S.: Depois vou querer, pelo menos, um beijo com sabor do seu chocolate favorito".
Como você sabe se é meu chocolate favorito? Abri a caixa. Fiquei surpresa e sorri. Acho que você tem bola de cristal ou é um bruxo. Realmente, eram meus favoritos. E por que não entenderia o seu trabalho? Eu não entenderia e não aceitaria, se fosse o contrário: se você deixasse seus compromissos profissionais só para ficar comigo. Temos muito tempo. Já tinha tomado o café da Sandrinha e resolvi saborear um bombom. Dei uma mordida e fiquei 'viajando', pensando na morte da bezerra, com um esboço bobo de sorriso no rosto. A voz do Dr. Arnaldo me trouxe de volta à terra:
- Bom dia, Dra. Camila. O gelo está derretendo, não é?
- Quê? Bom dia, Dr. Arnaldo. Que gelo?
- Nada, não. Deixa pra lá. De noite, vocês conversam. Temos muito trabalho, hoje. Vou precisar que você resolva uns assuntos na Junta Comercial e, se der tempo, vou querer que você me encontre no Fórum.
Tudo bem, mãos à obra. Comecei a juntar as coisas. Como ele sabia que iríamos conversar à noite? Deduzi que você devia ter ligado para ele. E foi através do Dr. Arnaldo que você descobriu o meu chocolate favorito. Mas que gelo era esse que estava derretendo? Não tinha tempo para pensar nisso agora. Depois, tiraria isso a limpo.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Escutei a Sandrinha dizendo:
- Hoje, ela não saiu mais cedo. Eu é que já estou indo. Tenho prova na primeira aula.
Sabia que era você que tinha chegado. Fui atá a recepção.
- Não vou me demorar muito, já estou finalizando o relatório sobre aquela empresa. Boa prova, Sandrinha. Tenho certeza que você terá uma boa nota.
- Tomara! Quando sair, desligue tudo, tranque tudo. Ah! E juízo vocês dois - recomendou, saindo e fechando a porta.
A Sandrinha era uma moça esforçada, que trabalhava desde os quinze anos para ajudar a família. Tinha o sonho de formar-se e tentar uma carreira pública na área jurídica. Havia ficado noiva, há poucos meses, de seu namorado de três anos, que estava no último ano da faculdade e estagiava num grande escritório. Eram apaixonados, um pelo outro e pelo Direito.
Olhei para você e perguntei se queria me acompanhar até minha sala, eu não iria demorar muito, mas não queria deixá-lo sozinho, ali, na recepção. Você pegou uma revista qualquer e acomodou-se numa poltrona:
- Não. Espero você aqui. Não se preocupe, pode ir acabar o que tem pra fazer. - Baixou o tom de voz, como se estivesse falando com os seus botões - Eu posso perder o juízo.
Fiz que não ouvi. E ri, sem deixar você perceber, enquanto voltava para minha sala. Minutos depois, tudo terminado, peguei minha bolsa, agenda, chaves:
- Podemos ir.
- Desligou tudo? Trancou tudo?
- Sim, Sandrinha II, só falta daqui, da recepção.
Aquele final de tarde prometia ser muito divertido, depois do estresse do dia anterior. Nós merecíamos um pouco de diversão. Dirigimo-nos para o elevador, que logo abriu suas portas para nós. O elevador estava vazio, a maioria das pessoas já tinha ido embora. O prédio estava semi-deserto e silencioso. Assim que entrei, senti um calafrio estranho. Olhei para você, pensando em comentar alguma coisa. Não deu tempo. As portas fecharam-se e, em segundos, a luz apagou-se completamente e o elevador parou. Não chegou a descer um andar. Me apavorei:
- Gustavo, me dê sua mão, por favor!
- Calma, Mila. O prédio tem gerador, a gente vai sair logo daqui. Não se aflija!
Meu problema não era estar presa no elevador, não era claustrofobia, era o escuro. A fobia do escuro, nictofobia. Queria falar isso pra você, mas minha respiração ia ficando cada vez mais acelerada. Tinha dificuldade para respirar. Minha bolsa, agenda, chaves já haviam caído no chão do elevador. Só faltava eu ir pr'o chão, também. Não faltava muito para isso acontecer, minhas pernas já estavam trêmulas. De repente, uma luz fraquinha, que soube depois, era uma luz auxiliar, que funcionava com o gerador, acendeu.
- Tá vendo? Logo, a gente sai daqui. Não precisava se apavorar. Procure ficar mais calma, você não está sozinha, estou aqui com você, Mila.
Tão bonitinho o jeito que falou comigo! Me senti a Bela em perigo e o seu Herói salvador. Estava encostada num lado do elevador, próximo aos botões de controle, você ainda segurava a minha mão. E estava tão perto, que sentia o calor do seu corpo e seu perfume. Minha respiração estava voltando ao normal. Levantei meu rosto e meus olhos encontraram os seus. Nesse momento, senti você me abraçar, lentamente, pela cintura, aproximando-se mais do meu rosto. Fechei os olhos, assim que seus lábios tocaram, suavemente, os meus. Deixei-me envolver pela ternura dos seus lábios, explorando os meus até nossas bocas se unirem num beijo pleno e completo... Até sermos interrompidos pelo interfone do elevador:
- Alguém ficou preso aí? Tem alguém aí?
Sorri, baixei a cabeça e a encostei no seu peito, que continuou abraçado a mim. Respondeu ao porteiro:
- Sim, Severino. Estamos aqui, aguardando. Quanto tempo vai demorar?
- Não mais que cinco minutos, Sr. Gustavo. A Dra. Camila está com o senhor? Estão bem?
- Sim, ela está e estamos bem, obrigado.
- Como ele sabia que estávamos aqui? - perguntei.
- Eu avisei que passaria no seu escritório. Não gosto de ter surpresas. Pedi que nos avisasse de qualquer coisa.
Fiquei em silêncio, aproveitando o aconchego do seu abraço por mais alguns instantes. Quando o elevador começou a funcionar, você pegou minhas coisas que tinham caído no chão, ou melhor, que eu não consegui segurar. Logo, ganhávamos a rua.
Apesar do imprevisto e, sobretudo por causa dele, que acabou por nos unir, foi um final de tarde delicioso. Fomos a uma sorveteria, esfriar uma parte da situação que passei, a da fobia. A outra parte, mais carinhosa, você não me deixou esquecer. Nem eu queria.
Quando parou o carro em frente do edifício onde moro, convidei-o a subir. Você disse que não poderia, que seus pais estavam aguardando você para o jantar. Da próxima vez, subiria, prometeu. Sorri. Você acariciou meu rosto e me deu um beijo de novela, com vontade de beijar, com paixão. Senti um frio na barriga, meu rosto queimava. O beijo no elevador tinha sido ótimo, terno e suave. Aquele era diferente, quente, com desejo e cheio de segundas intenções. Senti meu coração acelerar. Estava confusa. Afastei-me, delicadamente:
- Não deixe seus pais esperando! - falei, séria.
Você sorriu:
- Amanhã a gente se fala.
Você esperou que eu entrasse no edifício, antes de sair com o carro. Achei gentil sua preocupação comigo. E subi para casa.
- Hoje, ela não saiu mais cedo. Eu é que já estou indo. Tenho prova na primeira aula.
Sabia que era você que tinha chegado. Fui atá a recepção.
- Não vou me demorar muito, já estou finalizando o relatório sobre aquela empresa. Boa prova, Sandrinha. Tenho certeza que você terá uma boa nota.
- Tomara! Quando sair, desligue tudo, tranque tudo. Ah! E juízo vocês dois - recomendou, saindo e fechando a porta.
A Sandrinha era uma moça esforçada, que trabalhava desde os quinze anos para ajudar a família. Tinha o sonho de formar-se e tentar uma carreira pública na área jurídica. Havia ficado noiva, há poucos meses, de seu namorado de três anos, que estava no último ano da faculdade e estagiava num grande escritório. Eram apaixonados, um pelo outro e pelo Direito.
Olhei para você e perguntei se queria me acompanhar até minha sala, eu não iria demorar muito, mas não queria deixá-lo sozinho, ali, na recepção. Você pegou uma revista qualquer e acomodou-se numa poltrona:
- Não. Espero você aqui. Não se preocupe, pode ir acabar o que tem pra fazer. - Baixou o tom de voz, como se estivesse falando com os seus botões - Eu posso perder o juízo.
Fiz que não ouvi. E ri, sem deixar você perceber, enquanto voltava para minha sala. Minutos depois, tudo terminado, peguei minha bolsa, agenda, chaves:
- Podemos ir.
- Desligou tudo? Trancou tudo?
- Sim, Sandrinha II, só falta daqui, da recepção.
Aquele final de tarde prometia ser muito divertido, depois do estresse do dia anterior. Nós merecíamos um pouco de diversão. Dirigimo-nos para o elevador, que logo abriu suas portas para nós. O elevador estava vazio, a maioria das pessoas já tinha ido embora. O prédio estava semi-deserto e silencioso. Assim que entrei, senti um calafrio estranho. Olhei para você, pensando em comentar alguma coisa. Não deu tempo. As portas fecharam-se e, em segundos, a luz apagou-se completamente e o elevador parou. Não chegou a descer um andar. Me apavorei:
- Gustavo, me dê sua mão, por favor!
- Calma, Mila. O prédio tem gerador, a gente vai sair logo daqui. Não se aflija!
Meu problema não era estar presa no elevador, não era claustrofobia, era o escuro. A fobia do escuro, nictofobia. Queria falar isso pra você, mas minha respiração ia ficando cada vez mais acelerada. Tinha dificuldade para respirar. Minha bolsa, agenda, chaves já haviam caído no chão do elevador. Só faltava eu ir pr'o chão, também. Não faltava muito para isso acontecer, minhas pernas já estavam trêmulas. De repente, uma luz fraquinha, que soube depois, era uma luz auxiliar, que funcionava com o gerador, acendeu.
- Tá vendo? Logo, a gente sai daqui. Não precisava se apavorar. Procure ficar mais calma, você não está sozinha, estou aqui com você, Mila.
Tão bonitinho o jeito que falou comigo! Me senti a Bela em perigo e o seu Herói salvador. Estava encostada num lado do elevador, próximo aos botões de controle, você ainda segurava a minha mão. E estava tão perto, que sentia o calor do seu corpo e seu perfume. Minha respiração estava voltando ao normal. Levantei meu rosto e meus olhos encontraram os seus. Nesse momento, senti você me abraçar, lentamente, pela cintura, aproximando-se mais do meu rosto. Fechei os olhos, assim que seus lábios tocaram, suavemente, os meus. Deixei-me envolver pela ternura dos seus lábios, explorando os meus até nossas bocas se unirem num beijo pleno e completo... Até sermos interrompidos pelo interfone do elevador:
- Alguém ficou preso aí? Tem alguém aí?
Sorri, baixei a cabeça e a encostei no seu peito, que continuou abraçado a mim. Respondeu ao porteiro:
- Sim, Severino. Estamos aqui, aguardando. Quanto tempo vai demorar?
- Não mais que cinco minutos, Sr. Gustavo. A Dra. Camila está com o senhor? Estão bem?
- Sim, ela está e estamos bem, obrigado.
- Como ele sabia que estávamos aqui? - perguntei.
- Eu avisei que passaria no seu escritório. Não gosto de ter surpresas. Pedi que nos avisasse de qualquer coisa.
Fiquei em silêncio, aproveitando o aconchego do seu abraço por mais alguns instantes. Quando o elevador começou a funcionar, você pegou minhas coisas que tinham caído no chão, ou melhor, que eu não consegui segurar. Logo, ganhávamos a rua.
Apesar do imprevisto e, sobretudo por causa dele, que acabou por nos unir, foi um final de tarde delicioso. Fomos a uma sorveteria, esfriar uma parte da situação que passei, a da fobia. A outra parte, mais carinhosa, você não me deixou esquecer. Nem eu queria.
Quando parou o carro em frente do edifício onde moro, convidei-o a subir. Você disse que não poderia, que seus pais estavam aguardando você para o jantar. Da próxima vez, subiria, prometeu. Sorri. Você acariciou meu rosto e me deu um beijo de novela, com vontade de beijar, com paixão. Senti um frio na barriga, meu rosto queimava. O beijo no elevador tinha sido ótimo, terno e suave. Aquele era diferente, quente, com desejo e cheio de segundas intenções. Senti meu coração acelerar. Estava confusa. Afastei-me, delicadamente:
- Não deixe seus pais esperando! - falei, séria.
Você sorriu:
- Amanhã a gente se fala.
Você esperou que eu entrasse no edifício, antes de sair com o carro. Achei gentil sua preocupação comigo. E subi para casa.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Meu pai me deixou em frente do edifício, me deu um beijo e as recomendações de um pai zeloso. Subi e encontrei a Sandrinha, que havia chegado havia instantes e já tinha recebido um telefonema do Dr. Arnaldo. Ele pediu que ela ligasse para minha casa para saber como eu estava e avisar que, se não estivesse bem, poderia ficar em casa. Na correreria do dia anterior, ele esqueceu de pedir isso a ela, que já tirava o fone do gancho:
- Oi, Mila! Já ia ligar para sua casa. Como você está? Melhorou?
- Oi, Sandrinha! Tanto que já estou aqui. O fato de ontem me deixou muito abalada porque lembrou da morte de um primo muito querido da minha mãe, que eu e minha irmã considerávamos como um tio. Até hoje, eu não me conformo. Mas já passou, acabou, vamos mudar de assunto.
- Tudo bem. Se você está em condições de trabalhar, o Dr. Felício, ontem, depois que voltamos ao escritório, me passou uma pilha de coisas pra fazer. Se você estiver sossegada, agora de manhã, e puder me ajudar, eu agradeço.
- Claro, agora estou livre. Só quando o Dr. Arnaldo e o Dr. Felício chegarem é que saberei o que terei que fazer hoje.
- Bom dia, meninas! - reconheci aquela voz aveludada.
- Bom dia, Gustavo! Tudo bem?
- Eu que tenho de perguntar isso a você, Mila.
- Enquanto vocês decidem quem pergunta o quê para quem, eu vou fazer um cafezinho pra gente começar o dia - falou a Sandrinha, usando isso como uma estratégia para nos deixar a sós.
- Tá tudo bem, já estou legal. Obrigado por ter me levado em casa. E desculpa pelo inconveniente que posso ter causado.
- Pára com isso! Você não causou nada e não tem de agradecer nada. Além do quê, eu conheci sua mãe, uma senhora encantadora e sua irmãzinha, uma gracinha de menina. Se eu tivesse dez anos a menos, talvez me interessasse por ela - riu. Sua família é formada por mulheres muito bonitas e uma delas, com certeza, muito especial.
Fiquei um tanto constrangida com o jeito que falou. Uma cantada, elogiando a família. Saí pela tangente:
- Falta você conhecer o Sr. Paulo. Ele está mais para fera que para bela...
- Você não me assusta. E pode ter certeza que vou conhecê-lo logo. Sua mãe me convidou para jantar e eu disse que combinaria com você. A menos que você não queira que eu vá...
- Imagine, Gustavo! Será um prazer receber você em casa.
- Gostaria de convidar você para almoçar, hoje, mas tenho um compromisso de negócios. Não saia mais cedo, que passo aqui no final da tarde. Vamos tomar alguma coisa, depois levo você para casa.
De novo. Você não convida, você determina e pronto. Você toma as decisões e as sentencia: 'não saia mais cedo', 'passo aqui', 'vamos tomar alguma coisa', 'levo você para casa'. O que acontece se eu não obedecer suas ordens? Você vai fazer beicinho e chorar? Vai me pôr nos joelhos e dar palmadas na minha bunda? Que mania você tem! E o pior: eu acabo aceitando e me deixando nas suas mãos.
- Tá bom.
A Sandrinha entrou com o cafezinho cheiroso e fresquinho, que acabara de fazer...
- Oi, Mila! Já ia ligar para sua casa. Como você está? Melhorou?
- Oi, Sandrinha! Tanto que já estou aqui. O fato de ontem me deixou muito abalada porque lembrou da morte de um primo muito querido da minha mãe, que eu e minha irmã considerávamos como um tio. Até hoje, eu não me conformo. Mas já passou, acabou, vamos mudar de assunto.
- Tudo bem. Se você está em condições de trabalhar, o Dr. Felício, ontem, depois que voltamos ao escritório, me passou uma pilha de coisas pra fazer. Se você estiver sossegada, agora de manhã, e puder me ajudar, eu agradeço.
- Claro, agora estou livre. Só quando o Dr. Arnaldo e o Dr. Felício chegarem é que saberei o que terei que fazer hoje.
- Bom dia, meninas! - reconheci aquela voz aveludada.
- Bom dia, Gustavo! Tudo bem?
- Eu que tenho de perguntar isso a você, Mila.
- Enquanto vocês decidem quem pergunta o quê para quem, eu vou fazer um cafezinho pra gente começar o dia - falou a Sandrinha, usando isso como uma estratégia para nos deixar a sós.
- Tá tudo bem, já estou legal. Obrigado por ter me levado em casa. E desculpa pelo inconveniente que posso ter causado.
- Pára com isso! Você não causou nada e não tem de agradecer nada. Além do quê, eu conheci sua mãe, uma senhora encantadora e sua irmãzinha, uma gracinha de menina. Se eu tivesse dez anos a menos, talvez me interessasse por ela - riu. Sua família é formada por mulheres muito bonitas e uma delas, com certeza, muito especial.
Fiquei um tanto constrangida com o jeito que falou. Uma cantada, elogiando a família. Saí pela tangente:
- Falta você conhecer o Sr. Paulo. Ele está mais para fera que para bela...
- Você não me assusta. E pode ter certeza que vou conhecê-lo logo. Sua mãe me convidou para jantar e eu disse que combinaria com você. A menos que você não queira que eu vá...
- Imagine, Gustavo! Será um prazer receber você em casa.
- Gostaria de convidar você para almoçar, hoje, mas tenho um compromisso de negócios. Não saia mais cedo, que passo aqui no final da tarde. Vamos tomar alguma coisa, depois levo você para casa.
De novo. Você não convida, você determina e pronto. Você toma as decisões e as sentencia: 'não saia mais cedo', 'passo aqui', 'vamos tomar alguma coisa', 'levo você para casa'. O que acontece se eu não obedecer suas ordens? Você vai fazer beicinho e chorar? Vai me pôr nos joelhos e dar palmadas na minha bunda? Que mania você tem! E o pior: eu acabo aceitando e me deixando nas suas mãos.
- Tá bom.
A Sandrinha entrou com o cafezinho cheiroso e fresquinho, que acabara de fazer...
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Hoje, acordei muito estranha. Deve ter sido por tudo que passei ontem, o tranquilizante que tomei e acabei por não jantar. Tudo me fez acordar me sentindo esquisita. Levantei e tomei um banho demorado para tirar aquela sensação. Estranhei meu pai estar em casa àquela hora. Quando me levanto, ele já tomou café e já saiu para o trabalho. Como ele é engenheiro, ele gosta de chegar na obra antes que os trabalhadores comecem o turno, para inspecionar e dar instruções.
A família parecia estar me esperando, para saborearmos o café da manhã que Dona Carolina, minha mãe, preparou com muito capricho. A primeira a falar foi Bianca, minha irmã cinco anos mais nova:
- Mila, você está bem? Dormiu bem? Não teve pesadelos? Ficamos sabendo o quê aconteceu.
Meu pai olhou para ela, que entendeu seu olhar e calou-se.
- Filha, ficamos muito preocupados com você e sua reação. Felizmente, depois que fizeram a varredura no prédio, só encontraram uma caixa de sapatos num dos banheiros, com os sapatos, que alguém esqueceu. Algum paranóico ligou e informou que poderia ser uma bomba.
- Ou foi uma brincadeira de muito mau gosto - completou Dona Carol.
- Ainda bem que foi só um susto - disse.
- Mila, me conta, quem é aquele gato que trouxe você para casa? Trabalha com você? É advogado, também? Um pouco velho pr'o meu gosto, mas muito estiloso. Combina com você. Ele tem um 'sex appeal' de quem sabe das coisas, hein?
- Bia, mais respeito! - repreendeu meu pai. Minha irmã falava o que pensava e, muitas vezes, falava sem pensar. Meu pai, quando ela exagerava ou era incoveniente, a repreendia. Achei engraçado o jeito dela fala de vc. Tive vontade de rir, mas me segurei por causa de papai, que era do tipo machista, antiquado. Minha mãe entrou na conversa:
- Um rapaz muito educado, ficou muito preocupado com a Mila. Eu fiz questão que ele tomasse um café, antes de ir embora. Ficamos conversando um pouco e, ele me contou, que o pai dele e o Dr. Arnaldo, um dos chefes da Mila, são amigos desde o tempo da faculdade. Quando o pai dele começou a fazer faculdade, já era casado e ele já tinha nascido. Então, ele conhece o Dr. Arnaldo desde garotinho.
Essa informação eu ainda não tinha. Eu queria tirar mais coisas que eles tinham conversado, mas o Sr. Paulo foi logo me avisando que iria me levar para o trabalho, para não fazer hora com o café para não me atrasar.
- Traga-o, qualquer dia, para jantar, Mila. Eu já o convidei. Ele ficou de combinar com você.
Você conseguiu conquistar as mulheres da família. Só falta o paizão. Que já estava abrindo a porta do apartamento com as chaves do carro na mão e me apressando.
A família parecia estar me esperando, para saborearmos o café da manhã que Dona Carolina, minha mãe, preparou com muito capricho. A primeira a falar foi Bianca, minha irmã cinco anos mais nova:
- Mila, você está bem? Dormiu bem? Não teve pesadelos? Ficamos sabendo o quê aconteceu.
Meu pai olhou para ela, que entendeu seu olhar e calou-se.
- Filha, ficamos muito preocupados com você e sua reação. Felizmente, depois que fizeram a varredura no prédio, só encontraram uma caixa de sapatos num dos banheiros, com os sapatos, que alguém esqueceu. Algum paranóico ligou e informou que poderia ser uma bomba.
- Ou foi uma brincadeira de muito mau gosto - completou Dona Carol.
- Ainda bem que foi só um susto - disse.
- Mila, me conta, quem é aquele gato que trouxe você para casa? Trabalha com você? É advogado, também? Um pouco velho pr'o meu gosto, mas muito estiloso. Combina com você. Ele tem um 'sex appeal' de quem sabe das coisas, hein?
- Bia, mais respeito! - repreendeu meu pai. Minha irmã falava o que pensava e, muitas vezes, falava sem pensar. Meu pai, quando ela exagerava ou era incoveniente, a repreendia. Achei engraçado o jeito dela fala de vc. Tive vontade de rir, mas me segurei por causa de papai, que era do tipo machista, antiquado. Minha mãe entrou na conversa:
- Um rapaz muito educado, ficou muito preocupado com a Mila. Eu fiz questão que ele tomasse um café, antes de ir embora. Ficamos conversando um pouco e, ele me contou, que o pai dele e o Dr. Arnaldo, um dos chefes da Mila, são amigos desde o tempo da faculdade. Quando o pai dele começou a fazer faculdade, já era casado e ele já tinha nascido. Então, ele conhece o Dr. Arnaldo desde garotinho.
Essa informação eu ainda não tinha. Eu queria tirar mais coisas que eles tinham conversado, mas o Sr. Paulo foi logo me avisando que iria me levar para o trabalho, para não fazer hora com o café para não me atrasar.
- Traga-o, qualquer dia, para jantar, Mila. Eu já o convidei. Ele ficou de combinar com você.
Você conseguiu conquistar as mulheres da família. Só falta o paizão. Que já estava abrindo a porta do apartamento com as chaves do carro na mão e me apressando.
Assinar:
Postagens (Atom)
