Na Associação Comercial, o almoço transcorria de forma descontraida entre os membros e os homenageados. De repente, começou um burburinho que Dr. Arnaldo e Dr. Felício, a princípio, não entenderam. O presidente da Associação aproximou-se dos dois advogados e deu-lhes a notícia, em tom fatídico:
- Uma tragédia está acontecendo! O prédio do escritório de vocês está pegando fogo. E é grave a situação. Sinto muito em dar esta notícia assim, mas a cidade inteira está parada diante deste fato.
Dr. Arnaldo sentiu o coração acelerar, pensou que fosse infartar.
- Meu Deus, Felício, e as meninas, o Gustavo, será que eles estão bem? Será que conseguiram sair? Deus, a Camila está grávida!
O ar lhe faltava. O presidente da Associação lhe ofereceu água.
- Quem é Gustavo? Quem é Camila? - perguntou.
- Gustavo é filho do melhor amigo do Arnaldo, dos tempos de faculdade. Ele é casado com a Camila, que é nossa assistente e está grávida do seu primeiro filho.
- Quem mais poderia estar lá?
- A Sandra, nossa atual estagiária, mas já foi nossa recepcionista e secretária, conhece bem o trabalho, está sendo assessorada pela Camila, que, após a chegada do bebê, vai nos deixar, infelizmente. Vai se dedicar ao bebê e ao marido, pelo menos, por um tempo. E tem a Márcia, a nova recepcionista. Eu espero que todos estejam bem!
Felício sempre foi mais tranquilo que Arnaldo. Homem de pensar primeiro, analisar e depois, expor suas idéais. Arnaldo, mais impetuoso, muitas vezes, agia sem pensar. A sociedade entre os dois deu certo por causa dessa diferença de personalidade, onde um tinha a mais, completava onde o outro tinha de menos.
- Felício, tente contato com todos, por favor.
Bem que ele tentou. Camila, Gustavo, Sandra. Nada. O único telefone que tocava, mas não era atendido, era da novata. Olhou para o amigo, sem resposta.
- Por favor, ligue para a casa do Otávio, estou sem condições de falar com ele ou com a Isabel.
- Tá certo.
O telefone tocou na casa de Otávio, Augusto já estava posicionado para atender.
- Alô? É o Augusto. Dr. Felício...
- Augusto, estou ligando porque, vocês devem saber, o quê está acontecendo...
- Sim, estamos sabendo, o senhor sabe algo sobre meu irmão e da Camila?
- Infelizmente, não. Minha esperança, e do Arnaldo, era saber alguma coisa por vocês. Nós estamos na Associação Comercial e acabamos de ficar sabendo...
- O que nós sabemos é que o Gustavo ia levar a Mila ao médico, mas os telefones deles estão mudos. A família da Mila está vindo para cá. Minha mãe queria ir para o local, mas meu pai tirou isso da cabeça dela.
- Claro, não se pode fazer nada no local, é melhor esperar em casa. Quem tiver notícias primeiro, entra em contato, certo?
- Certo, Dr. Felício.
Augusto desligou.
- Dr. Arnaldo e Dr. Felício estão bem, mas não sabem do Guto e da Mila, nem da Sandra e da nova funcionária.
Denise chegou com o noivo, Alex. Tinham marcado o casamento para depois do nascimento do sobrinho.
- Alguma novidade?
- Ainda não.
A família de Mila chegou em seguida. O clima era de expectativa e angústia. As mães tentavam manter o controle, mas as lágrimas teimavam em rolar pelas faces de ambas.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
- INCÊNDIO DE GRANDE PROPORÇÃO ESTÁ DESTRUINDO PRÉDIO NO CENTRO, PESSOAS IMPEDIDAS DE SAIR, BARRADAS PELO FOGO E PELA FUMAÇA, DESESPERADAS PEDEM SOCORRO NAS JANELAS...
- Mãe, corre aqui, é o prédio que a Mila e Guto trabalham!
- Meu Deus! Minha filha... - Dona Carol entrou em desespero.
- Calma, mãe! O Guto não ia levar a Mila fazer um exame? Eles podem ter saído antes disso tudo começar...
- A SITUAÇÃO É CRÍTICA, CADA VEZ, CHEGANDO MAIS CAMINHÕES DO CORPO DE BOMBEIROS, MAS ELES NÃO ESTÃO CONSEGUINDO DETER AS LABAREDAS, ...DEUS! UMA PESSOA SE JOGOU...MEU DEUS!
- Por favor, Bia, desligue essa televisão! - Dona Carol estava trêmula.
O telefone tocou. Dona Carol, já lívida, gritou para Bia atender.
- Pai... já está sabendo?... vai para o local?...
- Sabendo o quê? O que ele vai fazer lá? O quê aconteceu com a Mila? O Gustavo? O nenê?... Deus!...
- Pai, é melhor vir pra casa, a mãe não está bem. Vou tentar falar com a Mila ou com o Guto.
Para desespero de Dona Carol, Bia tentou o telefone de Mila e de Guto várias vezes, sem sucesso. Bia também estava angustiada, mas não queria demonstrar seu sentimento, ansiosos e desesperado por notícias de sua irmã grávida, para não deixar sua mãe mais nervosa. Só aumentaria a aflição de Dona Carol. Cada segundo era uma eternidade. A mãe não queria saber das notícias mostradas na TV. O telefone tocou, novamente. Bia atendeu.
- Alô?... Carlos Santana?... Sei, você é amigo da minha irmã... Também, não sabemos nada ainda... Você está aí?... Se você souber de alguma coisa, por favor, nos informe, eu agradeço.
Dona Carol era um poço de lágrimas e desespero.
- Calma, mãe. Era o Carlos Santana, aquele amigo jornalista da Mila, ele está lá no local. Disse que, se souber da Mila e do Guto, ele liga. Ele contou que a Mila ia se encontrar com ele depois que fosse ao médico, que o Guto a levaria.
- Por quê?
- Não sei, mãe, ele não entrou em detalhes, ele está lá trabalhando.
- E seu pai que não chega?
- Mãe, ele acabou de ligar, ele está vindo.
- Meu Deus, a Isabel também deve estar desesperada! Liga pra casa do Guto, pra saber se eles tem notícias!
- É melhor não ligar, mãe. Se eles não souberem o quê está acontecendo, vão ficar em desespero. Além do Guto, da Mila e do bebê, seu Otávio tem um amigo que também trabalha lá, aliás, o melhor amigo, o chefe da Mila.
- É verdade!... Mas você pode ligar para o Luís Augusto e sondar, como quem não quer nada. Liga, Bia. Pelo menos, a gente fica sabendo se eles já sabem.
- Tá bom, vou ligar.
Bia pegou o telefone pensando o quê falaria para o irmão do Gustavo.
- Alô, Augusto? É a Bia...
- Que bom que você ligou! Estava mesmo querendo ligar para sua casa, mas estava receioso. Vocês já sabem o quê está acontecendo no prédio, lá no centro, né?
- Sim, sabemos o quê está acontecendo, mas não temos notícias da Mila e do Guto.
- Nem nós, Bia. Aqui em casa, está o maior desespero. Por que vocês não vêm pra cá? Assim, esperamos juntos por notícias. Boas, tenho fé!
- Meu pai está vindo pra casa; assim que ele chegar, nós iremos, sim. Eu acredito e tenho fé em Deus que as notícias serão boas!
- Estamos esperando...
Bia desligou, olhou para a mãe, largada no sofá, sem forças para, sequer, esboçar um gesto.
- Mãe, eles, também, não tem notícias da Mila e do Guto, o Augusto achou melhor a gente ir pra lá, assim aguardaremos, juntos, por novidades. Também, acho melhor. Vamos esperar papai chegar e vamos pra lá.
- Tudo bem, filha. Não tenho forças pra nada, nem cabeça pra pensar em outra coisa.
A porta do apartamento abriu-se e Seu Paulo adentrou no recinto, transtornado.
- Sabe de alguma coisa, Paulo?
- Não, Carolina, vim escutando as notícias pelo rádio do carro, mas...nada...
- Pai, falei com o Augusto, ele pediu para todos nós irmos pra lá. Aguardaremos as notícias por lá, tudo bem?
- Sim, filha, tudo bem. Afinal, queremos saber como estão nossos filhos. Vamos!
- Mãe, corre aqui, é o prédio que a Mila e Guto trabalham!
- Meu Deus! Minha filha... - Dona Carol entrou em desespero.
- Calma, mãe! O Guto não ia levar a Mila fazer um exame? Eles podem ter saído antes disso tudo começar...
- A SITUAÇÃO É CRÍTICA, CADA VEZ, CHEGANDO MAIS CAMINHÕES DO CORPO DE BOMBEIROS, MAS ELES NÃO ESTÃO CONSEGUINDO DETER AS LABAREDAS, ...DEUS! UMA PESSOA SE JOGOU...MEU DEUS!
- Por favor, Bia, desligue essa televisão! - Dona Carol estava trêmula.
O telefone tocou. Dona Carol, já lívida, gritou para Bia atender.
- Pai... já está sabendo?... vai para o local?...
- Sabendo o quê? O que ele vai fazer lá? O quê aconteceu com a Mila? O Gustavo? O nenê?... Deus!...
- Pai, é melhor vir pra casa, a mãe não está bem. Vou tentar falar com a Mila ou com o Guto.
Para desespero de Dona Carol, Bia tentou o telefone de Mila e de Guto várias vezes, sem sucesso. Bia também estava angustiada, mas não queria demonstrar seu sentimento, ansiosos e desesperado por notícias de sua irmã grávida, para não deixar sua mãe mais nervosa. Só aumentaria a aflição de Dona Carol. Cada segundo era uma eternidade. A mãe não queria saber das notícias mostradas na TV. O telefone tocou, novamente. Bia atendeu.
- Alô?... Carlos Santana?... Sei, você é amigo da minha irmã... Também, não sabemos nada ainda... Você está aí?... Se você souber de alguma coisa, por favor, nos informe, eu agradeço.
Dona Carol era um poço de lágrimas e desespero.
- Calma, mãe. Era o Carlos Santana, aquele amigo jornalista da Mila, ele está lá no local. Disse que, se souber da Mila e do Guto, ele liga. Ele contou que a Mila ia se encontrar com ele depois que fosse ao médico, que o Guto a levaria.
- Por quê?
- Não sei, mãe, ele não entrou em detalhes, ele está lá trabalhando.
- E seu pai que não chega?
- Mãe, ele acabou de ligar, ele está vindo.
- Meu Deus, a Isabel também deve estar desesperada! Liga pra casa do Guto, pra saber se eles tem notícias!
- É melhor não ligar, mãe. Se eles não souberem o quê está acontecendo, vão ficar em desespero. Além do Guto, da Mila e do bebê, seu Otávio tem um amigo que também trabalha lá, aliás, o melhor amigo, o chefe da Mila.
- É verdade!... Mas você pode ligar para o Luís Augusto e sondar, como quem não quer nada. Liga, Bia. Pelo menos, a gente fica sabendo se eles já sabem.
- Tá bom, vou ligar.
Bia pegou o telefone pensando o quê falaria para o irmão do Gustavo.
- Alô, Augusto? É a Bia...
- Que bom que você ligou! Estava mesmo querendo ligar para sua casa, mas estava receioso. Vocês já sabem o quê está acontecendo no prédio, lá no centro, né?
- Sim, sabemos o quê está acontecendo, mas não temos notícias da Mila e do Guto.
- Nem nós, Bia. Aqui em casa, está o maior desespero. Por que vocês não vêm pra cá? Assim, esperamos juntos por notícias. Boas, tenho fé!
- Meu pai está vindo pra casa; assim que ele chegar, nós iremos, sim. Eu acredito e tenho fé em Deus que as notícias serão boas!
- Estamos esperando...
Bia desligou, olhou para a mãe, largada no sofá, sem forças para, sequer, esboçar um gesto.
- Mãe, eles, também, não tem notícias da Mila e do Guto, o Augusto achou melhor a gente ir pra lá, assim aguardaremos, juntos, por novidades. Também, acho melhor. Vamos esperar papai chegar e vamos pra lá.
- Tudo bem, filha. Não tenho forças pra nada, nem cabeça pra pensar em outra coisa.
A porta do apartamento abriu-se e Seu Paulo adentrou no recinto, transtornado.
- Sabe de alguma coisa, Paulo?
- Não, Carolina, vim escutando as notícias pelo rádio do carro, mas...nada...
- Pai, falei com o Augusto, ele pediu para todos nós irmos pra lá. Aguardaremos as notícias por lá, tudo bem?
- Sim, filha, tudo bem. Afinal, queremos saber como estão nossos filhos. Vamos!
sábado, 25 de setembro de 2010
Muitas mudanças estavam ocorrendo. A empresa em que você trabalha estava expandindo, crescendo e o conjunto de escritórios já não suportava mais atender a demanda que vinha se apresentando. Compraram um pequeno, mas moderno e espaçoso prédio, um pouco distante do centro, e programaram a mudança. Aos poucos, conforme, iam ficando prontas as instalações, móveis e documentos iam sendo transferidos. Você disse que queria ser um dos últimos a ir para o novo endereço e explicou as razões: sua esposa estava para dar a luz, a qualquer momento, e você, como pai de primeira viagem, queria estar por perto.
No escritório de advocacia, também, haviam mudanças. O escritório, também, iria ter sede própria. Dr. Arnaldo e Dr. Felício compraram uma casa, não tão moderna quanto gostariam, mas foi o que conseguiram encontrar não muito longe do centro. Sandrinha havia se formado e, enquanto esperava a sua carteira definitiva da OAB, estagiava comigo. Aliás, ela fazia todo o trabalho, não me deixava fazer nada, com a desculpa da minha gravidez. Eu não reclamava. Dr. Arnaldo e Dr. Felício gostavam muito dela e, como eles sabiam que, depois do nascimento do bebê, eu não voltaria a trabalhar, estavam apostando nela para ficar no meu lugar. Ela já conhecia o escritório, os advogados, o serviço e boa parte dos clientes, por quê investir numa pessoa que nada sabia? Contrataram, por hora, antes da mudança, uma recepcionista, Márcia, eficiente, simpática, mas pouco amigável. Sandrinha explicava o serviço a ela, depois vinha torcendo o nariz. Eu ria, dizia:
- Dra. Sandra, a Marcinha está te chamando na recepção!
- Fica me tirando, fica, Mila! Você não vai ter de ver a cara dessa metida todo dia. Ah, ela não gosta de apelidos, nem diminutivos, nem pense em chamá-la de Marcinha.
- É, Sandrinha é só você, única e exclusiva! E por falar em exclusiva, a senhora está muito bonita, muito produzida, onde pensa que vai? Alguma audiência especial? Ou a audiência será com um certo Dr. Lúcio, após o expediente?
- Dra. Camila, a senhora é muito perspicaz, nada lhe escapa, seria uma boa detetive, uma policial, já pensou na possibilidade? Dra. Camila, delegada de polícia, que máximo!
- Nem pensar, Sandrinha! Longe de mim ficar atrás de bandidos! Ainda mais agora com esse barrigão. E logo mais, com um bebezinho chorando, querendo mamar, um maridão chegando do serviço, esperando o jantar e a mulher chegando junto, com um monte de armas enfiadas nas roupas e toda suja, porque entrou no meio do mato no encalço de bandidos. Imagine a cena! O Guto pegava o nenê e ia pra casa da mãe.
A Sandrinha riu:
- Não seja dramática, Mila. Existem muitas delegadas casadas e que são mães e não fazem esse drama!
- Tá bom, mas essa não é a minha praia! E não tente mudar de assunto, o foco é você, não eu. Vai me contar ou é segredo de estado?
- Não tem jeito, né? Quando você quer uma coisa, você acaba conseguindo. Taí seu marido que não me deixa mentir!
- Não fui eu que pedi ele em casamento! Não mude de assunto de novo!
- Não vou mudar, Mila. Vou te contar. Hoje, não terá nada a fazer, à tarde. Vou almoçar com o Lúcio e não voltarei mais. Ele recebeu uma promoção no escritório em que trabalha e quer escolher uma data para a nossa união.
- Parabéns para vocês dois! Até que enfim vai sair esse casório! Então, logo, a Dra. Sandra fará parte do clube das senhoras casadas!
- Clube do qual a senhora entrou há pouco tempo, não é mesmo, Dra. Camila?
Ríamos de nossa conversa, quando o Dr. Arnaldo entrou na sala. Estava muito alinhado, com um terno escuro, gravata combinando, camisa branca, sapatos lustrosos.
- Meninas, eu e o Felício não voltaremos para o escritório, depois do almoço. A Sandrinha também, não voltará, como já tinha me pedido. A Mila vai fazer um exame e, depende de quanto tempo demorar por lá, talvez, também, nem volte. Se houver necessidade e for urgente, vocês tem como me localizar e ao Felício, se precisarem de alguma coisa, aqui, no escritório, só ficará a Dona Márcia, à tarde.
- Tudo bem. Bom almoço!
Dr. Arnaldo e Dr. Felício iam ser homenageados num almoço na Associação Comercial local pelos trabalhos realizados e por sempre participarem de eventos beneficentes na região. Aquela seria uma tarde sem trabalho para todos.
O interfone tocou:
- Dra. Camila, o Dr. Gustavo está aqui. Posso pedir para que entre?
- Eu já estou saindo, Dona Márcia!
Sandrinha fez uma careta.
No escritório de advocacia, também, haviam mudanças. O escritório, também, iria ter sede própria. Dr. Arnaldo e Dr. Felício compraram uma casa, não tão moderna quanto gostariam, mas foi o que conseguiram encontrar não muito longe do centro. Sandrinha havia se formado e, enquanto esperava a sua carteira definitiva da OAB, estagiava comigo. Aliás, ela fazia todo o trabalho, não me deixava fazer nada, com a desculpa da minha gravidez. Eu não reclamava. Dr. Arnaldo e Dr. Felício gostavam muito dela e, como eles sabiam que, depois do nascimento do bebê, eu não voltaria a trabalhar, estavam apostando nela para ficar no meu lugar. Ela já conhecia o escritório, os advogados, o serviço e boa parte dos clientes, por quê investir numa pessoa que nada sabia? Contrataram, por hora, antes da mudança, uma recepcionista, Márcia, eficiente, simpática, mas pouco amigável. Sandrinha explicava o serviço a ela, depois vinha torcendo o nariz. Eu ria, dizia:
- Dra. Sandra, a Marcinha está te chamando na recepção!
- Fica me tirando, fica, Mila! Você não vai ter de ver a cara dessa metida todo dia. Ah, ela não gosta de apelidos, nem diminutivos, nem pense em chamá-la de Marcinha.
- É, Sandrinha é só você, única e exclusiva! E por falar em exclusiva, a senhora está muito bonita, muito produzida, onde pensa que vai? Alguma audiência especial? Ou a audiência será com um certo Dr. Lúcio, após o expediente?
- Dra. Camila, a senhora é muito perspicaz, nada lhe escapa, seria uma boa detetive, uma policial, já pensou na possibilidade? Dra. Camila, delegada de polícia, que máximo!
- Nem pensar, Sandrinha! Longe de mim ficar atrás de bandidos! Ainda mais agora com esse barrigão. E logo mais, com um bebezinho chorando, querendo mamar, um maridão chegando do serviço, esperando o jantar e a mulher chegando junto, com um monte de armas enfiadas nas roupas e toda suja, porque entrou no meio do mato no encalço de bandidos. Imagine a cena! O Guto pegava o nenê e ia pra casa da mãe.
A Sandrinha riu:
- Não seja dramática, Mila. Existem muitas delegadas casadas e que são mães e não fazem esse drama!
- Tá bom, mas essa não é a minha praia! E não tente mudar de assunto, o foco é você, não eu. Vai me contar ou é segredo de estado?
- Não tem jeito, né? Quando você quer uma coisa, você acaba conseguindo. Taí seu marido que não me deixa mentir!
- Não fui eu que pedi ele em casamento! Não mude de assunto de novo!
- Não vou mudar, Mila. Vou te contar. Hoje, não terá nada a fazer, à tarde. Vou almoçar com o Lúcio e não voltarei mais. Ele recebeu uma promoção no escritório em que trabalha e quer escolher uma data para a nossa união.
- Parabéns para vocês dois! Até que enfim vai sair esse casório! Então, logo, a Dra. Sandra fará parte do clube das senhoras casadas!
- Clube do qual a senhora entrou há pouco tempo, não é mesmo, Dra. Camila?
Ríamos de nossa conversa, quando o Dr. Arnaldo entrou na sala. Estava muito alinhado, com um terno escuro, gravata combinando, camisa branca, sapatos lustrosos.
- Meninas, eu e o Felício não voltaremos para o escritório, depois do almoço. A Sandrinha também, não voltará, como já tinha me pedido. A Mila vai fazer um exame e, depende de quanto tempo demorar por lá, talvez, também, nem volte. Se houver necessidade e for urgente, vocês tem como me localizar e ao Felício, se precisarem de alguma coisa, aqui, no escritório, só ficará a Dona Márcia, à tarde.
- Tudo bem. Bom almoço!
Dr. Arnaldo e Dr. Felício iam ser homenageados num almoço na Associação Comercial local pelos trabalhos realizados e por sempre participarem de eventos beneficentes na região. Aquela seria uma tarde sem trabalho para todos.
O interfone tocou:
- Dra. Camila, o Dr. Gustavo está aqui. Posso pedir para que entre?
- Eu já estou saindo, Dona Márcia!
Sandrinha fez uma careta.
sábado, 18 de setembro de 2010
Meu pai, a princípio, ficou apreensivo com a notícia; afinal, a primogênita dele já ia ser mãe. Depois, gostou da idéia de ser avô e de ter um gurizinho ou uma princesinha por perto. Todos, no maior clima de alegria. Sua família, também, gostou da novidade, principalmente seu irmão Augusto, que não perdeu a oportunidade de brincar com você:
- Você não quiz esperar, não é, Guto? Também, se esperasse muito, você ia ficar velho e seria mais avô do que pai, e, talvez, tivesse que tomar aqueles comprimidinhos azuis, ou amerelos, sei lá.
- Você não vai me tirar do sério, seu babaca. Quero ver quando chegar a sua vez.
- Não sei se terei a sorte, que você teve, de encontrar uma "Camila" na minha vida, Gustavo.
- Caro Augusto, a Camila é única. Outra, tenho certeza, que você não vai encontrar. Mas torço que você encontre uma jovem tão companheira quanto ela. Sua hora vai chegar, quando menos você esperar. Pode crer.
- Enquanto isso, vou ter um sobrinho ou sobrinha para paparicar...
- Se eu e a mãe não cuidar, essa criança vai ficar muito chata. Ela nem nasceu e todo mundo quer paparicá-la.
- Se ela ficar chata, maninho, todo mundo deixa de paparicá-la.
Você foi um futuro pai maravilhoso. Desde o primeiro dia, que você soube que eu estava grávida, você sempre se preocupou com o meu bem estar. Toda vez que lhe era possível, fazia questão de me acompanhar no médico e nos exames. Ficava triste e ansioso por notícias, quando não podia ir comigo. Minha mãe e a Bia me acompanhavam. Até meu pai chegou a me levar, numa ocasião.
Dois meses depois, nos casamos no sítio do Dr. Arnaldo. Foi uma cerimônia sem muita frescura, apenas com o juiz de paz. A recepção aconteceu, em seguida, e foi muito agradável. Preferimos não viajar para algum lugar especial, decidimos que programaríamos uma viagem depois que o bebê nascesse e pudesse nos acompanhar. Claro que tiramos uns dias só pra nós dois. Merecíamos uns dias de descanso, para não fazer e nem pensar em nada. Fomos para uma praia particular, próxima da cidade, porém longe do burburinho dos banhistas "habituées".
Fui morar no seu apartamento. Fiz algumas adaptações para deixá-lo com a nossa cara. Não era mais um apartamento de solteiro, agora era de um casal. Resolvemos ficar por lá até o bebê nascer. Enquanto isso, iríamos procurar uma casa que tivesse um bom quintal. Além do bebê precisar de um espaço para brincar quando crescesse, eu queria ter um cachorro. E no apartamento não dava. Seu apartamento era ótimo para nós dois, mas um terceiro membro da família estava por chegar. Enquanto fosse, apenas, um nenezinho, tudo bem.
Resolvii trabalhar no escritório até o bebê nascer, ou enquanto pudesse carregar a barriga, que crescia a cada dia. Você me apoiou na minha decisão. Trabalhando no mesmo prédio, eu estaria por perto, caso precisasse de alguma coisa. E você não iria precisar sair correndo para me ajudar. Além do mais, você poderia me paparicar sempre que estivesse ocioso. Quando não me sentia muito bem, você me deixava na casa dos meus pais, com recomendações para minha mãe cuidar de mim e, qualquer coisa que houvesse, para ligar, imediatamente, para você. Minha mãe acalmava você:
- Ainda não está na hora, Gustavo. Essas sintomas são normais, não se preocupe. Não vai acontecer nada. Vai trabalhar e fique tranquilo, que eu sei tomar conta da minha filha.
Enquanto. isso, eu ia colocando meu projeto em andamento. Conversava com o Carlos, que estreitou relações com vários contatos. Às vezes, ele me dava algumas sugestões, que eu aproveitava, quando me convinha. Você ficava curioso para saber o quê eu tanto fazia na frente do computador. Eu dizia que estava pesquisando, pois queria fazer um novo curso, que desse uma ajuda na minha mudança profissional. Em casa, eu não trabalhava no meu projeto, não queria que você soubesse antes da hora. Depois, poderia não dar certo. Eu não queria criar expectativas. A expectativa, em casa, era a chegada do Tavinho, o nosso filhinho. Quando soubemos que seria um garotão, optamos por homenagear nossos pais, Paulo e Otávio, e escolhemos um nome composto para chamá-lo: Paulo Otávio. E o "baby" logo ganhou o apelido de Tavinho.
- Você não quiz esperar, não é, Guto? Também, se esperasse muito, você ia ficar velho e seria mais avô do que pai, e, talvez, tivesse que tomar aqueles comprimidinhos azuis, ou amerelos, sei lá.
- Você não vai me tirar do sério, seu babaca. Quero ver quando chegar a sua vez.
- Não sei se terei a sorte, que você teve, de encontrar uma "Camila" na minha vida, Gustavo.
- Caro Augusto, a Camila é única. Outra, tenho certeza, que você não vai encontrar. Mas torço que você encontre uma jovem tão companheira quanto ela. Sua hora vai chegar, quando menos você esperar. Pode crer.
- Enquanto isso, vou ter um sobrinho ou sobrinha para paparicar...
- Se eu e a mãe não cuidar, essa criança vai ficar muito chata. Ela nem nasceu e todo mundo quer paparicá-la.
- Se ela ficar chata, maninho, todo mundo deixa de paparicá-la.
Você foi um futuro pai maravilhoso. Desde o primeiro dia, que você soube que eu estava grávida, você sempre se preocupou com o meu bem estar. Toda vez que lhe era possível, fazia questão de me acompanhar no médico e nos exames. Ficava triste e ansioso por notícias, quando não podia ir comigo. Minha mãe e a Bia me acompanhavam. Até meu pai chegou a me levar, numa ocasião.
Dois meses depois, nos casamos no sítio do Dr. Arnaldo. Foi uma cerimônia sem muita frescura, apenas com o juiz de paz. A recepção aconteceu, em seguida, e foi muito agradável. Preferimos não viajar para algum lugar especial, decidimos que programaríamos uma viagem depois que o bebê nascesse e pudesse nos acompanhar. Claro que tiramos uns dias só pra nós dois. Merecíamos uns dias de descanso, para não fazer e nem pensar em nada. Fomos para uma praia particular, próxima da cidade, porém longe do burburinho dos banhistas "habituées".
Fui morar no seu apartamento. Fiz algumas adaptações para deixá-lo com a nossa cara. Não era mais um apartamento de solteiro, agora era de um casal. Resolvemos ficar por lá até o bebê nascer. Enquanto isso, iríamos procurar uma casa que tivesse um bom quintal. Além do bebê precisar de um espaço para brincar quando crescesse, eu queria ter um cachorro. E no apartamento não dava. Seu apartamento era ótimo para nós dois, mas um terceiro membro da família estava por chegar. Enquanto fosse, apenas, um nenezinho, tudo bem.
Resolvii trabalhar no escritório até o bebê nascer, ou enquanto pudesse carregar a barriga, que crescia a cada dia. Você me apoiou na minha decisão. Trabalhando no mesmo prédio, eu estaria por perto, caso precisasse de alguma coisa. E você não iria precisar sair correndo para me ajudar. Além do mais, você poderia me paparicar sempre que estivesse ocioso. Quando não me sentia muito bem, você me deixava na casa dos meus pais, com recomendações para minha mãe cuidar de mim e, qualquer coisa que houvesse, para ligar, imediatamente, para você. Minha mãe acalmava você:
- Ainda não está na hora, Gustavo. Essas sintomas são normais, não se preocupe. Não vai acontecer nada. Vai trabalhar e fique tranquilo, que eu sei tomar conta da minha filha.
Enquanto. isso, eu ia colocando meu projeto em andamento. Conversava com o Carlos, que estreitou relações com vários contatos. Às vezes, ele me dava algumas sugestões, que eu aproveitava, quando me convinha. Você ficava curioso para saber o quê eu tanto fazia na frente do computador. Eu dizia que estava pesquisando, pois queria fazer um novo curso, que desse uma ajuda na minha mudança profissional. Em casa, eu não trabalhava no meu projeto, não queria que você soubesse antes da hora. Depois, poderia não dar certo. Eu não queria criar expectativas. A expectativa, em casa, era a chegada do Tavinho, o nosso filhinho. Quando soubemos que seria um garotão, optamos por homenagear nossos pais, Paulo e Otávio, e escolhemos um nome composto para chamá-lo: Paulo Otávio. E o "baby" logo ganhou o apelido de Tavinho.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Passaram, aproximadamente, duas semanas. Já havíamos começado os preparativos do nosso 'enlace' (que palavra esquisita, antiga, fora de moda!). Enfim, optamos por uma cerimônia mais informal, que aconteceria de manhã, no sítio do Dr. Arnaldo, que seria o seu padrinho.
Entre os preparativos e o meu projeto, eu continuava trabalhando no escritório de advocacia. Você, como sempre, passava em casa para me levar. Às vezes, subia e tomava café conosco, outras vezes, me aguardava no carro.
Nesse dia, especificamente, você não ia subir, iria me esperar na portaria. Eu não levantei bem, estava com um pouco de tontura e enjoada. Apesar disso, me arrumei. Pensei comigo: devo ter comido alguma coisa que não caiu legal, antes de sair tomo algum remedinho e logo melhoro. Engano meu. Quando saí do quarto e senti o cheiro de café, o enjôo voltou com tudo e corri para o banheiro. A Bianca viu e foi atrás de mim.
- Que foi, Mila? Você não está bem? Você está vomitando?
- Alguma coisa que comi me fez mal.
- Será?
- Vou tomar alguma coisa para o estômago, ou fígado, e vou melhorar.
- Você não vai tomar nem café?
- Bia, nem me fale em café que minha ânsia aumenta.
- Mila! Será que você não está grávida?
- Que idéia, Bia!
- Pensa bem, há quanto tempo veio sua última menstruação?
- No mês passado, eu acho.
- Ih, maninha, com tantas coisas acontecendo na sua vida, você se esqueceu de se previnir.
- Pode ser, mas o Guto nunca esquece.
- Nenhuma vez?
- Só me lembro da primeira vez que tomamos banho juntos, mas só ficamos "brincando", como você gosta de falar.
- Taí, acho melhor você fazer o teste da farmácia, desconfio que, daqui a alguns meses, serei titia.
- Nem me fale, Bia. Eu fico apavorada desde já.
- Deixa de ser boba, Camila! Mesmo que você não fosse casar com o bonitão, você vai ter um filho do homem que você ama... Seu telefone está tocando...
- Deve ser o Gustavo, que deve estar cansado de esperar. Atende pra mim, Bia. E pede pra ele subir.
A Bia lhe contou que eu não estava me sentindo bem e pediu pra você subir. Ela não falou nada do enjôo e da disconfiança que tinha. Você ficou todo preocupado comigo:
- Que aconteceu, querida? O que você tem?
- Nada. Estou indisposta.
- Ela está com enjôo - completou Bia.
Minha mãe lhe ofereceu café.
- Não fala em café, mãe, que a Mila fica mais enjoada.
- Mas a Mila gosta de café, Bia.
- Só o nome está me dando enjôo, mãe.
- Filha, você está grávida?
- Amor?...
- Não sei. Estou enjoada. Por enquanto, é só isso.
- Já falei que você tem de fazer o teste da farmácia, para tirar a dúvida. Se der negativo, tudo bem. Se der positivo, você vai fazer outros exames.
- Eu vou até a farmácia buscar esse teste. Eu sou o mais interessado em saber se vou ser pai. Volto logo.
Você saiu em busca de uma farmácia para comprar o tal teste de gravidez. Voltou com três marcas diferentes. A Bia brincou:
- É só a Mila que precisa fazer o teste, Gustavo. Eu e a mamãe não estamos com sintomas.
- Tudo bem, cunhada. Eu não sabia o qual comprar, por isso trouxe os três.
- Vamos fazer isso logo. Também estou ansiosa.
- Vou ajudar você, Mila - disse minha irmã.
Fomos para o banheiro fazer o tal teste. Demoramos um pouco. Bianca quiz usar os três "kits"; não queria que pairasse dúvidas. Sabíamos que você estava impaciente e mamãe, ansiosa. Enfim, saimos do banheiro. Eu e minha irmã estávamos sérias. A Bia fez questão de fazer o comunicado:
- Sr. Gustavo, eu quero avisá-lo que, a partir de hoje, o senhor terá atender todos os pedidos, por mais estranho que pareça, da mãe do seu filho, ou filha. O senhor. vai ser papai de um bebezinho chorão.
Seus olhos, que estavam fixos nos meus, desde que entramos na sala, ficaram cheios de lágrimas. Era a primeira vez que via você ficar tão emocionado, e não conteve as lágrimas.
- Camila, você não sabe como estou feliz! Esse é o presente mais lindo que você podia me dar. Deus me abençoou quando conheci você, agora abençoou nós dois e o nosso amor. Eu amo você cada vez mais!
Você ajoelhou-se, acariciou e beijou minha barriga.
- Não disse que será um bebezinho chorão? Se puxar o pai...
- Gustavo, estou feliz, mas também estou com medo. Nunca pensei em ser mãe assim tão rápido.
- Minha filha, não se preocupe. Tudo vai dar certo. Essa criança já é muito amada por todos. Eu estarei sempre ao seu lado pra ajudar você.
- Não fique preocupada, querida. Não vai faltar quem tranquilize você. Minha mãe também pode ajudar.
- Vai ser uma disputa de avós para paparicar esse pimpolho.
- E você, cunhada, não vai mimar o sobrinho?
- Eu vou ensiná-lo a cantar, ou tocar algum instrumento. Mas só depois que ele parar de chorar e sujar as fraldas.
- Ela fala assim, Guto, mas vai ser a mais grudada ao nenê.
- Tá bom, mas não conte comigo pra trocar as fraldas. E por falar nisso, agora vocês terão de, como diz a Mila, tomar as providências cabíveis: médico, exames, pré-natal, além de começar a pensar no enxoval, etc.
- Querida, faço questão de acompanhar você sempre que for ao médico e fazer os exames.
- E seu trabalho? Nem sempre você poderá me acompanhar, amor. Fique sossegado, a mamãe e a Bia poderão me acompanhar.
- Sabia que ia sobrar pra mim!
- Eu acompanho minha filha, Gustavo. Quando você puder ir, você vai; quando não for possível, eu e a Bianca estaremos com ela.
- Obrigado, Dona Carol. Mas vou fazer questão de ir no exame de ultrassom. Vou querer conhecer nosso filho antes dele nascer.
- Vocês vão querer saber se vai ser menino ou menina? - indagou mamãe.
- Eu gostaria de saber, mãe. Não sei o Guto. Se ele não quiser, tudo bem. Quem chegar, será benvindo, ou benvinda.
- O importante é que nasça com saúde e lindo como a mãe. Também gostaria de saber. Se for menino, já compro uma camisetinha do time do papai. Se for menina, um vestidinho nas cores do time do vovô.
- Vocês torcem para o mesmo time, não adianta querer fazer média. Coitadinho desse bebê! Desde cedo querem ensiná-lo a ser brega!
- Você não tem jeito, maninha!
- Filha, você vai trabalhar? Mesmo indisposta?
- Não vai não, Dona Carol. Vou ligar para o Arnaldo e avisar que ela não irá trabalhar. Mila, ligue para seu médico, ou médica, e veja se pode atender você ainda hoje. Eu irei com você.
- Gustavo, jante conosco hoje. O Paulo gostará de receber essa notícia de você.
- Combinado, Dona Carol. Amanhã, daremos a notícia em casa, para minha família.
Entre os preparativos e o meu projeto, eu continuava trabalhando no escritório de advocacia. Você, como sempre, passava em casa para me levar. Às vezes, subia e tomava café conosco, outras vezes, me aguardava no carro.
Nesse dia, especificamente, você não ia subir, iria me esperar na portaria. Eu não levantei bem, estava com um pouco de tontura e enjoada. Apesar disso, me arrumei. Pensei comigo: devo ter comido alguma coisa que não caiu legal, antes de sair tomo algum remedinho e logo melhoro. Engano meu. Quando saí do quarto e senti o cheiro de café, o enjôo voltou com tudo e corri para o banheiro. A Bianca viu e foi atrás de mim.
- Que foi, Mila? Você não está bem? Você está vomitando?
- Alguma coisa que comi me fez mal.
- Será?
- Vou tomar alguma coisa para o estômago, ou fígado, e vou melhorar.
- Você não vai tomar nem café?
- Bia, nem me fale em café que minha ânsia aumenta.
- Mila! Será que você não está grávida?
- Que idéia, Bia!
- Pensa bem, há quanto tempo veio sua última menstruação?
- No mês passado, eu acho.
- Ih, maninha, com tantas coisas acontecendo na sua vida, você se esqueceu de se previnir.
- Pode ser, mas o Guto nunca esquece.
- Nenhuma vez?
- Só me lembro da primeira vez que tomamos banho juntos, mas só ficamos "brincando", como você gosta de falar.
- Taí, acho melhor você fazer o teste da farmácia, desconfio que, daqui a alguns meses, serei titia.
- Nem me fale, Bia. Eu fico apavorada desde já.
- Deixa de ser boba, Camila! Mesmo que você não fosse casar com o bonitão, você vai ter um filho do homem que você ama... Seu telefone está tocando...
- Deve ser o Gustavo, que deve estar cansado de esperar. Atende pra mim, Bia. E pede pra ele subir.
A Bia lhe contou que eu não estava me sentindo bem e pediu pra você subir. Ela não falou nada do enjôo e da disconfiança que tinha. Você ficou todo preocupado comigo:
- Que aconteceu, querida? O que você tem?
- Nada. Estou indisposta.
- Ela está com enjôo - completou Bia.
Minha mãe lhe ofereceu café.
- Não fala em café, mãe, que a Mila fica mais enjoada.
- Mas a Mila gosta de café, Bia.
- Só o nome está me dando enjôo, mãe.
- Filha, você está grávida?
- Amor?...
- Não sei. Estou enjoada. Por enquanto, é só isso.
- Já falei que você tem de fazer o teste da farmácia, para tirar a dúvida. Se der negativo, tudo bem. Se der positivo, você vai fazer outros exames.
- Eu vou até a farmácia buscar esse teste. Eu sou o mais interessado em saber se vou ser pai. Volto logo.
Você saiu em busca de uma farmácia para comprar o tal teste de gravidez. Voltou com três marcas diferentes. A Bia brincou:
- É só a Mila que precisa fazer o teste, Gustavo. Eu e a mamãe não estamos com sintomas.
- Tudo bem, cunhada. Eu não sabia o qual comprar, por isso trouxe os três.
- Vamos fazer isso logo. Também estou ansiosa.
- Vou ajudar você, Mila - disse minha irmã.
Fomos para o banheiro fazer o tal teste. Demoramos um pouco. Bianca quiz usar os três "kits"; não queria que pairasse dúvidas. Sabíamos que você estava impaciente e mamãe, ansiosa. Enfim, saimos do banheiro. Eu e minha irmã estávamos sérias. A Bia fez questão de fazer o comunicado:
- Sr. Gustavo, eu quero avisá-lo que, a partir de hoje, o senhor terá atender todos os pedidos, por mais estranho que pareça, da mãe do seu filho, ou filha. O senhor. vai ser papai de um bebezinho chorão.
Seus olhos, que estavam fixos nos meus, desde que entramos na sala, ficaram cheios de lágrimas. Era a primeira vez que via você ficar tão emocionado, e não conteve as lágrimas.
- Camila, você não sabe como estou feliz! Esse é o presente mais lindo que você podia me dar. Deus me abençoou quando conheci você, agora abençoou nós dois e o nosso amor. Eu amo você cada vez mais!
Você ajoelhou-se, acariciou e beijou minha barriga.
- Não disse que será um bebezinho chorão? Se puxar o pai...
- Gustavo, estou feliz, mas também estou com medo. Nunca pensei em ser mãe assim tão rápido.
- Minha filha, não se preocupe. Tudo vai dar certo. Essa criança já é muito amada por todos. Eu estarei sempre ao seu lado pra ajudar você.
- Não fique preocupada, querida. Não vai faltar quem tranquilize você. Minha mãe também pode ajudar.
- Vai ser uma disputa de avós para paparicar esse pimpolho.
- E você, cunhada, não vai mimar o sobrinho?
- Eu vou ensiná-lo a cantar, ou tocar algum instrumento. Mas só depois que ele parar de chorar e sujar as fraldas.
- Ela fala assim, Guto, mas vai ser a mais grudada ao nenê.
- Tá bom, mas não conte comigo pra trocar as fraldas. E por falar nisso, agora vocês terão de, como diz a Mila, tomar as providências cabíveis: médico, exames, pré-natal, além de começar a pensar no enxoval, etc.
- Querida, faço questão de acompanhar você sempre que for ao médico e fazer os exames.
- E seu trabalho? Nem sempre você poderá me acompanhar, amor. Fique sossegado, a mamãe e a Bia poderão me acompanhar.
- Sabia que ia sobrar pra mim!
- Eu acompanho minha filha, Gustavo. Quando você puder ir, você vai; quando não for possível, eu e a Bianca estaremos com ela.
- Obrigado, Dona Carol. Mas vou fazer questão de ir no exame de ultrassom. Vou querer conhecer nosso filho antes dele nascer.
- Vocês vão querer saber se vai ser menino ou menina? - indagou mamãe.
- Eu gostaria de saber, mãe. Não sei o Guto. Se ele não quiser, tudo bem. Quem chegar, será benvindo, ou benvinda.
- O importante é que nasça com saúde e lindo como a mãe. Também gostaria de saber. Se for menino, já compro uma camisetinha do time do papai. Se for menina, um vestidinho nas cores do time do vovô.
- Vocês torcem para o mesmo time, não adianta querer fazer média. Coitadinho desse bebê! Desde cedo querem ensiná-lo a ser brega!
- Você não tem jeito, maninha!
- Filha, você vai trabalhar? Mesmo indisposta?
- Não vai não, Dona Carol. Vou ligar para o Arnaldo e avisar que ela não irá trabalhar. Mila, ligue para seu médico, ou médica, e veja se pode atender você ainda hoje. Eu irei com você.
- Gustavo, jante conosco hoje. O Paulo gostará de receber essa notícia de você.
- Combinado, Dona Carol. Amanhã, daremos a notícia em casa, para minha família.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Dois dias depois, você recebeu alta e sua mãe insistiu para que você ficasse uns dias com ela e seu pai. Você resistiu, mas acabou aceitando. Eu, também, dei uma forcinha para que você aceitasse ficar com seus pais. Você queria voltar logo para o trabalho e, na casa deles, era mais fácil conter você em casa.
Continuei trabalhando no escritório, naquela semana. Ligava pra você todos os dias e ficávamos um tempão conversando. Naquele final de semana, seus pais convidou-nos para passarmos o domingo juntos. Precisávamos acertar os detalhes do nosso noivado. A família do Alex, também, havia sido convidada. Ele e a Denise acharam ótima a idéia de Dona Isabel de oficializar as duas uniões no mesmo dia. Nós só não íamos casar no mesmo dia. Uma, você tinha pressa e a Dê queria esperar mais. Ela queria um casamento tradicional, na igreja, eu queria uma cerimônia mais informal, menos pomposa.
Duas semanas depois, seus pais recepcionaram a todos com um jantar magnífico. Alex e Denise reconfirmaram o compromisso que já tinham assumido no aniversário dela. E nós oficializamos o nosso noivado, com as alianças e champanhe, como queria minha irmã.
Eu continuava trabalhando no escritório. Contudo, meu amigo Carlos me apontou uma possibilidade. Eu gostei da idéia e comecei a trabalhar nela, a projetá-la, a desenvolvê-la. Nas minhas horas vagas, me debruçava em cima desse projeto.
Minha amiga Adriana, depois de uma longa viagem pela Europa, havia retornado. Estivera trabalhando e fazendo cursos pela empresa. Ela me ligou, querendo saber das novidades:
- E aí, amiga, já deu uns catas naquele cara que você estava paquerando? Ou já partiu pra outra?
- Nem te conto, Dri. Não parti pra outra, não.
- Então me conta. Deu uns catas nele?
- Estamos noivos, Dri.
- Não acredito! Parabéns! Me conta como rolou essa paixão?
- Foram tantos acontecimentos que nos envolveram... Pra começar, ele é filho do melhor amigo do meu chefe, lá no escritório.
Contei a ela como fomos nos envolvendo e nos apaixonando.
- E eu queria aproveitar para convidar você para ser minha madrinha.
- Camila, que lindo! Claro que aceito seu convite. Só tem um problema, eu vou ficar no país até o final do ano. No começo do ano que vem, vou ser transferida e trabalhar numa filial na Europa.
- Nossa, que chique! Mas fique tranquila, meu noivo tem pressa na nossa união.
- Em vez de ser você a ter pressa, ele é que é o apressado? Puxa, que amor!
- E você, como está seu relacionamento com o engenheiro de alimentos?
- Estamos bem. Ele, também, será transferido. Nós iremos morar juntos na Europa.
- Que bom. Que tal marcarmos um almoço ou jantar, para eu conhecer o seu engenheiro e para você conhecer o meu noivo?
- Legal, Mila. Vou combinar com ele e ligo pra você.
- Vou ficar esperando.
Naquela semana, saimos juntos para jantar. Diego, o engenheiro de alimentos era um homem de, aproximadamente, trinta anos e de poucas palavras. Você e eu não ficamos muito à vontade com ele. Já Adriana, era alegre e espontânea, gostava de falar e brincar, como a Bianca. Você a achou muito simpática e chegou a comentar que o cara não merecia a mulher que estava com ele.
Continuei trabalhando no escritório, naquela semana. Ligava pra você todos os dias e ficávamos um tempão conversando. Naquele final de semana, seus pais convidou-nos para passarmos o domingo juntos. Precisávamos acertar os detalhes do nosso noivado. A família do Alex, também, havia sido convidada. Ele e a Denise acharam ótima a idéia de Dona Isabel de oficializar as duas uniões no mesmo dia. Nós só não íamos casar no mesmo dia. Uma, você tinha pressa e a Dê queria esperar mais. Ela queria um casamento tradicional, na igreja, eu queria uma cerimônia mais informal, menos pomposa.
Duas semanas depois, seus pais recepcionaram a todos com um jantar magnífico. Alex e Denise reconfirmaram o compromisso que já tinham assumido no aniversário dela. E nós oficializamos o nosso noivado, com as alianças e champanhe, como queria minha irmã.
Eu continuava trabalhando no escritório. Contudo, meu amigo Carlos me apontou uma possibilidade. Eu gostei da idéia e comecei a trabalhar nela, a projetá-la, a desenvolvê-la. Nas minhas horas vagas, me debruçava em cima desse projeto.
Minha amiga Adriana, depois de uma longa viagem pela Europa, havia retornado. Estivera trabalhando e fazendo cursos pela empresa. Ela me ligou, querendo saber das novidades:
- E aí, amiga, já deu uns catas naquele cara que você estava paquerando? Ou já partiu pra outra?
- Nem te conto, Dri. Não parti pra outra, não.
- Então me conta. Deu uns catas nele?
- Estamos noivos, Dri.
- Não acredito! Parabéns! Me conta como rolou essa paixão?
- Foram tantos acontecimentos que nos envolveram... Pra começar, ele é filho do melhor amigo do meu chefe, lá no escritório.
Contei a ela como fomos nos envolvendo e nos apaixonando.
- E eu queria aproveitar para convidar você para ser minha madrinha.
- Camila, que lindo! Claro que aceito seu convite. Só tem um problema, eu vou ficar no país até o final do ano. No começo do ano que vem, vou ser transferida e trabalhar numa filial na Europa.
- Nossa, que chique! Mas fique tranquila, meu noivo tem pressa na nossa união.
- Em vez de ser você a ter pressa, ele é que é o apressado? Puxa, que amor!
- E você, como está seu relacionamento com o engenheiro de alimentos?
- Estamos bem. Ele, também, será transferido. Nós iremos morar juntos na Europa.
- Que bom. Que tal marcarmos um almoço ou jantar, para eu conhecer o seu engenheiro e para você conhecer o meu noivo?
- Legal, Mila. Vou combinar com ele e ligo pra você.
- Vou ficar esperando.
Naquela semana, saimos juntos para jantar. Diego, o engenheiro de alimentos era um homem de, aproximadamente, trinta anos e de poucas palavras. Você e eu não ficamos muito à vontade com ele. Já Adriana, era alegre e espontânea, gostava de falar e brincar, como a Bianca. Você a achou muito simpática e chegou a comentar que o cara não merecia a mulher que estava com ele.
domingo, 29 de agosto de 2010
O Dr. Arnaldo disse que precisava dar uns telefonemas, mas desconfio que foi desculpa para nos deixar a sós. Disse que aguardaria seu pai chegar com seu irmão, para começar a tomar as providências cabíveis. Assim que ele saiu do quarto, você disse:
- Estou com sede.
Eu me levantei:
- Eu pego água pra você.
Você me segurou pela mão, quase me puxando.
- Estou com sede da sua boca, do seu beijo.
Impossível resistir ao seu apelo. Passei a mão pelos seus cabelos, acariciei seu rosto com as pontas dos dedos e abaixei-me para beijá-lo. Sua mão entrou por debaixo dos meus cabelos, acarinhando meu pescoço e minha nuca, fazendo com que eu sentisse um arrepio na espinha. Mordi meu lábio inferior, levemente, antes de beijar sua boca. Um barulho no corredor fez eu me afastar.
- Não faz assim, amor.
- Eu estou bem vivo, menina. Este acidente em nada me afetou.
- Percebi. Senti, também. Lembre-se que nós estamos em um hospital. Quando você sair... bom... aí é diferente.
- Por que você não fala o que tem vontade com todas as palavras?
- Você sabe que esse é o meu jeito.
- Deixa de lado essa inibição, pelo menos comigo. Nós vamos viver sob o mesmo teto, minha querida esposa.
- Tá, vou tentar, mas você sabe que me sinto constrangida.
- No começo, sim. Depois você vai se soltando. Vamos tentar. Quando eu sair do hospital, o quê vamos fazer?
- Amor.
- Fala a frase toda.
- Que chato! Quando você sair do hospital, nós vamos fazer amor.
- Você conseguiu! Tá vendo? Daqui a algum tempo, você vai falar transar, depois, fazer sexo, depois trepar.
- Você está muito assanhado! Acho que o acidente afetou sua cabeça! Deve ter caído algum parafuso dessa cachola.
Você riu. Uma enfermeira entrou com uma medicação para ser ministrada. Enquanto isso, fui até a janela, respirar um pouco. Logo que ela saiu, sentei-me, novamente, ao seu lado. Eu tinha ficado séria, porque me senti constrangida.
- Me desculpa, Mila. Deixei você chateada.
- Constrangida.
- Não foi minha intenção. Só queria que você se soltasse comigo.
- Isso vai acontecer naturalmente. Não adianta apressar as coisas.
Nesse momento, a porta se abriu e Dona Isabel adentrou no quarto, com cara de choro, seguida por seu pai, seu irmão e Dr. Arnaldo.
- Filho, o quê foi isso? Você está bem?
Levantei-me e dei meu lugar para sua mãe sentar-se ao seu lado. Juntei-me ao Dr. Arnaldo, ainda sob o efeito do constrangimento que você me causou. Ele percebeu:
- Você está séria, calada. Que foi?
- Nada. Enfim, todo esse estresse com essa situação do Gustavo, me deixou com dor de cabeça. Até saber que estava tudo bem com ele, eu fiquei muito nervosa.
- É melhor você ir para sua casa e descansar um pouco. Eu vou sair com o Augusto, tomar algumas providências e deixo você na sua casa. O Gustavo está bem. E a Isabel não vai sair daqui tão cedo. Amanhã, você volta. E não precisa ir trabalhar.
- Obrigado, Dr. Arnaldo.
Seu Otávio aproximou-se e nos agradeceu por tudo. Dr Arnaldo disse que iria me dar uma carona até em casa, que toda aquela situação tinha me afetado e eu não estava muito bem. Fui até você para me despedir.
- Vou pegar uma carona com o Dr. Arnaldo. Amanhã, eu volto pra ver você, Guto
- Você não está bem, Mila. Que foi?
- Estou bem sim, só um pouco cansada. Amanhã estarei melhor.
- Tem certeza?
- Você vai ver. Vou deixá-lo no colinho da mamãe. Ninguém melhor que Dona Isabel para cuidar desse garotão.
- Obrigado, Camila, por se preocupar com meu filho e cuidar dele com amor e carinho.
- A senhora sabe o que sinto por seu filho.
- Sei, Camila. E sei como ficou angustiada até saber que ele estava bem. Vá descansar, você está precisando, sua carinha não está boa. Amanhã, você estará melhor e poderá vir ver o nosso garotão.
- Tá certo. Tchau, Dona Isabel. Tchau, amor.
Ainda ouvi sua mãe comentar com você:
- Gustavo, você deu um grande susto nessa moça, viu como ela ficou abalada por sua causa?
No caminho para casa, não prestei muita atenção na conversa do Dr. Arnaldo com o Augusto, mas ouvi que falavam sobre o seu acidente.
- É incrível que o Gustavo só tenha quebrado o pulso.
- Pelo que entendi, quando ele percebeu que a colisão era inevitável, ele tentou evitar que batesse de frente e virou o volante para a direita. Isso evitou que ele machucasse as pernas, porém a força com que o "air bag" se abriu, fraturou o pulso. Mas a parte de trás do carro, não teve como evitar. Pelo que sei, ficou bem estragada.
- Puxa! Meu irmão poderia ter quebrado as pernas, ou ficar preso nas ferragens. Que horror!
- Seu irmão é um homem de sorte, Augusto. E inteligente também, ele pensou rápido. Foi o quê o salvou.
Em casa, contei a todos sobre o seu acidente. Disseram que iriam comigo visitá-lo, no dia seguinte.
- Estou com sede.
Eu me levantei:
- Eu pego água pra você.
Você me segurou pela mão, quase me puxando.
- Estou com sede da sua boca, do seu beijo.
Impossível resistir ao seu apelo. Passei a mão pelos seus cabelos, acariciei seu rosto com as pontas dos dedos e abaixei-me para beijá-lo. Sua mão entrou por debaixo dos meus cabelos, acarinhando meu pescoço e minha nuca, fazendo com que eu sentisse um arrepio na espinha. Mordi meu lábio inferior, levemente, antes de beijar sua boca. Um barulho no corredor fez eu me afastar.
- Não faz assim, amor.
- Eu estou bem vivo, menina. Este acidente em nada me afetou.
- Percebi. Senti, também. Lembre-se que nós estamos em um hospital. Quando você sair... bom... aí é diferente.
- Por que você não fala o que tem vontade com todas as palavras?
- Você sabe que esse é o meu jeito.
- Deixa de lado essa inibição, pelo menos comigo. Nós vamos viver sob o mesmo teto, minha querida esposa.
- Tá, vou tentar, mas você sabe que me sinto constrangida.
- No começo, sim. Depois você vai se soltando. Vamos tentar. Quando eu sair do hospital, o quê vamos fazer?
- Amor.
- Fala a frase toda.
- Que chato! Quando você sair do hospital, nós vamos fazer amor.
- Você conseguiu! Tá vendo? Daqui a algum tempo, você vai falar transar, depois, fazer sexo, depois trepar.
- Você está muito assanhado! Acho que o acidente afetou sua cabeça! Deve ter caído algum parafuso dessa cachola.
Você riu. Uma enfermeira entrou com uma medicação para ser ministrada. Enquanto isso, fui até a janela, respirar um pouco. Logo que ela saiu, sentei-me, novamente, ao seu lado. Eu tinha ficado séria, porque me senti constrangida.
- Me desculpa, Mila. Deixei você chateada.
- Constrangida.
- Não foi minha intenção. Só queria que você se soltasse comigo.
- Isso vai acontecer naturalmente. Não adianta apressar as coisas.
Nesse momento, a porta se abriu e Dona Isabel adentrou no quarto, com cara de choro, seguida por seu pai, seu irmão e Dr. Arnaldo.
- Filho, o quê foi isso? Você está bem?
Levantei-me e dei meu lugar para sua mãe sentar-se ao seu lado. Juntei-me ao Dr. Arnaldo, ainda sob o efeito do constrangimento que você me causou. Ele percebeu:
- Você está séria, calada. Que foi?
- Nada. Enfim, todo esse estresse com essa situação do Gustavo, me deixou com dor de cabeça. Até saber que estava tudo bem com ele, eu fiquei muito nervosa.
- É melhor você ir para sua casa e descansar um pouco. Eu vou sair com o Augusto, tomar algumas providências e deixo você na sua casa. O Gustavo está bem. E a Isabel não vai sair daqui tão cedo. Amanhã, você volta. E não precisa ir trabalhar.
- Obrigado, Dr. Arnaldo.
Seu Otávio aproximou-se e nos agradeceu por tudo. Dr Arnaldo disse que iria me dar uma carona até em casa, que toda aquela situação tinha me afetado e eu não estava muito bem. Fui até você para me despedir.
- Vou pegar uma carona com o Dr. Arnaldo. Amanhã, eu volto pra ver você, Guto
- Você não está bem, Mila. Que foi?
- Estou bem sim, só um pouco cansada. Amanhã estarei melhor.
- Tem certeza?
- Você vai ver. Vou deixá-lo no colinho da mamãe. Ninguém melhor que Dona Isabel para cuidar desse garotão.
- Obrigado, Camila, por se preocupar com meu filho e cuidar dele com amor e carinho.
- A senhora sabe o que sinto por seu filho.
- Sei, Camila. E sei como ficou angustiada até saber que ele estava bem. Vá descansar, você está precisando, sua carinha não está boa. Amanhã, você estará melhor e poderá vir ver o nosso garotão.
- Tá certo. Tchau, Dona Isabel. Tchau, amor.
Ainda ouvi sua mãe comentar com você:
- Gustavo, você deu um grande susto nessa moça, viu como ela ficou abalada por sua causa?
No caminho para casa, não prestei muita atenção na conversa do Dr. Arnaldo com o Augusto, mas ouvi que falavam sobre o seu acidente.
- É incrível que o Gustavo só tenha quebrado o pulso.
- Pelo que entendi, quando ele percebeu que a colisão era inevitável, ele tentou evitar que batesse de frente e virou o volante para a direita. Isso evitou que ele machucasse as pernas, porém a força com que o "air bag" se abriu, fraturou o pulso. Mas a parte de trás do carro, não teve como evitar. Pelo que sei, ficou bem estragada.
- Puxa! Meu irmão poderia ter quebrado as pernas, ou ficar preso nas ferragens. Que horror!
- Seu irmão é um homem de sorte, Augusto. E inteligente também, ele pensou rápido. Foi o quê o salvou.
Em casa, contei a todos sobre o seu acidente. Disseram que iriam comigo visitá-lo, no dia seguinte.
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