quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Procuramos pelo médico que havia atendido você. Disseram que ele ainda estava lhe examinando. Uma enfermeira nos atendeu e pediu que aguardássemos, que o doutor viria conversar conosco, em seguida. Ela perguntou se éramos da família. Como sei que eles só dão informações de um paciente para familiares, respondi rapidamente, antes que o Dr. Arnaldo pudesse abrir a boca:
- Sou a mulher dele. Este é o tio, irmão do pai dele.
O Dr. Arnaldo me olhou, esperou a enfermeira afastar-se e falou:
- Mila, vocês ainda não casaram.
- Me desculpa pela mentira. Se eu não falasse que éramos da família, eles iriam nos negar informações sobre a real condição do Guto. E eu disse ser a mulher dele, não a esposa.
- Você ama demais nosso garotão, não é?
- Mais que tudo, Dr. Arnaldo. Por isso, estou tão angustiada por saber dele.
- Ele é forte, você vai ver que deve estar tudo bem.
- Tomara!
O médico veio conversar conosco. Minhas mãos suavam frio.
- Vocês são parentes do Gustavo?
- Sim. Como ele está?
Médico é pior que advogado, gosta de valorizar, enrolar, falar termos técnicos, dificultar para o interlocutor, para o leigo:
- Nossa preocupação maior são os órgãos internos e a possibilidade de hemorragia. Mas já fizemos uma tomografia e parece que nenhum órgão foi afetado. Seu marido teve muita sorte de estar usando o cinto de segurança e o "air bag" diminuiu bem a pancada. Se não fosse por isso, ele poderia até ter morrido. Ele fraturou o pulso esquerdo e teve apenas escoriações. Ele está bem, mas deverá permanecer em observação por mais vinte e quatro horas.
- Podemos vê-lo?
- Sim, ele foi sedado para não sentir muita dor, deve estar acordando. Vou acompanhá-los.
Minha ansiedade era evidente. O médico abriu a porta do quarto e anunciou, solenemente, nossa presença:
- Gustavo, sua esposa e seu tio estão aqui.
Meio sonolento, deitado na cama, com o rosto arranhado, gesso imobilizando o pulso, você abriu os olhos. Corri para perto de você:
- Meu amor, que foi isso?
Você ficou me olhando, sem dizer nada. Eu olhei para o Dr. Arnaldo, sem entender seu silêncio.
- Guto, sou eu, Mila. Você não está me reconhecendo?
- Claro que estou. Estou olhando como você é linda. Eu não perdi a memória. Tio, só não me lembro do meu casamento com esta bela moça já ter acontecido.
- Que bom que não aconteceu nada de grave com você, Gustavo. A Mila falou que éramos da família porque ficou receiosa que nos sonegassem informações a respeito do seu estado de saúde.
- Que susto, Guto! Eu fiquei apavorada quando a Sandrinha me avisou que o hospital estava me telefonando.
- Não fique, menina. Eu estou aqui, meio quebrado, mas vivo. Logo, estarei inteiro, só para você.
- Eu fiquei tão preocupada que não liguei para sua casa, seus pais ainda não sabem do seu acidente. Queria me certificar que você estava bem.
- Fez bem, querida, em não preocupar meus pais.
- Pode deixar, Gustavo. Eu ligo para meu amigo Otávio. Qualquer coisa, eu passo o telefone para você.
Enquanto o Dr. Arnaldo afastava-se um pouco para avisar seus pais, você tomou minha mão:
- Não vai dar um beijinho neste infermo, para uma recuperação mais rápida?
Dei-lhe um breve beijo em seus lábios.
- Que beijo sem graça!
- Você está num hospital, querido. Prometo beijos mais ardentes para quando você sair.
- Só beijos ardentes?
- Pra começar, não acha que tá bom?
- Então, quero ir embora agora.
- Você não pode. O médico falou que vai deixar você de molho por vinte e quatro horas em observação.
Você beijou minha mão e a apertou, baixou a voz para dizer:
- Eu acelerei um pouco porque queria almoçar com você.
Foi a minha vez de ficar olhando pra você, sem falar nada.
- Que foi? Perdeu a voz?
- Você vai me prometer que nunca mais vai fazer isso. Se tivesse acontecido alguma coisa com você... ai, ai, ai. - As lágrimas voltaram a verter dos meus olhos. - Eu não saberia viver sem você. Por favor, amado, não faça mais essas loucuras, eu não quero perder você. Prefiro ficar sem você por algumas horas, do que ficar sem você pelo resto da vida.
- Eu só queria estar junto de você, querida.
- Nós temos a vida inteira para ficar juntos, você vai até enjoar.
- Garanto que não. Enxugue essas lágrimas, minha menina. Eu prometo que não vou deixar você, mesmo se eu morrer, vou ficar como o "Ghost", ao seu lado, em espírito.
- Não brinca com isso, nem me fale em morrer. Se você morrer, eu mato você.
- Aí eu vou ficar morto duas vezes.
O Dr. Arnaldo juntou-se a nós. Puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, que estava sentada mais próxima de você.
- Já conversei com seu pai, Gustavo. Sua mãe estava ao lado e, quando ouviu seu pai falando em acidente e hospital, ficou desesperada. Tive de esperar ele acalmar a Isabel, que não parava de chorar. Ela não ficou sossegada enquanto não falou comigo e eu a assegurei que você estava bem, que a Camila estava aqui ao seu lado, que tudo foi grande um susto. Eles estão vindo para cá, com o Augusto. E ele, ficou de ligar para o Alex e pedir a ele que informe a Denise.
- Isso tudo, porque não aconteceu nada de grave, Arnaldo. Imagine se tivesse acontecido!
- Nem queremos imaginar, querido!
- O médico disse que você teve sorte, Gustavo. Você é tão prudente, o quê aconteceu?
- Eu devo ter me distraído por algum instante e, um segundo, basta para acontecer acidente, Arnaldo.
- Ainda bem que você estava com o cinto de segurança e seu carro ter "air bag" foi uma sorte. Foram isso que não deixaram acontecer nada de grave com você.
- E o meu carro? Deve ter ficado bem estragadinho. Será vai ser perda total?
- Não se preocupe com isso agora, Gustavo. Quando seu irmão chegar, vou com ele cuidar dessa questão. Quanto ao seguro do veículo, eu agilizo tudo pra você. Já pedi para o Felício informar sobre seu acidente no seu escritório.
- Obrigado, tio Arnaldo.
- Esse negócio de tio foi idéia da sua esposa.
- É, Arnaldo, ela é bonitinha, e pensa rápido.
- Ei, olha como fala!
Todos rimos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Na segunda-feira, eu era só sorriso. Nada me tiraria do sério. A felicidade estava estampada em meu rosto. Quando cheguei no escritório, Sandrinha foi a primeira a notar a mudança no meu semblante:
- Bom dia, Mila. Pelo que estou percebendo, o fim de semana foi muito bom. Você está com uma ótima aparência.
- Nossa, Sandrinha, aconteceram tantas coisas neste final de semana. Aliás, desde sexta-feira estão acontecendo muitas coisas, ou melhor, a semana passada toda. Porém, o que interessa é que o final de semana foi maravilhoso.
- Alguma coisa me diz que um certo Gustavo é o motivo principal dessa euforia.
- Parece que está escrito na minha testa, não é, Sandrinha?
- Vai me contar ou vai ficar fazendo suspense?
- Claro, de qualquer forma, você vai ficar sabendo. Nós vamos nos unir, casar.
- Dra. Camila, meus parabéns! Vocês formam um lindo casal.
- Não me chame assim, Sandrinha. Você, não. Eu não vou chamar você de Dra. Sandra, quando você se formar.
- Tá bom, Mila. Me desculpa. Eu considero muito você. Mas, me conta, como o bonitão fez o pedido?
- É uma longa estória. Tenho que começar contando a você o que aconteceu a semana passada. Eu contei da Dê, irmã dele, o quê aconteceu um dia antes do níver dela. Depois, no dia seguinte, no jantar, o namorado dela, o Alex, deu um anel de noivado a ela.
- Tudo isso você me contou.
- Mas não contei o que aconteceu na sexta-feira.
- Não, você foi almoçar e demorou bastante. Depois, quando voltou disse que ia subir até o escritório do Gustavo e quando voltou, pegou suas coisas e foi embora. O quê aconteceu? Vocês brigaram?
- Não. Naquele dia, o Guto não iria poder almoçar comigo. E eu tinha que colocar uma conversa em dia com o Carlos, meu amigo jornalista.
- O Carlos Santana? O Gustavo não gostou, ficou com ciúmes e brigou com você, foi isso?
- Não, o Guto sempre soube que o Carlos é só meu amigo, desde o tempo da faculdade. Acho que ele nunca viu motivo para sentir ciúmes. Eu almocei com o Carlos e, depois, ele me levou até a emissora, para conhecer o "habitat" dele. É interessante, mas deve ser uma loucura trabalhar sempre correndo contra o tempo.
- E...?
- Quando cheguei, não tinha nada para fazer. Eu resolvi fazer uma visitinha surpresa para o meu lindinho. Você nem imagina quem subiu comigo no elevador até o escritório dele.
- Quem?
- A "ex", a tal de Cíntia, um tipo bem perua. Eu não sabia que era ela, mas alguma coisa naquela mulher não estava no lugar. Na verdade, ela não estava no lugar.
- E aí vocês sairam no tapa?
- Sandrinha, você está parecendo minha irmã ou minha amiga Adriana! Eu fiquei na minha, pra ver qual era a dela. Ela disse que estava desempregada e precisava de referências. Eu acabei falando umas verdades para ela. O Gustavo não gostou nada dela ter ido procurá-lo. O clima entre nós ficou chato por causa disso tudo. Resolvemos ir pra casa, cada um pra sua. E deixar a poeira baixar. No sábado, saimos, fomos jantar e...
- E ele fez o pedido?
- Não, eu passei a noite no apartamento dele.
- Ai, ai, ai.
- Como eu nunca passei a noite fora de casa, você nem imagina a bronca do meu pai em nós dois. O Gustavo entendeu a preocupação, mas enfrentou meu pai. Aí, ele aproveitou e falou que queria ficar comigo, queria casar, que já estava na hora de assumir um compromisso.
- Que lindo! Parece estória de novela! E pra quando é o casório?
- Não sei. Por vontade do Guto, eu já estaria morando com ele. Ainda vamos juntar as famílias para oficializar. Eu estive pensando nessa estória de casamento. Eu sei que é o sonho de muitas mulheres, mas, na verdade, eu não gostaria de casar na igreja, véu, grinalda e flor de laranjeira, ao som da marcha nupcial. Eu acho isso muito batido. Se vamos casar, queria algo diferente.
- Eu adoro casamentos diferentes e inusitados. Talvez, você possa fazer seu vestido de noiva num tom de vermelho bem vibrante.
- Eu iria adorar inovar desse jeito. Ao som de uma balada romântica do Bon Jovi, solos de guitarra. Nossa, que escândalo! Seria o máximo! Os mais velhos iriam detestar, inclusive nossos pais.
- Seria incrível, Mila.
- É, mas sei que terei de ser mais tradicional. Sem marcha nupcial, com certeza!
Nesse momento, o Dr. Arnaldo chegou e veio em minha direção:
- Meus parabéns, Camila. Já fiquei sabendo da novidade. Vocês se completam e formam um casal muito bonito.
- Nossa! Obrigado, Dr. Arnaldo. Como ficou sabendo tão rápido?
- Encontrei o Gustavo, agora. Ele estava saindo para uma reunião, mas parou um minutinho só para me contar que vocês assumiram um compromisso e vão se casar.
- Como o senhor disse uma vez, o gelo derreteu.
- Que gelo? - indagou Sandrinha, sem entender sobre o quê falávamos.
- Não é nada, Sandrinha. É coisa de casal.
O Dr. Felício adentrou no recinto e quiz saber o quê se passava ali. Dr. Arnaldo informou a ele, que me cumprimentou. A manhã transcorreu tranquila, sem atropelos. Resolvi que não iria almoçar, só tomaria um suco e comeria um sanduiche natunal. Como você não havia ligado, achei que a tal reunião havia se estendido para um almoço de negócios. Não me preocupei, pois sabia da sua rotina. À tarde, nos veríamos, nos falaríamos e algo mais. Mal sabia que o pior estava por vir. A Sandrinha entrou correndo na minha sala, nem usou o interfone:
- Mila, atende o telefone, é urgente, é do hospital?
- Hospital?...Alô?...Sim, é Camila, o quê aconteceu?...Sim, Gustavo é meu noivo...Acidente? Como ele está?...Estou indo, imediatamente.
Comecei a tremer, meus olhos não conseguiam segurar as lágrimas.
- O que foi, Mila? O quê aconteceu com Gustavo?
- Ele sofreu um acidente de carro. Eu não sei como ele está, não me falaram. Dizem que não falam por telefone. Sandrinha, temo pelo pior.
- Não, Mila. Não pense assim. Vai dar tudo certo.
- Estou indo para o hospital. Avise o Dr. Arnaldo, por favor. Depois, de lá, darei notícias.
- Não precisa me avisar, eu vou com você, Camila.
- Dr. Arnaldo...
- O Gustavo é como um filho pra mim. Vamos?
Fomos para o hospital. Meu coração estava nas mãos, as lágrimas não paravam de rolar pelo meu rosto. Chegando lá, aquele cheiro característico de álcool, éter, medicamentos, me deixou atordoada, mas mantive-me firme. Queria saber de você, meu amor, queria vê-lo, saber se estava tudo bem e como estava.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Foi um ótimo domingo em família. À noite, fomos a casa de seus pais. Você estava ansioso para comunicá-los sobre nossa união. Denise havia saído com Alex e Augusto, também, não estava. Seus pais estavam sozinhos e ficaram muito felizes com nossa visita. Você começou a falar, em tom solene:
- Pai, mãe, eu gostaria de fazer um comunicado a vocês. Eu decidi me unir a esta linda moça que me acompanha e que, ultimamente, está sempre ao meu lado, nos bons momentos e nos que não são tão bons, também. Ela conseguiu derreter o gelo em que meu coração havia se transformado e resgatou em mim, um homem que eu jamais pensei em ser.
Eu sorri para você e entrelacei meus dedos entre os seus. Você beijou minha mão. Seu Otávio permanecia sério, Dona Isabel sorria, mas seus olhos estavam marejados de lágrimas.
- Filho, estou feliz porque vejo o amor entre vocês. Quando você falou da Camila, pela primeira vez, eu me preocupei. Depois, quando a conheci, e a família dela, notei a educação que eles deram a ela, e percebi que você tinha tirado uma sorte grande. Desde o primeiro dia, que a conheci, eu percebi que ela olhava pra você cheia de amor. Ia depender de você, deixar-se conquistar por esse amor. Porque ela estava disposta a conquistar você e seu amor.
- Nossa! Dona Isabel, eu fui tão transparente assim?
- Não, minha filha, é que o amor deixa as pessoas, principalmente nós mulheres, com uma aura iluminada. E se você fosse uma impostora, dissimulada, meu faro de mãe detectaria logo. Vou dizer uma coisa pra você, Camila. E olha que sogra não costuma falar essas coisas, mas você é um presente dos deuses para o Gustavo.
- Fico muito feliz com sua aprovação, Dona Isabel. O Gustavo é que tudo de bom pra mim. Se eu sonhasse com um príncipe encantado, como nos contos de fada, ele não chegaria a ser metade do que o Guto é.
- Pai, o senhor não vai falar nada?
- Sua mãe, também, fala por mim, filho. Eu gostei da Camila desde o primeiro dia. Aliás, isso foi unanimidade aqui em casa. Sabe por quê? Porque todos nós notamos a sinceridade dela. E você é sim, transparente, Camila. Você nunca conseguiria mentir, fingir algo que você não é. Seria uma péssima advogada de defesa, se não estivesse convicta da inocência do seu cliente. Ou seria uma péssima promotora, se não estivesse convencida da culpa do réu.
Seu pai tinha de lembrar da profissão que eu estava prestes a largar. Baixei os olhos, você me abraçou. Ele continuou:
- Menina, você conseguiu o quê algumas mulheres, mais experientes que você, tentaram e não conseguiram, derreter o coração de pedra e gelado deste meu filho. Ele, hoje, é outra pessoa. Graças a você, ele voltou a ser uma pessoa melhor. Até conosco, da família, ele é mais carinhoso, mais afetuoso. Eu só espero que vocês não arraste este noivado por muito tempo.
- Pai, por mim, acabaria hoje mesmo, eu já queria levá-la pra minha casa, mas não é certo. Os pais dela, também, não iriam aprovar.
- Não precisa exagerar, Gustavo. Precisamos reunir as famílias num jantar ou almoço para oficializar.
- Se a Denise não se incomodar, poderemos chamar a família do Alex, também. Claro, se vocês dois não se opuserem. Oficializaremos os dois noivados, dos nossos dois filhos. - sugeriu Dona Isabel.
- Eu gosto da idéia, Dona Isabel. Por mim, tudo bem. Guto?
- Também, não me oponho. Se a Dê e o Alex toparem sua sugestão, mãe, pode marcar.

domingo, 1 de agosto de 2010

- Onde está o Gustavo? - perguntou Dona Carol
- No meu quarto, cochilando.
- Você passa a noite na cama dele e ele fica na sua, durante o dia, a diferença é que agora ele está sozinho, coitado! - Bia não deixava passar nada.
- Ele está descansando um pouco, Bia.
- Irmãzinha, você deixou-o tão cansado assim?
- Papai também está cochilando no sofá, você vai perguntar se a mamãe deixou-o cansado, Bia?
- Ei, vocês duas, vamos acabar logo com essa louça. Eu ainda quero fazer um bolo para o lanche - determinou Dona Carol.
- De chocolate? - eu e Bia perguntamos juntas.
- Pode ser. Se o Gustavo também gostar, faço de chocolate.
- Então, pode fazer, mãe. Ele gosta.
- Olha só, mãe. Ela já conhece os gostos do futuro marido.
- Muito bom. Vai aprendendo Bianca. Se você quer agradar seu marido, seu namorado, vai conhecendo os gostos dele. Nada pior do que você querer agradar e chegar com algo que ele não gosta, seja lá o que for. Isso vale pra ele, também.
- Observadora como a Mila é, acho difícil que aconteça.
- Mas pode acontecer. Aí, você tem de compensar a gafe.
- Já sei, por alguma coisa que ele adore de paixão, não é mesmo, Dona Carol?
- Isso mesmo, Mila. Aprendeu direitinho.
- Ih, tô vendo que vou bombar nessa matéria!
- Com o tempo, você vai aprendendo, Bianca. Ou achará outros meios de agradar o seu escolhido.
- Que assim seja, mamãe!
Mamãe começou a fazer o bolo, eu e Bia nos encarregamos de preparar um suco, sanduiches, café, patê, etc. Algum tempo depois, ouvimos a televisão transmitindo jogo de futebol.
- Papai já está assistindo futebol - falei.
Bia deu uma olhada pela porta da cozinha:
- E ele não está só. Agora, ele arrumou companhia. Será que os dois torcem para o mesmo time?
Bastou Bianca falar, para o tal time fazer um gol e os dois vibrarem.
- É, maninha, domingo à tarde, papai vai levar o seu fofo pro jogo.
- Deixa eles se entenderem, Bia, pelo menos assim, papai não fica pegando no nosso pé. E se eu passar a noite fora de casa, ele não embaça.
- Esperta você, hein, Mila? Já está pensando em passar outras noites fora de casa, é?
- Bia, agora ele é meu noivo, em breve, estaremos dividindo o mesmo teto.
- Filha, eu sei que você está muito feliz, mas sei, também, que vou sentir muito a sua falta, quando você deixar esta casa.
- Não, mamãe, eu estarei sempre aqui, não vai dar para sentir falta.
- E se ela tiver um montão de filhos, esta casa vai ficar parecendo uma creche, pode esperar - Bia não perdia uma.
- Por que você acha que vou ter um montão de filhos, Bia?
Bia riu:
- O Gustavo não tem cara de perder tempo. E eu acho que você... bom, pode ser que eu esteja enganada. Mas logo, deve pintar um herdeiro por aí.
- Não vamos colocar o carro na frente dos bois, Bianca. Tudo tem seu tempo.- falou mamãe.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Depois do almoço, papai deitou-se no sofá e cochilou. Chamei você para meu quarto, queria falar com você. Mamãe e Bia ficaram na cozinha cuidando da louça. Fechei a porta, não queria ser interrompida. Você brincou:
- O que você vai fazer comigo? Seus pais estão lá fora, hein!
- Eu quero falar com você. Lembra que eu disse que, quando eu tomasse uma decisão, você seria o primeiro a ficar sabendo? Pois, então. Eu tomei uma decisão. Eu sei que não vai agradar algumas pessoas, mas se eu não a tomasse, seria como se tivesse me auto flagelando.
- O que foi, querida? Que decisão é essa que tomou? O que tanto a afligia?
- Minha profissão, Gustavo. Vou abandonar o Direito. Não me sinto à vontade para exercer a profissão. Eu achei que poderia, mas cada vez que tenho que desempenhar a função, me sinto sufocada, tolhida, infeliz. Não me sinto realizada.
- E o que você pretende fazer?
- Ainda não tenho muita certeza. O Carlos, você lembra dele, o jornalista, me convidou para fazer um teste para trabalhar na redação da emissora em que ele trabalha, mas não aceitei. Eu disse a ele que essa loucura de trabalhar com jornalismo, também não tem a minha cara. Ele ficou de me ajudar a encontrar alguma coisa que eu possa fazer.
- E você já pretende deixar o escritório do Arnaldo?
- Ainda não. Não vou deixá-los assim. Também, tenho de amadurecer o que vou fazer. Enquanto isso, continuo com eles. Eu não sei, mas acho melhor, também, ainda não contar para minha família.
- Também acho melhor, Camila. Até você decidir o que vai fazer, além de ser minha esposa e mãe dos nossos filhos, você não deve contar a eles sua decisão. Não comente nada nem no escritório. De repente, você pode repensar e voltar atrás. Por enquanto, não conte a ninguém. O que você decidir fazer, que deixe você feliz e realizada, vai me deixar feliz também. Eu darei o meu apoio. Só espero que não escolha algo que me deixe sozinho e abandonado por muito tempo, como ser aeromoça ou trabalhar em cruzeiros internacionais.
- Imagine que eu iria deixar você por tanto tempo! De jeito nenhum, amor. É mais fácil eu decidir ser sua secretária, para ficar na sua sombra, que largar você solto por aí.
- Eu iria adorar ter você como minha secretária. Iria chamar você toda hora, pedir para você sentar no meu colo e anotar alguma coisa na minha agenda, ou qualquer coisa assim, só para beijar seu pescoço e acariciar suas coxas.
- Isso é assédio. Você pode ser denunciado e responder por isso.
- Olha aí, lá vem a advogada. Quer largar a profissão, mas parece que já incorporou muita doutrina, doutora Camila.
- Não tem como fugir, querido. Muito do aprendizado vai me acompanhar a vida toda. Eu vou deixar de exercer, mas não vou deixar de ser.
- Vem cá. Não se preocupe. Você vai se sair bem no que escolher e eu estarei com você.
- Guto, agradeço por não me recriminar e me achar imatura por tomar uma decisão assim, a essa altura do campeonato. Seu apoio é muito importante para mim.
- Não é imaturidade, amor. As pessoas mudam. Tem gente que muda de profissão depois de dez, vinte anos exercendo uma, que não gostava, por outra, que lhe traz mais alegria. Agora, vem cá, quero um beijo, estou com saudades da sua boca.
Deitamos na minha cama e ficamos abraçados, em silêncio, durante algum tempo. Você adormeceu. Levantei bem devagar, fechei a cortina e cobri você com uma manta. Fui para a cozinha com mamãe e Bia.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Fui para meu quarto, trocar de roupa. Bia veio atrás de mim, sedenta por detalhes da minha noite:
- Você vai me contar?
- Se quer detalhes picantes, esquece. Eu conheço você, adora essas coisas.
- Não é isso, Mila. Dessa vez, eu sei que não ficou só na tentativa, como você me contou. Aqueles dois imbecis que você se relacionou não eram de nada. O Gustavo, porém, é um homem experiente, que sabe das coisas. Deve ter feito tudo direitinho e não deve ter deixado você na mão.
- O Gustavo é um homem maravilhoso e muito carinhoso...
- E gostosão.
- Bia, como você fala assim do meu namorado?
- Primeiro, ele não é mais o seu namorado, agora é seu noivo, futuramente seu marido, mas já é o seu homem, querida irmã. Depois, falo o que ele aparenta ser como homem. Não fique com ciúmes, eu prefiro rapazes um pouco mais jovens, que não sejam tão sérios como o seu fofo.
- Minha irmã, você fala com tanta segurança, como se fosse uma 'expert' no assunto!
- Posso não ser uma 'expert', mas tenho muito mais experiência que você, Mila.
- Você nunca me contou...
- Claro, tinha receio que você pudesse contar para a mamãe, porque eu era mais nova e tinha de seguir seu exemplo. Papai e mamãe pegaram tanto no seu pé, que esqueceram um pouco de mim. Então, pude respirar um pouco, sem a pressão que havia sobre você.
- Você tem razão, papai e mamãe me reprimiram bastante. Mas isso não importa mais. Eu quero saber de você e o que minha irmã caçula pode me ensinar com sua vasta experiência.
- Também, não sou tão rodada assim. Não sou 0 km, mas o ponteiro não andou tanto. Vou contar pra você. Minha primeira vez foi com aquele nosso vizinho, o Bruno, que a mãe era professora. Eu tinha dezessete anos, quase dezoito.
- Eu me lembro, vocês estavam sempre estudando juntos.
- Não era bem estudar que fazíamos juntos, principalmente quando ficávamos sozinhos. Podemos dizer que aprendemos muito, um com o outro. Depois disso, você sabe os poucos namorados que tive. E não tive nenhuma aventura avulsa por aí. Se não estou namorando, não saio por aí procurando um extra, eu me viro sozinha.
- Como assim?
- Tenho meus brinquedos de criança grande.
- Bia! Eu nunca imaginei...
- Você nem imagina que certos brinquedos são melhores que alguns namorados que tive.
- Você não tem receio que alguém possa encontrar esses apetrechos em seu quarto?
- Não, eles ficam bem guardados e trancados, não tem perigo. Você deveria experimentar alguma coisinha assim.
- Talvez eu pudesse precisar antes, agora não.
- Aí que você se engana, Mila. Você não vai precisar para brincar sozinha, mas poderá achar coisinhas muito interessantes para brincar a dois. Coisinhas para deixar o clima mais...sexy entre vocês. Eu vou levar você a uma sex shop e vou dar um presente para vocês dois. Você vai escolher o que quiser.
- Bianca, o que eu posso querer?
- Não sei, lá você escolhe. Não precisa ser algo que você se envergonhe. Pode ser um óleo para massagem, que, tenho certeza, ambos irão gostar e não é nada inibidor.
- Tá bom, me convenceu.
- Eu não ia querer que você saisse de lá trazendo uma fantasia e botas de couro e um chicotinho para você, ou uma boneca inflável para o Guto.
Começamos a rir da situação.
- Já pensou se o Gustavo visse você vestida de espartilho de couro, botas de cano longo, batom bem vermelho e um chicotinho na mão?
- Das duas, uma, Bia. Ou ele iria adorar a novidade, ou detestar, pegar o chicote e me bater na bunda.
- Você é exagerada, Mila. Acho que vocês iriam se divertir muito.
Rimos muito. Estava escovando os cabelos para prendê-lo, puxando para trás, quando Bia viu meus brincos.
- Mila, que brincos lindos! Quando você comprou? Você não me mostrou. Você me empresta qualquer dia?
- Esses não.
- Por que não?
- Porque esses são especiais. Foi um presente do meu noivo.
- Hum, fresca! Fez amor com ele uma vez, ganhou um presente caro e ficou metida.
- Duas.
- Duas o quê?
- Hoje, de manhã, também. Ontem, à noite, e hoje.
- Minha irmã, você está querendo tirar o atraso? Gostou da brincadeira, né, sua safada?! E eu achando que eu era sapeca!
- Bianca, eu estou amando, pense o que quiser.
- Mila, você está feliz como nunca vi, isso é o que importa. Você está amando e é muito amada por aquele homem bonitão que está na sala com nossos pais. Espero, algum dia, encontrar um "Gustavo" na minha vida, que me faça feliz, como você está e sinta-se feliz ao meu lado, como ele está ao seu.
- Você vai encontrar, Bianca. Quando menos esperar.
Mamãe veio nos chamar para ajudar no almoço. Queria fazer alguma coisa especial para o domingo. Tinha um convidado especial, o futuro membro da família. Ela já gostava dele desde o primeiro momento que o conhecera. E conhecendo Dona Carol, sabia que iria começar a mimá-lo como um filho.

domingo, 4 de julho de 2010

Fomos para minha casa. Eu já estava com o coração na mão. Tive de tocar a campainha, porque, para ajudar, esqueci minhas chaves. Ouvi meu pai, perguntar, nervoso, quase gritando:
- Onde está a Camila? Não chegou ainda?
Através da porta, ouvi a Bia responder:
- Acabou de chegar. E não está sozinha.
Minha irmã abriu a porta para entrarmos. Quando passei, ela falou baixinho no meu ouvido:
- Você está cheirando a sabonete.
Meu pai estava com cara de poucos amigos, só faltava estar com o cinto na mão para me bater:
- Isso são horas de uma moça de família chegar em casa? Você nunca fez isso, eu exijo uma explicação. Onde a senhora estava até essa hora?
Meu pai estava tão nervoso, que havia ignorado sua presença.
- Seu Paulo, eu posso explicar.
- Sr. Gustavo, o senhor, que me parecia um rapaz responsável, sério, desaparece com minha filha até essa hora! Acho bom os dois explicarem.
- Primeiro, eu sou sim, um homem sério e responsável, senão não estaria aqui, dando explicações ao senhor. A Camila estava comigo, no meu apartamento.
A Bianca, que estava só ouvindo a conversa, arregalou os olhos, quando ouviu você falar onde eu estava.
- E o senhor me diz isso numa boa? Que passou a noite com minha filha? Só falta me dizer que não aconteceu nada de mais, que passaram a noite jogando dominó.
- Eu estou contando a verdade. É melhor do que lhe falar que fomos pra balada, dançamos a noite toda, bebemos, fumamos ou sei lá mais o quê. E o senhor sabe que não ficamos jogando dominó.
- Então, você confirma que vocês dormiram juntos?
- Sim, já que o senhor quer que eu fale com todas as letras, dormimos juntos sim, fizemos amor sim. Camila não é mais uma criança, é uma moça responsável. Eu amo sua filha, ela é a mulher da minha vida.
Eu não conseguia falar nada, nem mover-me. Bia estava boquiaberta. Dona Carol permanecia sentada no sofá, só observando. E você acrescentou, já começando a ficar irritado com a situação:
- E se o senhor for daqueles pais antiquados, retrógrados, que põe a filha para fora de casa por ela passar a noite com um homem, e for pôr a Mila pra fora de casa por causa disso, eu já a levo embora pra minha casa, agora.
Chegou a vez da Dona Carol interferir:
- Calma, Gustavo. Nós não estamos no século passado, ninguém vai pôr ninguém pra fora de casa. Nós só ficamos preocupados, porque a Mila nunca passou a noite fora de casa.
- Me desculpa, Dona Carol, não quiz ofendê-los.
- Eu compreendo. Meu marido saiu do sério e você se irritou. Tudo bem. Desde a primeira vez, que você veio aqui, trazer a Mila, eu percebi que você a olhava de forma diferente. Eu sempre soube que vocês iriam ficar juntos. Até que demorou. Vocês são jovens, tem mais é que se amarem.
- Dona Carol, a senhora está surprendendo! - brincou a Bia.
- Seu pai já foi um jovem impetuoso, ele sabe do que estou falando.
Bia já escrachou:
- Mamãe contando segredos de alcova com papai!
- Comporte-se, Bia - bronqueou papai.
Bia nem ligou:
- Então, a senhora e o papai andaram dando uns catas antes de se casarem?
- Bianca, já falei.
Minha irmã acabou descontraindo o clima. Até meu pai achou graça no jeito dela e desfez a expressão severa. Eu ainda permanecia paralizada. Apesar de tudo, sentia vontade chorar. Não sabia porquê. Estava tudo bem. Mas você ainda tinha o que falar:
- Seu Paulo, Dona Carol, peço que me perdoem ter saído do sério.
- Nós sabemos que você gosta de nossa filha, mas...
- ...mas eu quero aproveitar a presença de toda família, inclusive da Bia, porque eu gostaria de informá-los, inclusive eu nem falei com a Mila, mas se ela aceitar, eu quero me casar com ela, viver com ela, o que ela quiser. Eu sei que quero estar ao lado dela. Eu já passei por muitas coisas, traição, desilusões, decepções. Eu não acreditava mais no amor. Tornei-me um homem frio, sem sentimentos. Até conhecer a Camila. Ela foi chegando, de mansinho e me domou completamente. Agora, você me tem aos seus pés. - Você se ajoelhou na minha frente, tomou minha mão. - Quer passar o resto da sua vida comigo? Ou enquanto durar nosso amor? Eu espero que dure muito, muito, muito...por uma eternidade.
Eu não me contive. As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto. Não esperava seu gesto, seu pedido, sua atitude. Tudo estava acontecendo tão rápido. Tinha certeza que amava você e queria você e ficar com você. Olhei para todos, ansiosos pela minha resposta, inclusive você.
- Você está certo disso, Gustavo?
- Eu não falaria tudo isso perante sua família se não estivesse certo do quero, Camila. Estou aqui me comprometendo com você e sua família porque amo você. E sei que você me ama também, portanto...
- Claro, amo você, quero ficar com você, o que for, a resposta é sim.
- Podemos brindar com champanhe? - perguntou Bia.
- Ainda é cedo - respondeu papai - Brindaremos no almoço. Hoje, nós temos um convidado especial, o mais novo membro da família.
- E as alianças, cunhado?
- Querida Bia, as alianças serão providenciadas e logo vamos juntar as famílias e oficializar nosso noivado, o mais breve possível, prometo.